Classificação

9
Interpretação
7.5
Argumento
8.5
Realização
8
Banda Sonora

Este artigo contém spoilers!

“In a field
I am the absence
of field.
This is
always the case.
Wherever I am
I am what is missing. 

When I walk
I part the air
and always
the air moves in
to fill the spaces
where my body’s been.

We all have reasons
for moving.
I move
to keep things whole.”

Este poema foi escrito por Mark Strand, autor e poeta norte-americano cujo trabalho serviu como inspiração para este episódio. Não estão a perceber, pois não? Então vamos lá. Primeira regra de Westworld: O título diz-te sempre qualquer coisa!

Este poema fala de alguém que sente não existir. Ele diz que onde quer que esteja sente que está em falta e que mal sai dos lugares, esse mesmo lugar é preenchido pelo ar que o rodeia. Mark acaba o poema dizendo que todos temos as nossas razões para continuar, mas será que temos? É aqui que entramos na grande questão deste episódio: QUEM ESTÁ NO CORPO DE CHARLOTTE?

Este episódio talvez seja o mais emocional que ultimamente me recordo de ver em Westworld. Ao contrário do que fazia prever, nós não descobrimos logo quem está no corpo de Charlotte. No início ficamos um pouco revoltados, mas no fim essa acaba por ser a magia do episódio. Primeiro porque durante a hora do mesmo vamos andar às voltas e voltas na cabeça a tentar decifrar quem poderá ser que está lá. Mas depois existe uma parte humana naquele host que nos faz ficar de certa forma com pena. Quem quer que esteja dentro do corpo de Charllote teve de assumir a sua vida. A verdade é que poucas coisas sabíamos dela. Apenas que era uma das chefes da Delos e que, juntamente com Theresa, andava a roubar informações de dentro da Delos para alguém no exterior, como vimos na 1.ª temporada. Ou seja, até agora Charlotte era apenas e só uma vilã praticamente sem camadas humanas. Mas este episódio começa logo por nos dizer que ela é bem mais do que isso. Vemos um vídeo dela para Nathan, seu filho, que enviou durante o massacre no parque. Quem quer que esteja no corpo dela terá de lidar com estas questões humanas todas.

E é isso que vamos vendo ao longo do episódio! No início, o host em Charlotte não liga muito ao filho ou até ao resto das questões pessoais, como o seu relacionamento falhado. O objetivo é seguir o plano de Dolores e só! Mas a questão emocional vai pesando até ao ponto de ela ir defender o filho de um pervertido e fazer tudo para o conquistar de novo. Percebemos que o próprio host percebeu que Charlotte era mais do que a vilã. Ela era mãe e mulher e a sua vida não era assim tão fácil. Ou seja, talvez pela primeira vez desde o massacre tenhamos visto um host a perceber um humano e não o ver apenas e só como o inimigo. Inclusive a cena onde a vemos mostrar os cortes que fez a si mesma no corpo a Dolores e a dizer que parece que Charlotte a está a expulsar do corpo dela é muito simbólica.

Mas vamos lá, querem é saber quem é Charlotte, não é? Pois bem, vieram ao sítio certo! Em primeiro, e porque Westworld não faz nada por acaso, tenham noção que provavelmente existem dois corpos de Charlotte. Lembrem-se que Dolores chegou ao mundo real num corpo de Charlotte criado lá no parque por Bernard, mas começamos o episódio a ver uma outra Charlotte a ser contruída no mundo real presumivelmente por Dolores. Logo, até prova em contrário, existem dois corpos dela. Se os dois estão em uso? Não sei, mas uma coisa é certa, começo a acreditar que a ideia de que esta temporada não terá linhas temporais é falsa e foram apenas os produtores a trocarem-nos as voltas! Para mim, a Charlotte Hale falsa não é nem o Ted, nem a Clementine, nem mesmo a Angela, como se falou anteriormente. Para mim quem está dentro de Charlotte é Dolores!

É isso mesmo, Dolores! Passo a explicar. Para entendermos esta teoria temos de estar muito atentos aos diálogos entre Dolores e Charlotte. Elas usam expressões como “eu sou parte de ti” ou “és tu quem me conhece melhor do que ninguém”. À partida tomamos essas expressões como uma ligação entre a comunidade dos hosts por assim dizer, mas devemos levar isto à letra. Elas são, de facto, a mesma! Lembrem-se que Dolores tinha duas narrativas dentro do sistema dela. A de filha do fazendeiro onde é aquela rapariga simples e simpática que não consegue fazer mal a ninguém e a narrativa que Arnold lhe colocou de Wyatt onde ela vira uma exterminadora e mata tudo. E se ela dividiu as duas versões dela? Isto é, a Dolores que vemos no corpo normal é Wyatt. Daí ela ser aquela badass de quem nós tanto gostamos. No corpo de Charlotte temos a Dolores simples que procura sempre o lado belo das coisas. Tenham atenção à roupa! Dolores está sempre de preto e Charlotte de branco. Existe um plano delas deitadas na cama em posição fetal que lembra muito o yin yang. E tal como no yin yang, existe um pouco de Wyatt em Dolores, como quando ela mata o pervertido e diz lembrar-se de como é fazer aquilo, e um pouco de Dolores em Wyatt, que é basicamente ela a lidar com Caleb.

Neste episódio fiquei com a sensação de que Caleb não é um host! Acho até que aquilo que Caleb vem mostrar é que tal como os hosts eram prisioneiros no parque, também os humanos podem ser prisioneiros no mundo real. Daí também cair por terra a teoria de o mundo real ser uma simulação ou um parque. Neste momento, acredito que sim, de facto, estamos no mundo real. Todas as histórias de Caleb tornam-no humano. Sim, podem dizer-me que se ele for um host criaram-lhe uma backstory mas acho que a magia aqui está precisamente em Dolores ter encontrado alguém que é “diferente” da ideia de humanos que ela tinha. O ponto mais alto do episódio é quando Dolores conta a Caleb a vida toda dele. Não só o passado como o futuro. A Rehoboam é tão poderosa que consegue prever as tuas ações. Ela prevê que, entre dez a doze anos, Caleb se mate e, inclusive, diz como. É por isto que ninguém o contrata, uma vez que já todos sabem o destino dele. A tecnologia aprisionou os humanos assim como os humanos tinham aprisionado os hosts e esse paradoxo é muito interessante e certamente vamos voltar a ele mais à frente.

De todos os episódios até agora, este foi o que menos gostei, mas não invalida que tenha sido fantástico. Foi sim mais lento e talvez mais explicativo do que estamos habituados. Tessa Thompson e Aaron Paul deram um show de representação e confirmaram que Westworld é para bons atores e ponto final! Existem questões que ainda estão por esclarecer, como quem será o espião que roubou a pérola de Maeve, uma vez que temos a certeza que não foi Charlotte. Continuamos sem saber quem são as outras pérolas e quem é este Serac que aparece sem aparecer. Será ele verdadeiro? Será uma simulação? Será que ele é uma representação humana da Rehoboam como o era Logan a representação da forja? Existem bastantes questões que ainda não encaixam bem. Uma coisa é certa, vamos ter uma revolução orientada por Dolores e muito provavelmente esta temporada vai acabar numa grande batalha cheia de explosões e lutas. Teremos mais ação e mortes com toda a certeza. Mas estou cada vez mais confiante que o grande twist da temporada vai ser alguma coisa com a linha do tempo. Até agora tudo parece muito linear, até demais, e Westworld não brinca em serviço. Vou lançar para o ar a teoria de que o próprio Bernard, na narrativa que estamos a ver de Dolores, poderá ser quem está dentro do corpo de Marvin, por exemplo.

Certo é que, para mim, Westworld é a melhor série da atualidade. Acho inclusive que está uns anos à frente do tempo e que, futuramente, estaremos a discutir se não será a melhor série de sempre. Pode parecer exagero neste momento, mas eu gosto de arriscar e, sinceramente, só mesmo Game of Thrones poderá, a meu ver, ombrear com Westworld. Bom, eu, como sabem, visto e vestirei a camisola de Westworld e cá estarei sempre para vos tentar trazer tudo explicado o melhor possível. Até para a semana!

Carlos Real