Classificação

8.5
Interpretação
8
Argumento
8
Realização
8
Banda Sonora

[Contém spoilers.]

“Kate rode her motorcycle to be free. Free from the burden of protecting this city. Free from my father’s overbearing grit. Free from the burden of having to save her irredeemable sister.”

Uma nova semana trouxe consigo o mais recente episódio de Batwoman – e, é claro, uma nova review. Intitulado And Justice For All, este episódio apresenta um novo desafio à nossa protagonista, que se vê no meio de um apocalipse zombie quando a atual fórmula de snakebite chega às ruas e faz com que os seus consumidores fiquem sedentos por muito mais do que apenas esta droga.

Após arruinar uma noite de contrabando a um dos muitos membros da False Face Society, Ryan persegue o seu comprador até ao interior de uma igreja abandonada, onde dá de caras com um cenário insólito. No interior do antigo edifício, populado por todo o tipo de insetos e um ou outro sem-abrigo que escolheram fazer da igreja a sua casa, a nossa protagonista encontra uma jovem debruçada sobre um cadáver, alimentando-se das suas entranhas. Sim, pessoal: os zombies chegaram à cidade de Gotham! 

No entanto, Ryan decide que este não é um problema seu. Desta vez, a nossa Batwoman resolve deixar a situação ao encargo dos Crows e do GCPD – as supostas autoridades competentes –, concentrando-se em fazer da sua festa de angariação de fundos um autêntico sucesso. As celebrações não tardam a ser interrompidas por membros da força policial da cidade de Gotham, que abrem caminho pelo bar onde a nossa protagonista trabalha, sob o pretexto de terem recebido uma queixa sobre o barulho proveniente da festa. A acusação não agrada a Ryan, que não se retrai em exprimir a sua contestação e o seu desagrado para com a ação dos agentes. Apesar de Luke tentar acalmar os ânimos, a situação intensifica-se rapidamente quando Ryan comete o erro de tocar num dos agentes, levando à detenção destes dois membros da bat team.  

Pouco depois do acontecimento, Sophie chega ao The Hold Up com intenções de participar na angariação de fundos descobrindo que esta terminou mais cedo e de forma forçada. No local, os agentes do GCPD preenchem os relatórios sobre este acontecimento, sendo que Sophie não tarda a perceber que pelo menos um dos indivíduos não está a contar toda a verdade. Assim, a personagem confronta o agente da autoridade, que, não acreditando que Sophie pertence aos Crows (ou, simplesmente, não se importando), ordena a sua detenção. 

Assim, Sophie, a nossa personagem exemplar, junta-se a Luke e Ryan numa pequena cela de detenção, sendo que Batwoman não se acanha em ter as suas três personagens negras, todas com backgrounds completamente distintos, nesta posição. Isto não acontece por acaso, permitindo à série levar a cabo conversas relevantes sobre o perfilamento racial, o abuso policial e também questões de privilégio. De facto, enquanto se encontram encarcerados, Luke e Ryan debatem sobre as diferentes formas como poderiam ter reagido ao confronto, com a nossa protagonista a criticar a abordagem mais pacífica de Luke, afirmando que poder fazer esta escolha é, em si, um privilégio, e Luke a explicar à sua colega de equipa que o facto de ter crescido entre pessoas afluentes (e, claro, brancas) o ensinou sobre a importância de manter um perfil discreto e escolher quais lutas importam. A chegada de Sophie adiciona uma nova camada a esta questão, demonstrando que, apesar da sua posição enquanto agente dos Crows, a personagem será sempre uma mulher negra aos olhos da autoridade antes de qualquer outra coisa.

O momento de reflexão destes personagens é interrompido quando Imani, o interesse amoroso de Ryan, cobre a sua fiança, permitindo a que o trio assuma as suas posições na luta contra os zombies que, pouco a pouco, se apoderam de Gotham. Com a ajuda de Mary, a nossa protagonista consegue curar a grande maioria dos afetados, mas não antes de os Crows causarem estragos. Apesar dos esforços de Sophie, que se dirige à sede da agência de modo a tomar o seu lugar enquanto comandante interina na ausência de Jacob, Tavaroff ignora as suas ordens de tentar salvar o máximo de civis possíveis, abrindo fogo sobre um conjunto de zombies e aniquilando qualquer hipótese de os curar. O acontecimento surge como a última gota de água para Sophie, que decide de uma vez por todas abandonar os Crows. É um momento de celebração para os membros da audiência – e, de igual modo, para a bat team –, que há muito antecipam a saída da personagem de um local que claramente não representa os seus valores e não valoriza a sua opinião.

Entretanto, Alice regressa ao consultório de Enigma com umas quantas queixas que, pessoalmente, achamos justificadas. Acontece que esconder o facto de Kate estar viva quando Alice considerava esquecer a sua irmã e a dor causada pela sua morte em Arrive Alive surgem como razão mais que suficiente para levar a cabo um bocadinho de tortura. Com um novo objetivo em mente, Alice pressiona Evelyn a explicar de que modo poderá desbloquear as memórias de Kate, sendo que a médica sugere utilizar um objeto significativo para a personagem como chave. Assim, a nossa anti-heroína regressa à carruagem abandonada a que chama lar, na qual mantém algumas recordações da sua irmã. É aqui que Alice dá de caras com Ocean, que tem utilizado o local como esconderijo desde o seu resgate, em Initiate Self-Destruct. A reunião proporciona um raro vislumbre ao lado mais vulnerável de Alice, que admite sentir falta da sua irmã. 

De volta ao consultório da Dr.ª Rhyme, com as chaves da mota de Kate na mão (um símbolo de liberdade para a personagem), Alice continua o seu interrogatório. Ao explicar o processo através do qual arquivou as memórias de Kate, colocando as de Circe no seu lugar, Evelyn levanta várias advertências aos planos de Alice. Assumindo que a personagem consegue trazer a sua irmã de volta, nada garante que a Kate que Alice receberá é a Kate que deseja. Afinal de contas, as duas não estavam propriamente nos melhores termos quando a antiga Batwoman desapareceu do mapa. Ainda assim, Alice parece entender que o importante é ter a sua irmã de volta – quer esta a aceite, ou não. No entanto, coloca-se um problema; dois, se pensarmos bem. Primeiro, Alice precisa de uma palavra-chave para libertar a sua irmã e, segundo, a única pessoa que sabe qual a palavra a usar está morta. Numa inesperada reviravolta, Ocean mata Evelyn antes que esta possa partilhar os seus segredos com Alice, confessando o seu amor pela vilã e os ciúmes que sente em relação à sua obsessão por Kate. É uma decisão que pode parecer ridícula da parte de Ocean, mas até conseguimos perceber a sua origem: Ocean sabe que a Kate é o ponto fraco de Alice. É alguém que a magoou profundamente e esta é a sua tentativa desesperada de a proteger de mais dor. É claro que Ocean não tinha qualquer direito em tomar essa decisão por Alice e, por isso, esta patética tentativa de manter Alice a seu lado está destinada a falhar, mas estamos curiosas em ver de que forma a personagem lidará com esta traição.

Regressando agora à porção “apocalipse zombie” do episódio, seguimos a personagem de Richard, um habitante de Gotham que consome uma versão especial de snakebite, levando-o a ter um apetite voraz e particular por… carne humana. Para quem já viu a série iZombie, é impossível não fazer comparações com este episódio, incluindo o facto de as personagens serem transformadas em zombies sem o seu consentimento. Richard apercebe.se do seu novo “apetite” quando ataca uma pobre mulher na rua, avisando-a que se ela não fugir, vai-lhe comer a cara. No mínimo assustador, principalmente pelo facto de a personagem estar ciente da monstruosidade que acaba de proferir e, mesmo assim, não ser capaz de se conter. É um pouco uma metáfora para o consumo da droga snakebite e a sua ação viciante, mas numa versão mais extrema. Assim, Richard decide recorrer ao (agora legal) hospital de Mary como fonte de ajuda, decidindo mesmo algemar-se a uma cama para não representar um perigo para ninguém. A nossa médica depara-se com esta situação inesperada e o problema é que Richard não é o seu único paciente, pois começam a chegar cada vez mais pessoas infetadas com esta versão adulterada de snakebite (ou será humanbite?).

Ainda na clínica de Mary, quando Richard (agora em versão zombie) admite que tomou snakebite como forma de ver a sua falecida esposa, Mary percebe as intenções de Jacob (que, relembramos, se encontra na clínica após sofrer uma overdose) para também consumir esta droga. Num discurso emotivo, que reflete o que tínhamos comentado em I’ll Give You a Clue, a filha de Jacob acusa-o de estar obcecado com a possibilidade de reescrever o passado, em vez de se concentrar nas relações que ainda possui atualmente, principalmente com Mary, a filha que sempre negligenciou em favor de Kate e Beth. Este confronto era já há muito esperado, mas temos dúvidas se Jacob poderá realmente mudar, visto que assistimos ao personagem a ignorar o pedido de socorro de Alice no episódio anterior. Talvez Jacob tenha direito a um arco de redenção, possivelmente quando Kate voltar, mas será sempre um longo e árduo caminho até todas as suas filhas o perdoarem.

Como pequena nota, temos que dizer que, após a saída abrupta de Angelique, neste novo episódio pudemos ver Ryan a explorar um novo possível interesse amoroso Imani, já mencionada no episódio anterior. Infelizmente, e de modo semelhante ao que aconteceu entre Kate e Sophie (ou Reagan) na temporada anterior, a nossa vigilante apercebe-se que seria muito difícil estar com alguém que não conhece o seu lado de Batwoman, já que teria de inventar desculpas e mentiras constantemente e isso não é justo para nenhuma das partes desta relação. É uma situação comum em séries de super-heróis, mas consideramos que é perfeitamente válida, embora nos parta um pouco o coração cada vez que acontece. No entanto, a situação mostrou o caráter honroso e honesto da personagem, que preferiu cortar a relação do início ao invés de criar em Imani expectativas sobre uma relação que, inevitavelmente, acabaria a não ser que a heroína revelasse a sua identidade secreta. De qualquer maneira, foi bom ver Ryan a seguir em frente com a sua vida amorosa e esperamos que o seu futuro reserve novas oportunidades.

Por fim, chegou a altura de falarmos daquele final que, sendo honestas, nos chocou profundamente. Quando Luke dá de caras com uma pessoa a assaltar um carro, certamente não esperava que fosse alguém conhecido, muito menos alguém com quem tivesse partilhado uma cela na cadeia, pouco tempo antes. Todos pressentimos que alguma coisa iria correr mal quando Luke se mantém perto do carro, tentando persuadir Eli a não o assaltar. Quando a polícia chega, o assaltante acusa Luke de ser o culpado, mas as coisas complicam-se ainda mais quando o Agente Tavaroff (alegadamente) confunde o telemóvel da personagem com uma arma, disparando sobre ele. Esta cena é não só o culminar de um episódio focado em racismo sistémico e no movimento Black Lives Matter, como é uma referência ao próprio pai de Luke, que foi assassinado por um agente dos Crows. Foi um acontecimento que nos partiu o coração, pois consegue refletir o ambiente policial norte-americano, ao mesmo tempo que surge como uma espécie de lembrança que Luke, pela sua cor de pele, sofreu um destino igual ao do seu pai, pois os Crows continuam a operar da mesma maneira corrupta. Não acreditamos, de todo, que este seja o fim do personagem, mas vai-nos custar imenso ter de esperar até junho para ter a certeza.

Assim, esta 2.ª temporada de Batwoman entra agora numa nova pausa, com regresso marcado para o próximo dia 6 de junho. Até lá, podes rever todos os episódios desta série através da plataforma de streaming HBO Portugal.

Ana Oliveira e Inês Salvado