[Contém spoilers]

Não sei se é justo tentar fazer comparações entre Big Little Lies e The Undoing, mas as séries partilham a emissora, a HBO; o criador e argumentista, David E. Kelley; uma produtora executiva, Bruna Papandrea; uma protagonista, Nicole Kidman, e ainda o facto de ambas serem inspiradas em livros e de nos agarrarem ao ecrã, de uma maneira ou de outra. Se quisermos ir um bocadinho mais longe, também podemos pegar nas duas personagens de Kidman. Apesar de os problemas de Celeste Wright e de Grace Fraser serem diferentes, há também algumas semelhanças, como o facto de a vida perfeita não passar de aparências. A partir daqui, não há muitos pontos de convergência e, apesar de Big Little Lies ser uma série de qualidade superior e com um elenco fabuloso inigualável, The Undoing precisou de muito menos tempo para me deixar submersa na história e mais do que ansiosa por mais.

No centro da trama temos então Grace Fraser, uma terapeuta num casamento feliz com um oncologista pediátrico. Os dois têm um filho, Henry, um menino de 12 anos que frequenta uma escola cujas propinas anuais andam pelos 50 mil doláres. Alguém consegue ver o absurdo disto? 50 mil dólares? Não que a questão seja minimamente relevante, mas ajuda a estabelecer o tipo de vida que estes personagens levam. Ora, a mudança na vida de Grace chega sob a forma de uma jovem mãe, Elena Alves, cujo filho ganhou uma bolsa para a mesma escola de Henry. A família de Elena leva uma vida modesta e a jovem não se parece nada com qualquer uma das outras mães, mulheres abastadas e que ficam chocadas por um simples momento de amamentação. Coisa que entre mulheres deveria parecer super natural, mas pelos vistos não. Elena não pertence àquele mundo e sente isso. Grace é a única a mostrar-se simpática com ela. Há umas cenas um tanto ou quanto esquisitas, mas nada de particularmente alarmante.

No entanto, Elena aparece morta. Brutalmente espancada. Curiosamente, Jonathan, o marido de Grace, decide desaparecer na mesma altura. Suspeito? Sim. Coincidência? É possível. Interessante? Também sim. Não houve nenhuma vez em que tivesse terminado um episódio e não tivesse ficado com bastante vontade de partir logo para o seguinte e o facto de serem seis episódios permite que uma pessoa não agonie durante muito tempo até descobrir o que realmente aconteceu. O marido de Grace, interpretado por um Hugh Grant, que é sempre tratado como se fosse o homem mais carismático desse mundo, estatuto que não compreendo, mas de que o ator parece sempre ter gozado e que é comum ao seu personagem, é o principal suspeito do crime e a investigação desvenda uma série de segredos e mentiras, não apenas à sua volta, mas que envolve vários personagens, de uma forma ou outra. Ninguém me pareceu acima de suspeitas, mas tinha uma inclinação para a pessoa responsável and I was right.

Jonathan é levado a tribunal, num julgamento que se torna imensamente mediatizado. As cenas de tribunal na ficção costumam ser um must see e não vou negar que foram boas, mas já vi melhores. A advogada que supostamente era um grande tubarão ficou um bocado aquém das expectativas, mas aquela que é, muito provavelmente, a melhor cena de toda a série, teve lugar no banco de testemunhas. Muito bem jogado!

The Undoing peca porque não nos consegue fazer gostar realmente de nenhuma das suas personagens principais, embora tenha gostado bastante da Sylvia Steinetz de Lily Rabe e achado o pequeno Miguel (Edan Alexander) uma verdadeira doçura, mas faz um trabalho bastante bom a envolver-nos na história, levando-nos a questionar motivos e oportunidade para cometer o crime. Acho que já aprendi a não me deixar manipular por aquilo que nos é apresentado de bandeja e não me saí nada mal nos meus palpites, tenho a dizer. Continuo a achar que Kidman não faz jus a todo o reconhecimento que recebe enquanto atriz. É competente, mas está longe de deslumbrar e parece-me sempre difícil ter uma ligação às suas personagens. Donald Sutherland tem um papel interessante e é bastante expressivo, o jovem Noah Jupe é talentoso, mas não há nenhum personagem que se destaque realmente.

A série aposta forte no enredo e é aí que se destaca, ao fazer-nos querer ocupar o lugar de detetives e perceber o que aconteceu. Para além disso, levanta aquelas questões interessantes acerca de conhecermos ou não as pessoas que nos são mais próximas, bem como aquilo que estamos dispostos a fazer para protegermos aqueles que amamos e mantermos a nossa vida tal como a conhecemos. Aparências, portanto. O que me leva de volta à questão dos julgamentos, que na ficção são sempre uma espécie de teatro. Fez-me uma confusão tremenda o quanto Grace esteve disposta a encarnar a personagem que a advogada quis que fosse! Houve vezes em que me apeteceu dizer-lhe: “Acorda. O teu marido não merece esse tipo de lealdade”. Há que concordar que um caso tem que ser muito pouco sólido para que a mulher traída seja forçada a aparecer de mão dada com o marido em todos os momentos de escrutínio.

O final não foi de arromba, mas não ficou muito longe disso. Descobrimos finalmente o que aconteceu e tivemos direito a uns quantos momentos intensos e à tal cena genial que traçou o desfecho do julgamento, com uma jogada muito inteligente e lógica, mas que não foi previsível. A previsibilidade é capaz de matar uma série!

Antes de terminar, não posso deixar de falar nos créditos de abertura. Assim que ouvi a música, pensei que era Nicole Kidman a cantá-la e era mesmo. Dream a Little Dream of Me é uma boa surpresa, uma boa interpretação musical, e também gostei bastante das imagens a acompanhar a introdução.

The Undoing está disponível na HBO Portugal e é uma boa aposta para quem gosta de dramas e de histórias com segredos, mas é preciso estar-se mentalizado para o modo “maratona”, porque é garantido que se quer ver tudo de uma assentada.

Diana Sampaio