Por se revelar uma verdadeira ensemble piece, com dimensões históricas e de sensibilização para a pandemia da década de 1980, It’s a Sin é a nossa sugestão deste mês. Prepara-te para rir, mas tem sempre lenços à mão porque este drama com pitadas de comédia tem uns quantos plot twists. O enredo começa em setembro de 1981, quando as vidas de um grupo de jovens homossexuais de diferentes partes do Reino Unido se cruzam em Londres. Seja por questões de estudo, trabalho ou emancipação de lares conservadores, os protagonistas saem de meios pequenos à procura de divertimento e munidos de ambição para seguir os seus sonhos. It’s a Sin é sobre como estes aprendem a expressar-se sexualmente, sobre uma revolução (por vezes) pacífica conta o estigma social face à SIDA (ou VIH – Vírus de Imunodeficiência Humana) e sobre laços de amizade inquebráveis.

Graças a um argumento sólido que joga de forma inteligente com o humor e o inevitável drama da morte, uma sombra constante no desenrolar de cada capítulo, esta minissérie afirma-se como uma das melhores do ano. De resto, destacamos as personalidades distintas que agarram o espectador ao pequeno ecrã, os hits musicais dos anos 80 e as raves que nos fazem acreditar por breves momentos que a ignorância é uma bênção.

O projeto, exibido entre 22 de janeiro e 19 de fevereiro, conta apenas com uma temporada de cinco episódios e está disponível na HBO Portugal. A criação e argumento têm a assinatura do britânico Russell T Davies, responsável pelo revival de 2005 do franchise de Doctor Who e também pelas séries televisivas Years & Years ou Queer as Folk.

Personagens:

Richard Tozer (Olly Alexander) – Envergonhado e incapaz de “sair do armário” para evitar desiludir os pais, muda-se para Londres para estudar advocacia. Contudo, ao conhecer Jill Baxter, que depressa se torna a sua melhor amiga, decide dedicar-se ao curso de Inglês e Drama. Com a mudança no seu percurso académico, tendo a ambição de se tornar um ator famoso, ganha cada vez mais confiança a nível pessoal e vai de introvertido a borboleta social das raves e house parties. Perspicaz e atraente, acaba muitas vezes a ter sexo desprotegido com outros homens, aumentando o seu risco de apanhar VIH.

Jill Baxter (Lydia West) – Produto de um lar avant-garde para tempos em que não se sabia muito acerca de uma pandemia fatal, Jill sonha ganhar a vida como atriz, mas ao longo da série revela-se uma mulher de causas. Voz da razão e dona de um altruísmo raro, vive e olha pelo grupo de protagonistas ao partilhar com eles a mesma casa. No fundo, cultiva a amizade e inclusividade sem nunca pedir nada em troca. Sempre disposta a ajudar nos períodos mais difíceis, toma a iniciativa de se informar acerca do vírus para não cair no medo de também poder estar infetada.

Roscoe Babatunde (Omari Douglas) – A excentricidade é a característica mais proeminente de Roscoe e vem pela primeira vez à tona quando este sai de casa dos pais para rumar a Londres. Cansado de viver num lar de pais nigerianos extremamente religiosos que acreditam que este tem o demónio no corpo por ser homossexual, liberta-se dessas amarras para encontrar independência. Sociável, opinativo e sempre com algo para dizer, luta pelo fim do estigma de que os gays são alvo, acusados de promiscuidade e de espalhar o vírus pela sociedade.

Colin Morris-Jones (Callum Scott Howells) – Ingénuo e strait-laced, muda-se do País de Gales para Londres e começa a trabalhar como aprendiz num alfaiate. Lá conhece Henry Coltrane (Neil Patrick Harris), que vive com o seu companheiro há vários anos. Através da história de vida deste, Colin aprende a ‘soltar-se’ e como consequência trava amizade com os restantes personagens principais. A sua jornada conta com várias reviravoltas imprevisíveis que lhe dão uma profundidade gradual e nos fazem perceber que ninguém é imune ao medo de apanhar o vírus sem cura.

Ash Mukherjee (Nathaniel Curtis) – É um grande amor na vida de Richard e junta-se a Jill para ajudar no combate à normalização da homossexualidade, destacando-se pela sua lealdade para com o grupo de amigos. Mais calado e caracterizado por uma confiança silenciosa, com o passar dos anos torna-se particularmente carinhoso e sensível. Ao contrário de Roscoe ou Ritchie, não precisa de falar alto ou de dar nas vistas para ser ouvido. No entanto, acaba também por entrar em manifestações para se juntar à luta.

Menções honrosas para Henry Coltrane, mas também para Valerie Tozer (Keeley Hawes) e Clive Tozer (Shaun Dooley), os pais de Richard que, apesar de gozarem de pouco tempo de ecrã, acrescentam qualidade e impacto emocional à série.