Classificação

7.5
Interpretação
7.5
Argumento
7.5
Realização
8
Banda Sonora

[Contém spoilers.]

Uma nova semana trouxe consigo o mais recente episódio de Grey’s Anatomy. Intitulado Tradition, este novo capítulo da série leva Jackson a partilhar a sua mudança de carreira com os seus colegas. Entretanto, Koracick e Levi dão o seu melhor para salvar um ancião, enquanto Jo e Carina tratam da sua neta, que entrou em trabalho de parto. Por fim, Maggie mantém Meredith debaixo de olho enquanto Bailey e Richard adiam contar-lhe a verdade sobre DeLuca.

Se tivesse a opção de reduzir este episódio a uma só expressão, “terrorismo emocional” estaria no topo da minha lista de possíveis respostas. Aparecendo como forte candidato a melhor episódio da temporada, Tradition faz bom uso do sentimento de nostalgia (algo forçada) que tem vindo a permear esta mais recente instalação de Grey’s Anatomy, mostrando-se capaz de produzir algum tipo de emoção no meu coração frio e cansado através do recurso a uma boa banda sonora e, também, a várias alusões visuais ao passado da série.

Dando seguimento aos eventos de Look Up Child, este novo episódio de Grey’s traz consigo a despedida oficial a Jackson Avery, após a sua decisão de tomar a liderança da Harper Avery Foundation, em Boston. Assim, parte de Tradition prende-se com este “adeus” ao personagem, seguindo Jackson à medida que este partilha as novidades com a sua família e amigos do Grey Sloan Memorial, oferecendo palavras de consolo e apreço aos seus colegas e mentores de longa data. 

De forma semelhante ao sucedido no episódio anterior, a despedida a este personagem traz consigo uma sensação agridoce. Se, por um lado, acredito que a série oferece a Jackson um send off à sua altura, mostrando que está em paz com a sua decisão e que esta nova etapa da sua vida lhe permite seguir aquilo que acredita ser a sua verdadeira vocação (o que, na verdade, é o melhor que se pode esperar para qualquer personagem da série), por outro, não consigo evitar a tristeza que sinto em vê-lo partir. Conforme já referi, Jackson surge como uma das minhas personagens masculinas de eleição em Grey’s Anatomy – uma condição que se deve não só aos 12 anos partilhados com o personagem, mas também ao seu carácter ao longo de todo este tempo. Em retrospetiva, torna-se claro que este é o momento ideal para a sua saída. Afinal de contas, há muito que a série demonstra não saber mais o que fazer com os seus personagens (e, uma vez que o seu final não está para breve, percebo a decisão). Mas o impacto que Avery teve sobre Grey’s é inegável, pelo que sinto que a série perde agora um dos pilares que a mantinha estável.

Numa nota mais alegre, Tradition marca o regresso oficial de Meredith, que tem agora alta hospitalar após passar com distinção a todos os seus exames de saúde. Uma porção considerável deste episódio – aquela que não se debruça sobre o ataque emocional levado a cabo por Jackson contra a minha pessoa, isto é – é passada com a médica, que procura evitar a todo o custo as celebrações planeadas para a sua libertação. No entanto, Meredith seria uma sortuda se todos os seus problemas fossem tão simples como fugir a ser o centro das atenções. A verdade é que enquanto a médica se preocupa em escapar à pequena festa, Bailey e Richard debruçam-se sobre como partilhar a notícia da morte de DeLuca. Toda esta problemática acaba por não ter grande payoff. Afinal de contas, Meredith já sabe do sucedido, tendo sido visitada por Andrew na sua praia em Hopelessly Hoping. Se existe algo de positivo a retirar de todo este assunto, é o facto de a médica saber que DeLuca se encontra em paz, sem arrependimentos sobre o sucedido e na companhia da sua falecida mãe.

Esta não é a última vez que DeLuca é mencionado neste novo episódio. De facto, o breve regresso de Carina a Grey’s Anatomy dá azo a uma conversa entre a médica e Jo, que surge agora como sua residente na especialidade de obstetrícia e ginecologia (sim, pessoal, após toda uma temporada a ouvir o raciocínio da médica em mudar de especialidades, eis que finalmente vemos Jo com o infame pijama cor-de-rosa). Se a memória não me falha, Jo e Andrew nem sempre tiveram a melhor das relações – aliás, basta pensar um pouco sobre o assunto para me lembrar de múltiplas instâncias que demonstram exatamente isso. Assim, não sei se a série omitiu o sucedido por falta de lembrança, ou se Jo escolheu deixar de parte estas memórias menos positivas de modo a poder proporcionar algum tipo de conforto a Carina. De qualquer forma, gosto que Grey’s tenha dado algum destaque aos sentimentos da irmã de DeLuca, ainda que grande parte do seu desenvolvimento enquanto personagem se mantenha reservado para Station 19

Passando agora para um aspeto deste episódio de que não gostei tanto, tenho a dizer que, apesar de não ter nada contra a série tomar uma posição de advocacia em favor dos direitos de minorias (aliás, agrada-me o facto de Grey’s Anatomy usar a sua posição de relevo na televisão americana para realçar este tipo de causas), gostava que Grey’s conseguisse abordar estes assuntos com uma maior naturalidade. Por várias vezes ao longo desta temporada, senti que a série abordava este tipo de temáticas em estilo public service announcement ao invés de as integrar de forma mais natural na sua narrativa, levando muitas vezes a diálogos expositivos e forçados, que falam sobre os problemas enfrentados por este tipo de comunidades em vez de os demonstrarem. Infelizmente, Tradition não surge como exceção à regra, apresentando à audiência membros de uma tribo nativa dos Estados Unidos que surgem como pacientes no Grey Sloan Memorial. Os personagens surgem como uma possibilidade para a série realçar de novo o impacto da COVID-19 sobre minorias étnicas, mas também para abordar as perdas a nível cultural que decorrem da morte de anciãos deste tipo de povos, que levam consigo conhecimentos transmitidos apenas através da oralidade. Novamente, acredito que este tipo de narrativas são importantes e, por isso, merecem o realce devido, pelo que me sinto infinitamente frustrada pelo facto de Grey’s as abordar de forma tão simplista. É melhor do que nada, é um facto, mas pessoalmente gostaria de ver um melhor esforço por parte dos argumentistas em concretizar este tipo de narrativas.

Ainda na temática da COVID-19, temos vindo a observar o efeito desta pandemia nas decisões de várias das nossas personagens, ao longo desta 17.ª temporada da série. Se é verdade que levou à mudança de carreira por parte de Jo e, posteriormente, Jackson, também o é que as mudanças ao corpo médico de Grey Sloan não parecem parar por aqui. Neste novo episódio, a fatiga que surge como consequência de viver no meio de uma pandemia começa a ter efeito sobre Helm, que questiona agora a sua decisão em estudar e exercer medicina. Apesar de Tradition não se mostrar forte o suficiente para alienar a médica desta profissão, em especial após Levi demonstrar o seu apoio, outro médico escolhe este momento para dizer “adeus” ao hospital. Falo, é claro, de Tom Koracick, que se despede agora da série para se juntar a Jackson em Boston. A revelação levou-me por surpresa, mas compreendo que a vivência no hospital, aliada ao facto de Koracick ter estado às portas da morte devido a esta doença, tenham levado o personagem a decidir que precisa de uma mudança de cenário.

De menor importância para a série surge o facto de Link acreditar, de forma errónea, que Amelia irá sair da casa de Meredith agora que a nossa Dr.ª Grey está de regresso, completamente absorto das forças magnéticas que mantém qualquer um aprisionado na habitação. Isto e, é claro, as escapadelas de Owen e Teddy, sobre as quais não me vou debruçar, uma vez que todos sabemos qual a minha opinião sobre esta parelha. Por fim, fico feliz em saber que Maggie e Winston planeiam ver Richard oficiar a sua união –  algo que representa uma enorme honra para o personagem.

Assim, Tradition aparece como um bom episódio para a série, com os seus vários momentos emotivos. Surge quase como o encerrar de um capítulo, deixando para trás a onda de negatividade que tem vindo a assombrar o Grey Sloan Memorial e todos aqueles que cometem o erro de lá permanecer. Resta-nos agora ver se o futuro da série será risonho ou, pelo contrário, se regressaremos às trevas dentro de poucos episódios.

Podes acompanhar a série todas as quartas-feiras, às 22h20, através da FOX Life Portugal.

Inês Salvado