Classificação

8
Interpretação
8
Argumento
7.5
Realização
7.5
Banda Sonora

Sem o glamour e estilo de vida “rock n’roll” excessivo de outras produções semelhantes, a série Hung, que retrata uma Detroit arrasada pela Crise de 2008, mostra-nos algumas das principais dificuldades do “middle man” americano com um detalhe e abordagem singulares.

A necessidade é a mãe da criatividade, e nada como um seminário motivacional para despertá-la. A icónica Sue Collini de Californication uma vez disse para Hank Moody: “you should reinvent yourself as modern day gigolo”. O Hank não foi na conversa mas o Ray Drecker (Thomas Jane) decidiu dar uma oportunidade à ideia. Este professor de secundário e antiga estrela local, falido, divorciado e pai de dois filhos, recorreu aos muito americanos seminários “How to become a billionaire”, à procura de inspiração. É aí que conhece Tanya Skagle (Jane Adams) uma poeta fracassada, e com a sua ajuda, decide aventurar-se na profissão mais antiga do mundo.

Encontro vários paralelismos entre Hung e Californication, sobretudo na forma como os personagens principais encaram o passado e na auto-aversão que ganharam. O que despoleta um perfeito equilíbrio de comédia/drama. Ray tal como Hank acredita que tinha a vida perfeita e que a desperdiçou, devido ao deslumbramento que tinha de si próprio e de onde o seu talento o podia fazer chegar, negligenciando a família e a mulher Jessica (Anne Heche). Este duplo fracasso (pessoal e profissional) consome-o e fá-lo viver em condições deploráveis na sua casa de família. O último símbolo que o relembra dos seus tempos áureos, ao qual se agarra cegamente.

O enredo da série Hung é cativante e rico, sendo que acabamos por nos rever cada vez mais nas suas personagens à medida que a história avança e acompanhamos a jornada de Ray na reconstrução da sua vida pessoal e relação com os seus filhos. Assim como a de Tanya na sua afirmação como escritora e empresária, enquanto lutam por manter o anonimato e discrição da nova atividade de Ray.

Hung é uma produção crua e com humor negro refinado, que atropela o politicamente correto dos nossos dias, falando abertamente de todos temas, e procurando mostrar que existe comédia até nas mais dramáticas situações. Sendo que a própria série acaba por ser uma metáfora de como todos nós, de alguma forma, já nos sentimos tentados a “vendermo-nos” em algum momento. Seja para atingir algum fim, para nos inserirmos num círculo social ou atingirmos estatuto.

Hung estreou nos Estados Unidos a 28 de junho de 2009, e está disponível na HBO Portugal.

Diogo Gouveia