O ano era 2014 e todos nos preparávamos para aquela que seria a primeira edição da Comic Con Portugal. Organizada pela CITY (Conventions in The Yard) e ainda meio que na desconfiança, estávamos prontos para o momento em que um dos grandes eventos da cultura pop chegava ao nosso país. À CITY demos todo o nosso apoio, promoção e, no evento, cobertura para elevarmos da melhor forma aquele que viria a ser o evento anual dedicado aos amantes de cultura pop.

Ainda sem grandes investidores de peso, a CITY desdobrou-se em trinta para conseguir trazer ao nosso canto à beira-mar plantado atores de renome como Natalie Dormer (Game of Thrones), Clive Standen (Vikings), Tom Riley, Blake Ritson e Elliot Cowan (DaVinci Demons), e ainda Morena Baccarin (Homeland), Paul Blackthorne (Arrow) e Seth Gilliam (The Walking Dead e Teen Wolf).

No rescaldo dessa longínqua primeira edição escrevíamos: “foi uma experiência única para todos (…) Desde o recinto, que deu espaço a expositores das mais variadas áreas artísticas da Comic Con, à animação e principalmente ao espírito de que todos os presentes. Ali, durante aquele fim de semana, pertencíamos a um só mundo. Este revelou-se ser um evento de estar, ser, gostar e chorar por mais!”.

Hoje, sete anos depois, infelizmente, o rescaldo do evento da Comic Con Portugal 2021 é completamente diferente.

Ao longo da sua existência, a Comic Con Portugal, este ano realizada em dezembro no Altice Arena, sofreu várias mudanças que acabaram por culminar numa edição que deixou mais a desejar do que aquilo que entregou.

Esta edição da Comic Con Portugal de 2021 manchou o que, mais do que um evento, era o “um só mundo” da cultura geek em Portugal. E manchou-o não só para os pequenos parceiros (marcas, lojistas, artistas, pequenos [GRANDES!] projetos, blogs, canais, imprensa amadora), como para os grandes parceiros (incluindo agências dos atores convidados) e, sobretudo, para os fãs.

Nas palavras dos nossos parceiros e colegas de trabalho Café Mais Geek, “a CCPT tem vindo a transformar-se em algo exclusivamente comercial, alienando os seus principais fãs, parceiros e este ano os meios de comunicação“. Este ano, o Séries da TV partilha da opinião, sem tirar nem pôr.

O Séries da TV marcou presença, como é habitual, na zona de Bancas Amadoras (este ano fundida com o Artists’ Alley) e como imprensa, para dar a cobertura a todos os painéis e ativações relacionadas com o mundo das séries televisivas. Isto permite-nos avaliar o evento em três frentes: expositor, imprensa e, claro, como fãs. E todas estas avaliações são negativas.

Se no ano de 2014 pudemos contar com uma organização dedicada, preocupada, constantemente a certificar-se que tudo estava a correr bem, este ano nem a presença dessa organização se sentiu até ao último minuto, após o fecho de portas do último dia. Fomos todos vítimas de um desleixo e descuido para com os artistas, criadores, pequenos comerciantes e entusiastas que marcaram presença (e paga!) para estar no Artists’ Alley. Houve falta de apoio e de informação tanto antes como durante o evento, com responsáveis “desaparecidos” e sempre com grande dificuldade – e só com muita persistência – em conseguir esclarecimentos e suporte. Apenas no final do último dia tivemos um responsável da organização a ir ao nosso espaço pedir feedback. Foi tarde. No final de tudo, restava só o dissabor e pouca solução podia ser encontrada.

No que à imprensa diz respeito, podemos apontar uma qualidade: o espaço de trabalho de imprensa estava melhorado, com a parceria feita com o LACS a correr bem, oferecendo condições físicas de trabalho individual e em equipa. Relativamente às condições de isolamento sonoro, a história é diferente, bem como à (des)organização que pautou o trato para com a pequena imprensa. Para começar, e mal começar, o programa do evento foi divulgado na sua totalidade apenas a um dia do seu início. Isto revela não só uma desorganização tremenda por parte da CITY, como também dificulta imenso a organização de quem para lá vai trabalhar a troco de amor à camisola.

A desorganização estendeu-se pelos restantes dias e informações trocadas sobre permissões de acessos a painéis foram discorrendo de quinta a domingo, todos os dias de uma forma diferente. Ora a imprensa tinha acesso aos painéis, ora não tinha. O foco dado aos grandes media partners e o descarte completo dos pequenos órgãos e das pequenas bancas, que tornam a Comic Con naquilo que ela realmente deve ser, este ano atingiu níveis ridículos nunca antes vistos. Se os media partners entraram com o capital, os pequenos órgãos entram com dedicação, estudo, trabalho. E esta dedicação foi posta de parte em troco de, assumimos apenas, poder fazer a vontade a alguns.

Para além de estarem presentes no Artists’ Alley ou de fazerem o seu trabalho de imprensa e divulgação, os membros do Séries da TV são, naturalmente, fãs da Comic Con e da cultura pop. E, como fãs, a amargura é outra. Desde a planta e designação de acessos no mínimo confusa e desconectada, às filas intermináveis que se formavam para que o público pudesse realizar as poucas atividades que lá estavam, este ano, acima de tudo, sentiu-se um peso quase depressivo no evento.

Os locais onde se realizaram os painéis não eram fáceis de encontrar e, entre um Golden Theatre no núcleo do Altice Arena, a um espaço Cosplay empurrado para trás da zona da alimentação, ficou o esforço de descobrir tudo o resto e conseguir assistir a tudo o que interessava individualmente, sem perder o fio à meada. Os cosplayers são uma das vertentes fundamentais do que é o espírito de uma Comic Con e merecem valorização pelo que fazem. Serem colocados, em pleno dezembro, numa tenda exterior nas traseiras do recinto, onde mais nada acontece, é, no mínimo, jocoso.

Acrescida à dificuldade em encontrar os locais, aquém ficou também a oferta: as atividades indoor de cada ativação de marca pouco ou nada tiveram para oferecer, a não ser bancas “instagramáveis” de fotografia. Salvou-se a RTP com um karaoke ou o AXN com um casting, mas a saudade fica das ativações de S.W.A.T. ou do Drogon gigante (Game of Thrones).

Se em 2014 falávamos em não ter mãos a medir para os convidados internacionais que estavam presentes na área de Cinema e TV, este ano dava para os separar por dia, entre Misha Collins (Supernatural), Lana Parrilla (Once Upon a Time,Why Women Kill), Manu Bennett (Spartacus, Arrow) e Noah Schnapp (Stranger Things). Da escassez de painéis a um espaço EPop Culture muito fraco – cujo entrevistador/moderador contratado pela organização tinha pouca capacidade para executar o seu trabalho de forma competente -, ficaram marcados nos tímpanos os gritos que se ouviram dos fãs de coração cheio por verem os seus ídolos. Contudo, o grito mais sentido foi interno e de frustração pelo “espetáculo” que marcou negativamente não só o público, mas também os convidados e respetivos agentes.

De louvar fica a aposta nas séries portuguesas, com a presença dos elencos e equipas de Pôr do Sol (RTP) e Glória (Netflix), que acabaram por trazer à tona o orgulho português a um evento que naufragou algures no Atlântico.

Uma visita ao espaço Gaming e o choque foi imediato: um espaço que outrora era imponente, este ano esteve marcado pela ausência dos grandes marcas como a Playstation, a X-Box, a OMEN by HP, mas também pela ausência das pequenas empresas que aproveitavam estes dias para fazer o showcase dos seus jogos, das suas novidades. Longe fica o barulho ensurdecedor das colunas e dos ecrãs gigantes, substituído pelo vazio daquela que costumava ser uma das grandes atrações do evento. Saudades ainda do espaço de retro-gaming ou do espaço dedicado aos jogos de tabuleiro, também ele emanando uma sensação de redução tanto em tamanho como em visibilidade, apenas com a presença (muito louvável) da DEVIR e de poucas mesas para jogar.

A ausência de um dos momentos que caracterizava a Comic Con Portugal durante os quatro dias sentiu-se pelo silêncio. Não se ouviu mais nos corredores a marcha imperial protagonizada pela 501st Legion Portuguese Garrison, que este ano decidiu não estar presente alegando incompatibilidade com a organização. Se nos espantou? Não. Se nos entristeceu? Sim.

Não podemos terminar sem mencionar também que um dos grandes nomes que acompanhou o crescer deste evento foi, este ano, posto de parte. Os motivos não os sabemos, mas o certo é que este ano não contou com a presença do correspondente da Comic Con nos EUA – Joe Reitman. Ele, que viu crescer este bebé, que apoiou todos os anos o erguer deste evento, que fazia questão de passear livremente pelo evento para se conectar com o público. Mais um elemento fundamental que não esteve e o vazio foi crescendo.

Começámos este artigo dizendo que em 2014 fizemos parte de um evento que se tornou no nosso mundo geek em ponto pequeno. Terminamo-lo dizendo que, em 2021, a alma da Comic Con Portugal ficou algures perdida no tempo. Sem dúvida que louvamos o erguer de um evento desta envergadura em plena pandemia, mas há circunstâncias que não são inteiramente desculpáveis pela conjuntura externa. E o estado atual da nação não pode nem deve alterar o trato para com quem povoa o evento todos os anos. Aliás, se o alterar, deve ser para a compreensão e para a empatia, não para a despreocupação.

A oferta foi escassa, a desorganização foi abundante e o sentimento de desgosto e revolta continua presente após uma semana. É que num dia em que o público geral paga 40€ de entrada e mais 75€ para poder tirar fotos com o seu ator ou atriz favoritos, metade do tempo foi gasto a palmilhar o espaço, outra metade a tentar encontrar as atividades pretendidas. Os preços da Comic Con sobem, mas o seu valor nem tanto. Saímos desta Comic Con Portugal muito longe daquela sensação de coração cheio como nos primeiros anos de Comic Con na Exponor. É quase caso para dizer…

…Volta, Algés, estás perdoada! Volta, Exponor, estás perdoada!

A Equipa Séries da TV