Classificação

8.5
Interpretação
6
Argumento
8
Realização
8
Banda Sonora

[Contém spoilers]

Temporada: 4

Número de Episódios: 10

Chegou à Netflix no passado dia 5 de junho a quarta e última temporada de 13 Reasons Why (já não era sem tempo!), a série que teve como base, na primeira temporada, o livro homónimo de Jay Asher.

A primeira temporada já me tinha feito levantar bastantes questões em redor dos motivos que levaram Hannah Baker (Katherine Langford) a cometer suicídio, mas como esta seguia o livro (que eu li antes de ver a série) não havia muito por onde fugir. No entanto, a série ainda conseguiu intensificar mais os motivos de Hannah, sendo um exemplo disso a violação que ela sofreu por parte de Bryce (Justin Prentice). No livro isso não acontece dessa forma. Eles envolvem-se, sim, mas Hannah fez isso para poder ter um motivo ainda maior para desistir dela mesma (inclusive ela diz no livro o seguinte: “You were touching me… but I was using you. I needed you, so I could let go off me, completely. For everyone listenig, let me be clear. I did not say no or push his hand away”).

Uma vez que não estava dentro da mente de Hannah, não me cabe a mim julgar a maneira como ela lidou com as coisas que lhe aconteceram, mas Clay (Dylan Minnette), especialmente, não merecia o sofrimento todo que aquilo lhe ia causar, ainda para mais sendo que ele estava mais que disposto a ajudá-la. Atenção, não estou com isto a querer menosprezar o sofrimento pelo qual ela estava a passar, mas só de imaginar o sentimento de culpa que Clay vai carregar para o resto da vida dele, parte-me o coração.

Com a indicação de que haveria uma 2.ª temporada, veio não só o receio de que a série fosse perder qualidade, dado que já não teria um livro para dar suporte à história, mas também a esperança de que algo bom adviesse desta, sendo que tinham sido deixadas bases suficientes, não só para abordar diversos tópicos extremamente importantes e atuais, mas para dar um fim às histórias que tinham sido deixadas em aberto no final da temporada. Porém, ao chegarmos ao final da segunda temporada, ficou claro que tinha sido um erro avançar para esta (e eu nem desgostei tanto como a maioria dos meus colegas), dado que demonstraram que definitivamente não sabiam o que estavam a fazer e ainda pior, que não sabiam mesmo lidar com os temas que tinham em mãos.

Sei que a vida não é justa e 13 Reasons Why tinha também como objetivo mostrar essas mesmas injustiças, mas considero que poderiam e deveriam ter tentado focar mais nas possíveis soluções (por mais impossíveis que fossem) para essas injustiças do que somente nas injustiças. Ou seja, não só mostrar o fundo do poço, mas a possível corda para se poder sair desse mesmo poço (se é que me faço entender). Numa ou outra situação isso até pode ter acontecido, mas foi mesmo em raras exceções.

Séries que abordem temas como os retratados em 13 Reasons Why são necessárias, isso é um facto. Contudo, é necessário também saber fazê-lo, não só por serem temas tão sensíveis, mas por afetarem muita gente. Apesar de 13 Reason Why ter chamado a atenção para as referidas temáticas, a verdade é que não as soube abordar da melhor forma, fazendo com que o espectador ficasse mais triggered com a forma como eles criaram e lidaram com as situações, do que com os temas propriamente ditos.

Mas o pior mesmo estava guardado para a terceira temporada. Digo-vos, eu já não tinha grandes expectativas para a temporada, mas ainda consegui odiar mais do que estava à espera. Já não bastava as asneiras que tinham feito nas temporadas anteriores, ainda decidiram romantizar o Bryce?! Juro que não consigo entender! Bryce durante as temporadas anteriores tinha demonstrado bem que era incapaz de sentir remorso algum pelo que tinha feito (inclusive temos a cena em que ele é confrontado pela mãe e nota-se perfeitamente que ele não só não sentia um pingo de remorso como voltaria a fazer se assim o quisesse) e agora já era capaz de sentir?

É verdade que essa romantização é feita do ponto de vista de Ani (Grace Saif), uma personagem que caiu ali um pouco de paraquedas, mas que logo se tornou parte do grupo. No entanto, eu não consigo entender como é que ela foi capaz de se tornar amiga de Bryce e envolver-se com ele, ainda mais sabendo aquilo que ele tinha feito. Desculpem, mas para mim não faz o mínimo de sentido.

Apesar desta terceira temporada, que confirmava ainda mais que 13 Reasons Why se estava a tornar um completo erro, chegou-nos a quarta e última temporada, que conseguiu mostrar que as coisas ainda poderiam piorar mais. Conseguem imaginar o que seria a junção da série Riverdale com a já finalizada série Pretty Litte Liars? Pois, se conseguirem imaginar, já têm uma vaga ideia do que foi esta quarta temporada de 13 Reasons Why. Se não conseguem imaginar (de tão má e descabida que a ideia é), basta verem a quarta temporada que conseguem ter um vislumbre do que seria um crossover das duas séries.

Para quem viu as temporadas todas de Pretty Little Liars e conseguiu ver até ao final a quarta temporada de Riverdale (não me perguntem como, que nem eu mesma vos consigo explicar), digo-vos que foi um suplicio ver a temporada até ao fim. O único episódio que eu consegui realmente gostar foi o nono, uma vez que depois de todo o enredo dos episódios anteriores a este, Prom soube como uma lufada de ar fresco. Ao chegar ao final da temporada o sentimento que fica é que esta pouco ou nada acrescentou para a história que já conhecíamos até então. No meu entendimento a temporada poderia muito bem ter acabado na terceira temporada que não estávamos a perder grande coisa.

É certo que talvez fosse necessário criar a ligação entre Wiston (Deaken Bluman) e  Alex (Miles Heizer) para que no final Wiston, que estava disposto a descobrir quem é que realmente tinha morto Bryce, uma vez que ele sabia que não tinha sido Monty (Timothy Granaderos), não denunciasse Alex, e assim uma das pontas que tinha ficado solta no final da terceira temporada ficasse resolvida. No entanto, não é fundamento suficiente que consiga suportar uma boa temporada, a meu ver.

Aliado a isto temos a narrativa de Clay que desde o início da temporada mostra que não se encontra num estado mental estável. Novamente, 13 Reasons Why aborda uma temática bastante importante, mas não o faz da melhor maneira, mostrando que se preocupou mais em criar história suficiente para os dez episódios do que abordar os problemas em condições. Exemplo disso é o facto de vermos várias vezes, ao longo de oito episódios, Clay totalmente instável, mas pouco ou nada a ser feito quanto a isso.

Se um miúdo aparece no baile, encharcado com aquilo que parece ser sangue, após ter chorado horrores por ver um boneco ensanguentado – que na mente dele era Monty – algo não está bem ali. E o que é que fizeram? Nada. Inclusive vemos Ani a ir embora e o resto do pessoal a olhar para um Clay extremamente apavorado, mas sem fazerem absolutamente nada. Nem mesmo a equipa de futebol, que fez a partida a Clay, sofreu qualquer tipo de represália, tanto é que, posteriormente, voltaram a meter-se com Clay no acampamento.

Do que é que valeu o caso de Hannah, se chegamos à quarta temporada e comportamentos como o referido anteriormente continuam a ser tolerados? A mim o que me faz crer é que não valeu de nada (e isto é só um pequeno exemplo, agora imaginem o resto!). Relativamente às restantes narrativas dos outros personagens pouco ou nada tenho a dizer a não ser que não só não acrescentaram nada de importante, como conseguiram estragar o desenvolvimento que essas mesmas personagens tinham tido até ali.

Um desses casos é o da Jessica (Alisha Boe), que passou de mulher forte e independente que não precisava de rapaz nenhum para ser feliz, para uma rapariga que usa os rapazes, mais especificamente Diego (Jan Luis Castellanos), para fazer ciúmes a um rapaz, no caso, Justin (Brandon Flyn). Ela ainda usa a desculpa de que é para descobrir o que ele sabe e para o tentar impedir de se meter com Clay, mas isso a mim pouco me convenceu.

Alex parece ter tido mais sorte que juízo, sendo que não teve só um rapaz interessado nele, mas dois. Apesar de tudo o que aconteceu nas temporadas anteriores parece que Alex estava destinado a ser feliz, e ainda bem. Gostei bastante de o terem juntado com Charlie (Tyler Barnhardt), que é uma personagem bastante fofa (e de quem eu gosto muito) e que eu acredito que fará muito bem a Alex.

Zack (Ross Butler) também teve uma temporada difícil, sendo que o vemos muitas vezes a consumir álcool, consequência de ele também não estar bem (e novamente não me pareceu que fizessem algo quanto a isso ao longo da temporada), no entanto, com a ajuda do treinador e o facto de ele ir estudar música, creio que as coisas ficarão melhores para ele.

Tyler (Devin Druid) não teve tanta atenção nesta temporada (para grande tristeza minha), mas se calhar até foi melhor assim, não fossem eles também arruinar a personagem dele. De realçar a cena brilhante dele, no episódio seis, juntamente com Estela (Inde Navarrette), a irmã de Monty, enquanto se encontravam presos na casa de banho durante o simulacro. A situação só por si já é complicada e de nos deixar com o coração na mão, mas tendo em atenção o que aconteceu com Tyler na segunda temporada, ganha ainda mais impacto.

O desenvolvimento de Justin era das poucas coisas boas que esta temporada nos estava a dar, sendo que finalmente o vimos a tentar ficar sóbrio, e a lutar por um futuro, mas uma vez que se trata de 13 Reasons Why já devíamos estar à espera que eles fizessem porcaria e foi exatamente isso que fizeram, ao matar a personagem no final. Até agora não consigo entender porquê, sendo que já tínhamos tido mortes suficientes ao longo da série e o motivo que apresentaram também não me parece ter sido o mais plausível (pelo que li).

Resumindo e concluindo (que já me alonguei o suficiente), 13 Reasons Why mostrou-nos temporada após temporada que deveria ter ficado somente pela primeira, sendo que só posso ficar contente pelo facto de finalmente ter terminado. Não é uma série que valha a pena ver e é isso que eu digo, e direi, a toda a gente que me diz que tem interesse em ver a série, porque só vão perder tempo, tempo esse que poderia estar a ser usado para ver uma série realmente boa.

 

Episódio de Destaque:

Episódio 6 – Neste episódio acontece um simulacro no liceu. Os alunos passaram o episódio todo aterrorizados uma vez que não sabiam realmente se era um simulacro ou se existia mesmo um atirador na escola. Para culminar, tivemos um discurso (e uma atuação) brilhante por parte de Clay, que conseguiu não só mostrar o quão mal ele estava, mas quão errado o sistema era. De pouco vale preparar os alunos para uma situação daquelas, se não lhes conseguem providenciar o básico. Em momento nenhum da temporada foi referido que existia um psicólogo na escola – não será isso algo mais necessário do que um simulacro daquele nível? Já para não falar no trauma com que aqueles adolescentes vão ficar. Do início ao fim, o episódio foi um misto de emoções.

Personagem de Destaque:

Clay Jensen (Dylan Minnette) – Depois destas quatro temporadas, e em especial depois desta temporada, seria injusto escolher outra personagem que não Clay Jenson. Desde o início da série que a personagem de Clay vai sofrendo bastantes transformações, sendo que ele, mesmo sem querer, se vê envolvido no meio dos problemas todos. Aliado a esta personagem, que nos consegue proporcionar uma montanha russa de sentimentos, encontra-se a atuação esplêndida de Dylan Minnete, que me deixou perplexa em diversos momentos.

Cármen Silva