Quando comecei a ver Law & Order True Crime: The Menendez Murders, sabia que ia ser a minha última maratona de séries do ano, mas estava longe de imaginar o quanto aqueles oito episódios me iriam deixar colada ao ecrã. Esta série, tal como American Crime Story, aproveitou um caso mediático para construir a sua 1.ª temporada, mas não obteve, nem de perto, o mesmo nível de buzz que a de Ryan Murphy.

Há semelhanças entre as duas que vão para além do conceito: ambas têm personagens femininas fortes interpretadas por grandes atrizes, exploram assuntos polémicos e julgamentos que atraíram a atenção dos media e do público; no entanto, as diferenças entre as duas séries são muitas e apesar de em termos gerais ter gostado mais de ACS, confesso que esta nova aposta do franchise Law & Order teve um maior impacto em mim. Eu já sabia que O. J. Simpson se safara das suas acusações de homicídio quando comecei a ver ACS, mas desta vez estava completamente em branco, não sabia nada acerca do que iria acontecer a Lyle e Erik Menendez e certifiquei-me de que continuava assim ter terminado.

Tudo começa quando Jose e Kitty Menendez são encontrados em casa, baleados; foram Lyle e Erik, os dois filhos do casal, que deram o alerta. No entanto, as atenções rapidamente se desviam para os gastos exorbitantes que Lyle e Erik decidiram fazer. Aquilo caiu mal, fez a opinião pública vê-los como aproveitadores. Também havia algo para mim que não batia certo, embora não fossem propriamente as compras a incomodar-me. Ainda mais rapidamente, a investigação começou a apontar para os dois jovens. Começavam a parecer culpados – também a mim me pareciam, especialmente Lyle – e não tardou até serem considerados suspeitos e presos. Foi precisamente a partir daí que as coisas deram uma volta de 180 graus e que a minha posição em relação ao caso se estabeleceu.

A prisão dos dois jovens, que deveria fazê-los parecer mais culpados do que nunca, permitiu que uma nova luz se acendesse sobre o caso. Enquanto inicialmente se atribuíra a morte dos pais à ganância dos filhos de herdarem 14 milhões de dólares, começou a perceber-se que um motivo muito diferente poderia estar por detrás dos crimes. Mas se quase 30 anos passados desde aquela altura ainda é difícil para a sociedade discutir temas como o abuso sexual, imaginem naquela altura. Ainda para mais quando esse abuso sexual acontecia dentro de portas, perpetrado pelos pais. A própria equipa de defesa de Lyle e Erik hesitou na credibilidade das alegações, nomeadamente porque Erik era atleta, seria capaz de fazer frente ao pai fisicamente e não permitiria ser abusado… Ainda hoje é assim. O mundo não acredita que um soldado possa ser violado pelo seu superior porque poderia impedi-lo fisicamente, as vítimas são desacreditadas por coisas como essa, mas uma violação não se trata apenas de um domínio físico sobre a outra pessoa, mas também de um abuso em termos emocionais. Aquilo que Jose e Kitty faziam aos filhos não era apenas brutalidade física, era mais uma forma de os vergarem, de os humilharem, de os aterrorizarem, como vinham a fazer desde que eram pequenos.

Muitas pessoas continuaram a não acreditar que o abuso era verdadeiro. Inclusivamente, alguns dos membros do primeiro júri consideraram que eles eram apenas dois miúdos mimados que não tinham recebido abraços suficientes e se ressentiam disso. Estavam dispostos a vê-los no corredor da morte, mesmo que várias pessoas da família tenham feito testemunhos que corroboravam os abusos. Não condenar Lyle e Erik mandaria a mensagem errada de que filhos poderiam matar os pais sem consequências. Se me perguntarem a opinião, devíamos preocupar-nos mais que os pais pensem que podem abusar dos filhos. As pessoas que deviam protegê-los de tudo o que há de mau no mundo eram precisamente quem lhes causava os pesadelos que tinham à noite e que os faziam viver num estado constante de medo.

A defesa decidiu usar como estratégia uma alegação a que chamaram auto-defesa imperfeita e que justificava as mortes pelo facto de Lyle e Erik pensarem que tinham chegado a um ponto em que os pais poderiam matá-los a qualquer momento. Eu não acho que estes jovens merecessem a pena de morte ou uma acusação por homicídio qualificado. No entanto, também não sei se consigo alinhar com a defesa e esperar que eles saíssem em liberdade. Houve um crime, uma admissão de culpa e um motivo que serve de atenuante para o que aconteceu. Matar alguém porque tememos pela nossa vida e achamos que matar é a única forma de não sermos mortos é muito diferente de matar alguém porque se quer herdar uns milhões. Lyle e Erik safaram-se da pena capital, mas foram condenados a prisão perpétua. Esgotaram os recursos que poderiam reverter a decisão e ainda hoje estão presos. Enquanto os pais estavam vivos, viveram numa prisão de medo e agora vivem numa prisão física. Para eles, esta vida é melhor do que a que tinham antes, mas custa-me pensar que a prisão – figurativa ou literal – é o único tipo de vida que conhecerão. Tiveram o azar de nascer daqueles pais e as suas vidas estavam condenadas a algo trágico desde o primeiro dia.

Durante o julgamento descobriu-se um ciclo inacreditável de abusos naquela família: Jose tinha sido abusado, Kitty tinha sido abusada e acabaram por continuar o ciclo em vez de o parar, como alguém mencionou. Gosto de acreditar que Lyle e Erik teriam podido acabar com o ciclo se tivessem tido os seus próprios filhos. Nenhum deles me inspirou muita confiança ao início, mas aprendi a preocupar-me com eles, sobretudo com Erik, que mostrou uma certa vulnerabilidade.

Esta série pode não ter recebido tantas atenções como American Crime Story, mas certamente merecia os devidos créditos e, num ano em que tanto se discutiu o tema dos abusos sexuais, The Menendez Murders mostra, mais uma vez, a importância de se falar sobre o tema.

Edie Falco é absolutamente extraordinária no papel de Leslie Abramson, a advogada de defesa de Erik! Aliás, Leslie deve ser uma mulher extraordinária. A forma como ela foi uma espécie de figura maternal para aqueles jovens, mas sem comprometer a sua capacidade de defender o caso… A forma como se opôs sempre a um juiz pouco razoável que claramente tinha algo contra ela… Seria impossível arranjar alguém que servisse melhor os interesses dos seus clientes. Aliás, gostei imenso também da sua parceira, Jill Lansing, uma personagem bem mais discreta, mas ainda assim muito interessante também. Já o juiz Weisberg personifica tudo aquilo que pode haver de errado em alguém que deveria ser imparcial. Ele deixou claro desde cedo que tornaria tudo muito difícil para Leslie e para a sua defesa. É esta a imperfeição do sistema judicial e é bom quando estas séries são capazes de nos chamar a atenção para isso.

Esta foi a minha última maratona do ano, mas fico contente, porque terminei com chave de ouro. Recomendo vivamente!

Diana Sampaio