Classificação

8.5
Interpretação
7.5
Argumento
8.5
Realização
8.5
Banda Sonora

Este artigo contém spoilers!

Como sempre vamos começar esta review do penúltimo episódio da temporada pela interpretação do título. Passed Pawn, que traduzindo para português ficaria algo como peão ultrapassado, refere-se a uma jogada de xadrez. Para quem não está muito por dentro do jogo, o peão no xadrez costuma ser aquela peça mais simples e que menos movimentos pode fazer, mas tem um senão. Se conseguirmos levar o peão até ao outro lado do tabuleiro, podemos substituí-lo por uma outra peça mais forte como o Cavalo ou a Rainha, que é a peça mais forte do jogo. Toda esta interpretação acaba por ser uma analogia para o que vimos neste episódio.

Mas hoje em vez de uma review onde passo por cada momento do episódio, vou fazer um desabafo geral sobre esta temporada. Considerem assim que é uma carta aberta de um fã de Westworld que pega no seu pequeno caderno ou manda mensagem ao amigo para descrever o que sente depois de ver o episódio. Faço-o hoje e não apenas no final da temporada porque quero aproveitar o último episódio para debater mais as partes técnicas. Por hoje, ficamos mais no lado sentimental.

Quando Westworld começou foi daquelas séries que logo de início me deixaram de queixo caído. Sou daqueles que adora temas filosóficos e plot twists, então ver cada episódio tornava-se um jogo, um puzzle que exigia máxima atenção a cada detalhe. Sei que muita gente não gosta assim tanto disso e prefere coisas mais leves, mas eu, como fã número um de Twin Peaks, ansiava por uma série assim. Será justo dizer de uma forma geral que a 1.ª temporada foi brilhante e a segunda foi bastante boa, ao ponto de colocar a série no top 5 de melhores da atualidade. É certo que todos sentimos no final da 2.ª temporada que algo iria mudar. Os hosts foram à conquista do mundo real! Certamente que esta temporada não poderia ser igual, mas acho que a grande crítica que tenho de apontar aqui é a narrativa escolhida para o desenvolvimento, mas já lá vamos.

Podem estranhar este meu desabafo olhando para as pontuações que semanalmente vou dando aos episódios, parece contraditório. A questão é que os episódios são bons, muito bons até! Temos cenas de ação fantásticas, lutas bem coreografadas, tecnologia de ponta, tiros telecomandados, sei lá, tudo o que imaginamos ser o futuro, mas não é Westworld! Eu sei que muitos dos que seguem o trabalho de Jonathan Nolan estão habituados a este tema, sendo ele um fã assumido de Matrix e o criador de Person of Interest, mas a verdade é que não foi nem uma nem outra que eu andei a seguir desde há quatro anos para cá. Eu gostava da série que me fazia questionar a realidade e que me punha a pensar. Adorava as timelines todas trocadas e o tal montar do puzzle de que já falei. Para mim isso era Westworld. Hoje, a linha narrativa está muito básica, muito previsível. Por exemplo, andamos todos nesta temporada a questionar-nos sobre quem é Caleb e todo aquele passado dele. Descobrimos que é um outlier que foi programado para eliminar outros como ele e que foi quem matou Francis, o seu companheiro de guerra, coisa que já tínhamos percebido há dois ou três episódios. Atenção, não é que não seja interessante a história e muito provavelmente veremos agora Caleb a comandar os outros outliers que acordaram. Foi bom, mas não foi suficiente para aquilo a que estávamos habituados. Gostei da cena em que Dolores explica que Solomon é meio esquizofrénico como irmão de Serac era. A criação a imitar o criador! Gostei de perceber que muito provavelmente foi por isso que Serac começou a livrar-se dos outliers como o irmão, dando-os como mortos ou desaparecidos, e criou a Rehoboam, que conseguia prever tudo sobre todos sem qualquer problema. Esse complexo de Deus de Serac é interessante, mas é pouco sumo para tanta uva.

Mas a parte que tenho de criticar mais é mesmo a narrativa das personagens que nos vêm acompanhando desde o início. Parece que só se focaram em Dolores, Charlotte e Caleb e deixaram os outros meio a deambular por ali. E vou começar por Maeve. Quantos de nós não adoram Maeve? Aposto que a grande maioria! A Thandie Newton é uma atriz fantástica, mas o que fizeram com a sua personagem foi feio. Maeve parece um disco riscado a perguntar pela filha. MAS ESSA QUESTÃO JÁ FOI RESOLVIDA NA TEMPORADA PASSADA!!! Literalmente, Maeve mandou a filha para o tal éden virtual para lhe dar a ‘liberdade’ e agora passa a vida a dizer que a quer de volta?? Mas vá, respiremos com calma e vamos aceitar esse plot. Se ela quer a filha, que é um host, com ela, Maeve não deveria estar do lado de Dolores? É engraçado ver que até as atrizes comentaram que ficaram surpreendidas com esta narrativa. Ah, e a justificação de Charlotte/Dolores ter matado Hector foi uma tentativa rasca de dar uma ‘justificação’ ao ódio de Maeve. Ainda assim, a luta entre as duas foi um bom momento e do ponto de vista técnico foi mesmo muito bom, mas mais uma vez não faz sentido! Mas por falar em fazer sentido, Stubbs e Bernard parecem baratas tontas nesta temporada. Literalmente não fazem nada nem são úteis para nenhum plano. Por que raio é que Dolores recriou Bernard para ele não fazer nada?

Até William está chato! Então o homem agora quer redimir-se de tudo o que fez na Delos e quer matar os hosts. Ok, percebo, mas então no episódio anterior ele não tinha dito que agora era bonzinho outra vez? Que confusão! O próprio Ed Harris já veio criticar estas mudanças na sua personagem e com razão.

Vocês sabem que eu sou um grande defensor da liberdade criativa dos argumentistas. Defendi o final de Game of Thrones, criticando aqueles que exigiam um remake da última temporada. Defendo ainda hoje o final de Lost e de How I Met Your Mother. Aceito que se possa gostar ou não e todos somos livres de dizer o que pensámos, mas continuo também a dizer que não somos é livres de achar que por não gostarmos devemos exigir que algo seja refeito. Eu não acho que a temporada três de Westworld tenha de ser refeita. Longe disso! Os episódios têm tido momentos incríveis. Do ponto de vista visual, a série é fantástica e continuará a ser. (Aliás, recomendo mais uma vez o making-of de algumas cenas para verem o quão bem pensado aquilo é). O que mais me tem incomodado nem é a questão do gostar ou não gostar – porque se me perguntarem se gosto dos episódios, sim, gosto! Não consigo dizer que seja má televisão ou mau conteúdo, mas sinto que a série perdeu a identidade. Westworld deixou de ser uma série filosófica cheia de quebra cabeças e timelines doidas com twists de colar ao ecrã para ser uma série futurista de ação com tecnologia de ponta, como uma timeline fixa, sem grandes twists e com alguns plots até bem previsíveis. Aliás, sinto que andamos para aqui a pensar em teorias e explicações quando a série nem nisso pensou. Isso sim deixa-me triste e faz-me perder o encanto. Eu sei que continuamos com a questão do livre-arbítrio e humanos que controlam as máquinas ou as máquinas que controlam os humanos, mas não foi só isto que nos foi vendido em 2016. Pelo menos não desta forma e mudar o conteúdo a meio do jogo é uma jogada feia. Respeito Matrix e Person of Interest, mas, Jonathan Nolan e Lisa Joy, quero voltar a ver o bom e velho Westworld.

Espero que entendam o porquê do meu desabafo e desculpem se não falei tanto do episódio. Estava com isto entalado na garganta e vejo que muitos fãs estão desiludidos com a temporada. Como eu disse, não quero remake de coisa nenhuma, mas quero sim um regresso às origens e à essência daquilo que foi Westworld. Vem aí o último episódio. Certamente será na mesma vibe, mas com respostas a várias perguntas que ainda estão em aberto. Sou muito fã de Westworld e, como se costuma dizer, não é nos momentos menos bons que se abandona algo. Cá estou e estarei a apoiar e a ver, mas sempre fiel à minha opinião. Para a semana prometo um rescaldo maior sobre algumas das coisas deste episódio e sobre o episódio final da temporada. Até para a semana!

Carlos Real