Em entrevista à revista Esquire Middle East antes da estreia da primeira parte da 5.ª temporada, Álex Pina, criador do fenómeno mundial La Casa de Papel, fala sobre as dificuldades do processo de criação de dramas capazes de captar a atenção do espectador desde o início, do final da série e das decisões mais importantes que tomou no decorrer desta.

Álex Pina conta que tinha uma ideia acerca de como dar continuidade à história do grupo de assaltantes mais famoso do mundo após o término da quarta temporada da série. “Inicialmente, o que sabemos é sempre o final. Mas, no caso da quinta parte, os capítulos finais não correram como esperávamos. Então, tivemos de alterar tudo”. Pina acrescenta que tudo o que tinha em mente teve de ser alterado, incluindo o final da série, sendo que este teve de ser reescrito 33 vezes.

“Sempre tivemos medo que a série fosse sobrevalorizada à medida que íamos filmando”, afirma o criador. Quando questionado sobre qual o momento em que soube que La Casa de Papel teria de terminar, Álex Pina disse que isso teria de acontecer quando a série “alcançasse um nível elevadíssimo” e “quando estivesse na sua golden age“.

Pina não deixa, portanto, de mencionar que a quinta e última temporada é a “mais fantástica de todas”, uma vez que “a angústia e a ansiedade do espectador vão chegar ao limite”. Acrescenta, ainda, que esse é um fator que permite acabar a trama “em grande, muito à semelhança do que aconteceu em eventos anteriores na série”, como é o caso da inesperada morte de Nairobi (Alba Flores) na quarta temporada.

Álex Pina confessa que o arrependimento é um sentimento constante durante o processo de criação. “Escrever é tomar decisões, e escrever sequências para uma série de ação é tomar decisões constantemente”. O criador compara este processo a um jogo, no qual é necessário experimentar diversas estratégias para se alcançar um objetivo satisfatório para o público. “Por exemplo, inicialmente, estava previsto que La Casa de Papel tivesse apenas duas temporadas”, mas a história acabou por continuar devido à ótima aceitação por parte dos espectadores. Admite, ainda, que foram tomadas decisões muito importantes e um tanto ou quanto arriscadas à medida que a história foi avançando, como é o caso da morte de duas personagens principais: Moscovo (Paco Tous) e Berlim (Pedro Alonso). “Talvez não tivéssemos feito o mesmo agora porque, por exemplo, o Moscovo e o Denver (Jaime Lorente) foram criando um laço sentimental demasiado importante para nós”, admite.

O criador de La Casa de Papel fala, ainda, sobre outros percalços durante o processo de criação. Explica que uma das coisas que poderá ter ficado mais aquém das expectativas foram os diálogos entre as personagens. “Isso poderá não ter corrido da melhor forma, uma vez que queríamos dar um toque de comédia a algumas cenas e, em alguns casos, não tivemos a capacidade de criar diálogos brilhantes”. Pina esclarece que a escassez de tempo é outro dos fatores que podem atrasar o processo criativo e conduzir a algumas incongruências: “Muitas vezes as séries não ficam perfeitas porque temos apenas 15 ou 20 dias para escrever guiões. Escrever uma série significa que a equipa de produção coloca muita pressão em cima de ti para apresentar um guião. É um ritmo imparável”, explica.

“É um sentimento de vazio”, diz o criador de La Casa de Papel quando questionado acerca do que sentiu quando terminou de escrever o final da série. “Foi simultaneamente desgastante e gratificante escrever todos os episódios [iniciais] e gravá-los em praticamente cinco ou seis meses. […] Éramos novos nestas andanças, não tínhamos dinheiro e, então, não conseguíamos regravar as cenas muitas vezes”.

E sobre as hipóteses de o universo da série não terminar por aqui? Álex Pina explica que, de momento, não está a pensar em dar continuidade a La Casa de Papel: “Agora estou a terminar a quinta temporada e não consigo tirar um momento para pensar em criações futuras”. Acrescenta, ainda, que o facto de ter concebido a última temporada dentro do género de filme de guerra torna difícil o momento de pós-produção. “É preciso terminar de editar esta temporada e ver se realmente poderá haver a possibilidade de um spin-off… Mas, por agora, não tenho nada em mente”.

A primeira parte da quinta e última temporada de La Casa de Papel estreou no passado dia 3 de setembro, na Netflix, e conta com cinco episódios. A trama da primeira temporada gira em torno de um grupo de ladrões que, liderados pelo “Professor”, planeiam um assalto meticuloso à Casa da Moeda de Espanha, cujo objetivo é fabricar o próprio dinheiro e (tentar) sair ilesos… e ricos.