Classificação

9
Interpretação
7
Argumento
9
Realização
9
Banda Sonora

Temporada: 5 (Volume 1)

Número de episódios: 5

[Contém spoilers]

¡Bienvenidos al espectáculo de la vida!

A primeira parte da última temporada de La Casa de Papel, um dos maiores fenómenos mundiais da cultura pop atualmente, chegou para dividir opiniões. Há quem ache que são os melhores episódios de sempre da série e há quem afirme que a essência deste drama irreverente se perdeu algures no meio de tantos tiros e explosões. Uma coisa é certa: a história dos assaltantes vestidos de vermelho com uma máscara de Dalí está uma vez mais nas bocas do mundo e todos falam deles.

Nunca é demais relembrar que La Casa de Papel é, originalmente, uma série produzida para o canal espanhol Antena 3 – que seria mais ou menos o equivalente a ser produzida para a RTP -, e que a série não foi nenhum sucesso nacional, muito pelo contrário. Não havia qualquer perspetiva de continuação da história, mas tudo mudou quando a Netflix adquiriu os direitos de distribuição e LCDP explodiu internacionalmente da forma que já se sabe. A partir daqui, a plataforma de streaming renovou a série e Álex Pina e companhia tiveram de pôr mãos à obra uma vez mais e arranjar um mote para um novo assalto. Desta forma, compreende-se que algumas coisas tenham mudado das primeiras duas partes (1.ª temporada) para as restantes – não estava planeado à partida. Ainda assim, a base de La Casa de Papel mantém-se nesta 5.ª temporada (ou 3.ª), mesmo que assim não pareça no meio de tanta coisa a acontecer por minuto. Mas vamos por partes:

A guerra

A 1.ª temporada de La Casa de Papel (ou as primeiras duas partes, como decidiu a Netflix) ofereceram ao espectador o plano de assalto do século. Não, do último milénio. O brilhantismo de cada cena, de cada episódio, de cada nova descoberta à medida que os minutos passavam são algo inacreditável e dificilmente igualável. Contudo, a chegada da 3.ª e 4.ª partes (ou 2.ª temporada) trouxe uma ligeira mudança de direção no argumento. O novo assalto não teve a perfeição do primeiro, erros foram cometidos, narrativas mais previsíveis surgiram, mas a genialidade continuava lá. Agora, com a primeira parte da última temporada, algo novo aparece para o qual a maior parte dos fãs não estava preparada, uma vez que fez a dimensão desta história escalar para um nível mais irrealista, mais fantasioso, mais imaginativo. Se até aqui os planos do Professor, apesar de mirabolantes, pareciam ser algo totalmente fazível na vida real, os parâmetros em que decorreram os mais recentes cinco episódios enquadram-se somente no espectro da ficção.

O género bélico introduzido agora em La Casa de Papel faz desta 5.ª temporada/parte ou a melhor ou a pior de todas. Se observamos de uma perspetiva inteiramente técnica, não haverá tantos recursos utilizados ou efeitos tão bem conseguidos no conjunto dos episódios anteriores. Explosões, tiros, lança-chamas, fumo, cinzas, fogo. No que toca à realização, poucos dedos há a apontar. A cena da “guerra” – quando os quatro militares, saídos de uma distopia qualquer, entram no Banco de Espanha acompanhados do sempre prestável Gandía e tudo descamba para os assaltantes – levou três semanas para gravar. Três! E no fim tudo se interligou de forma continuada, como se realmente tivesse sido gravado em sequência. É impossível não louvar o trabalho feito por todas as equipas envolvidas que ofereceram aos espectadores minutos tão bem concretizados.

Quando se olha do ponto de vista de argumento, o caso pode mudar de figura. Poucos diálogos e muitas armas automáticas com recargas que parecem infinitas. Decisões e impasses feitos propositadamente para servir a narrativa criada que, logicamente, nunca funcionariam assim. Muita artilharia e no fim pouco sumo. Mas será mesmo assim? Desde a 3.ª temporada que se sabe que este é um assalto totalmente diferente. Não houve tempo para planear tudo ao milésimo de segundo e as ligações entre todas as personagens são um ponto fraco. As emoções ditaram o regresso dos assaltantes a uma situação de risco onde tudo está em jogo, desde as relações entre uns e outros, à liberdade e à vida.

Portanto, tendo estas variáveis em conta, não se pode comparar diretamente este assalto ao primeiro, que tinha em vista o saque da quantia monetária, pura e simplesmente. Obviamente que depois de meses todos juntos a planear cada passo e os dias fechados na Casa da Moeda sob forte pressão psicológica e física, as amizades e sentimentos românticos foram surgindo. Agora, o objetivo não se prendeu com o fator riqueza e sim com o resgate de Rio. Não se poderia nunca esperar que ambas as situações se desenrolassem de maneira igual. Isso é que seria verdadeiramente previsível e aborrecido.

Imaginemos que uma coisa destas acontecia na realidade. Um grupo de mascarados entra na Casa da Moeda portuguesa, faz reféns e durante uma semana imprime milhares e milhares de notas, enquanto a polícia, as operações especiais, o ministério da defesa e afins são todos enrolados num plano meticulosamente engendrado pelo capanga da coisa. No fim, conseguem escapar e quem fica mal visto é o Estado português, porque não os conseguiu apanhar e ficou ainda mais pobre dois milhares de milhão de euros. Imaginemos novamente que o governo consegue capturar um dos assaltantes e tortura-o durante dias e dias e os assaltantes voltam a fazer das suas, entrando no Banco de Portugal, de forma a soltar o companheiro. Conseguem pensar no nível de pressão sob o qual as forças policiais e estatais estariam numa situação assim? É provável que as coisas escalassem e decisões imponderadas fossem tomadas. Portanto, ainda que exagerado para efeitos dramáticos, o surgimento dos distópicos militares que dão início a esta guerra não é totalmente despropositado.

O nível de pressão e suspense que estas quatro novas figuras concedem à narrativa é surreal. É entre toda a troca de tiros e lançamentos de granadas com uma precisão de Oliver Queen que os espectadores começam a temer pelo bem-estar das personagens que já conhecem. É aqui também que entra algum irrealismo e que o argumento começa a pecar por aparentemente querer fazer algo que vai além do pensável para os protagonistas da história e para quem o presencia através do ecrã. No entanto, perdoa-se este salto talvez demasiado grande com a grandiosidade cinematográfica que consegue prender ao ecrã mesmo que se questione a lógica narrativa. E toda esta questão da guerra é selada com o ping-pong impróprio para cardíacos entre o que se passa no museu e cantina do Banco e o parto, que nem nos tempos medievais existia, da implacável Inspetora Sierra.

A interação entre o Professor e Alicia é, inquestionavelmente, dos pontos mais altos dos cinco episódios. O documentário sobre esta 5.ª temporada (também disponível na Netflix) revela que a produção tinha algum receio em relação à dinâmica entre Álvaro Morte e Najwa Nimri, visto que ambos têm formas totalmente diferentes de trabalhar. Contudo, parece que os opostos se atraem mesmo e a interação entre os dois permitiu aos espectadores descansarem de toda a artilharia durante alguns minutos, apenas para susterem a respiração enquanto Victoria tentava vir ao mundo com a ajuda da mão milagrosa de Sergio Marquina.

Mesmo assim, o mistério do porquê de Alicia Sierra estar grávida durante o decorrer da história ainda não está resolvido. A atriz não estava realmente num estado de graça, portanto, não serviu como “disfarce”, o que significa que tem algum objetivo para a série. Será o de colocar a vilã do lado do bando? Esta questão só será respondida a 3 de dezembro e a resposta não é clara. Por um lado é demasiado óbvio e previsível, mas também o é Alicia servir-se dos assaltantes para se vingar de Tamayo, fingindo pertencer ao lado dos bons, traindo-os no último minuto.

Assim sendo, a guerra de La Casa de Papel trouxe algo diferente à 5.ª temporada que não se traduz, necessariamente, em algo mau. Por baixo de toda a parafernália de adereços bélicos, continuámos a ter a essência das personagens principais, com as emoções sempre ao rubro. A morte de Nairobi está fresca na memória de todos e isso despoletou situações em nada inéditas, como a ronda de luta entre Bogotá e Gandía ou o declarar de sentimentos de Manila. Todos os participantes dizem que só quem está na casa do Big Brother é que sabe o que lá se vive e se sente. Não haveria melhor comparação e justificação para ações observadas na série que, de outra forma, pareceriam inusitadas. Quando se está sob certo nível de pressão, o sangue corre de outra forma e as emoções vivem-se mais intensamente. Tanto é que Mónica, no meio do fim do mundo, recorre a morfina para atenuar a ansiedade e Arturito, uma vez mais, decide ser o palhaço de serviço. Era bom que o tiro de Estocolmo fosse o derradeiro adeus a esta personagem, mas não criemos falsas expectativas.

O filho de Berlim

Se houve momentos de verdadeira respiração e descanso foram os flashbacks com Berlim. Já nas duas partes anteriores de La Casa de Papel tínhamos tido direito a matar saudades deste senhor e a 5.ª temporada não podia ser exceção. Esta espécie de vilão que acabou por se sacrificar pelo bando logo no primeiro assalto continua a derreter corações, mas tudo se deve, claro, à interpretação de Pedro Alonso. Desta vez não houve um Ti Amo cantado por Andrés de Fonollosa e o foco principal desta viagem ao passado foi na verdade o seu filho, cuja existência era uma incógnita até agora.

Uma coisa é certa: se ficámos a conhecer Rafael, que por acaso até foi ensinado pelo pai a cometer o assalto perfeito, então é porque ele terá alguma importância nos episódios que se adivinham. Copenhaga seria o nome perfeito, não? O Professor terá algumas cartas na manga para o fim da história e uma delas muito provavelmente passará pelo sobrinho. Outra que poderá estar em cima da mesa é Tatiana. Este grande amor de Berlim tem de ter relevância no presente da história. Na temporada passada, quando a personagem foi introduzida, surgiram especulações sobre a potencial ligação de Tatiana a Alicia, visto que até são parecidas. Poderão as duas ser irmãs? Ditará Tatiana o final de Alicia?

As muitas vidas de Tóquio

Desde o início que La Casa de Papel prova que não há personagens intocáveis. As mortes de Oslo, Moscovo, Berlim e Nairobi são prova disso mesmo. Também desde o início que a personalidade imprevisível e explosiva de Tóquio levantava a questão: “Qual vai ser a decisão impensada que levará à sua morte?”. Bem, a resposta chegou finalmente e para incredulidade de 90% dos espectadores (os outros 10% são aqueles que veem a série só por ver e os que não se espantam facilmente). Afinal de contas não foi uma decisão impensada e impulsiva que levaram à morte da personagem principal da série. Foi um ato de amor e de altruísmo. E que bonito fim teve.

No meio de tanta reviravolta de fazer Dan Brown questionar as suas capacidades intelectuais, os fãs da série devem parar para pensar no seguinte: será que Tóquio morreu mesmo? É ela a narradora de LCDP desde o primeiro minuto. Uma teoria plausível até à estreia destes episódios era a de que Silene Oliveira seria a única sobrevivente dos assaltos e recontava a história, quer fosse na prisão ou numa ilha sem extradição. Esta temporada, aparentemente, pôs um ponto final nessa possibilidade. Porém, e se tudo o que vimos depois de Tóquio ser baleada com os primeiros tiros é apenas uma alucinação derivada da perda de sangue? Na verdade ela não se fez explodir e está apenas a imaginar coisas enquanto Denver e Manila a conseguem atirar pelo elevador da comida abaixo.

Rebuscado, é certo. Mas que sentido faz a personagem ter narrado todos os acontecimentos para agora morrer? Quem vai narrar o resto? Tóquio através da linha do além? Falta na derradeira temporada o plot twist e esta pode ser a cartada certa. Ninguém estaria à espera que tal acontecesse. Ou então está mesmo morta e estes são apenas ecos de um desejo que os produtores de La Casa de Papel não nos deem um desgosto desta dimensão. Caso esteja mesmo morta, as repercussões que isso terá nas restantes personagens, especialmente em Rio e no Professor, são difíceis de prever. Conseguirá a mente por trás de tudo isto manter a calma e continuar com o que resta do plano? Acabarão todos mortos e a reencontrar-se numa espécie de paraíso ao estilo de Lost? Sabe-se que Álex Pina reescreveu o fim 33 vezes. Resta esperar que tenha escolhido o melhor.

Goste-se mais ou menos desta temporada, a verdade é que La Casa de Papel se tornou num fenómeno mundial incontornável. Seja pelos assaltos que hoje em dia são cometidos utilizando as máscaras de Dalí ou pela adaptação do formato televisivo noutros países, esta produção espanhola produzida para o canal nacional Antena 3 ficou nas bocas do mundo e dificilmente será esquecida. As capitais mundiais têm agora outro significado e o género ficcional sobre assaltos nunca mais será o mesmo. La Casa de Papel viverá na memória ao lado de outros grandes sucessos televisivos e resta apenas esperar que o seu fim seja igualmente grandioso. Caso não seja, não faz mal. “O caminho também é um lugar”, escreveu José Luís Peixoto, e o caminho até ao fim desta história é um lugar que conta mais do que o final.

Personagem de Destaque:
Silene “Tóquio” Oliveira (Úrsula Corberó) – A luz do holofote incidiu, do início ao fim, em Tóquio e na brilhante interpretação de Úrsula Corberó. Seja este o adeus à personagem ou só um até já, é graças a ela que grande parte da história se desenrola da forma que se desenrola. Imprevisível, impulsiva, inconsequente, mas protetora, destemida e corajosa, assim e muito mais é a estrela de La Casa de Papel. Úrsula não poderia ter feito um melhor trabalho com a missão que lhe foi entregue e deu aos fãs e espectadores o papel de uma vida.

Melhor Episódio:
Episódio 4 – Tu sitio en el cielo – As peças começam a encaixar-se nesta antevisão do que irá acontecer no último episódio com o curto regresso de Nairobi para uma conversa profunda sobre a morte com Tóquio. A par dessa premonição, o tal ping-pong de cenas extenuantes a nível de ansiedade entre a guerra no Banco e o parto de Alicia conferem a este episódio momentos cinematográficos invejáveis e fazem dele o melhor desta parte.

Beatriz Caetano