Sugestão do mês (novembro) – Ramy

Para novembro, a sugestão que temos para ti é uma série que, durante o mês passado, fez reféns de um ecrã duas colegas de casa: Ramy, a comédia dramática semiautobiográfica da Hulu. Repleta de humor observacional, esta série é capaz de, num mesmo episódio, deixar qualquer espectador à beira de um ataque de riso, a contorcer-se de desconforto ou a refletir sobre uma qualquer questão filosófica complexa.

Da autoria de Ramy Youssef, que, para além de protagonizar, também produz, escreve e, ocasionalmente, realiza a série, Ramy convida-nos a entrar na viagem espiritual de Ramy Hassan, um jovem muçulmano de New Jersey, filho de pai egípcio e mãe palestiniana, que se divide entre a sua religião e as infinitas possibilidades que a vida na América lhe oferece. Esta história baseia-se, ainda que de forma vaga, na vida de Youssef: como o próprio afirma, a personagem principal é uma versão de si, mas em cenários bastante mais extremos.

Logo na sua 1.ª temporada, a série recebeu inúmeras nomeações a importantes galardões americanos, tendo inclusive conquistado o Globo de Ouro de Melhor Ator em Série de Comédia ou Musical. Agora que a série já vai na sua 3.ª temporada, merece ser a sugestão deste mês do Séries da TV.

“Salaam, Bro!”

Ramy convida-nos a entrar numa esfera familiar tradicional, através da qual nos apercebemos da importância que certos rituais têm numa determinada cultura. Uma vez que esta é uma família de pais imigrantes, faz todo o sentido que haja uma vontade de preservar as suas raízes, sendo uma das formas de o fazer através da prática religiosa.

Porém, qual o lugar da religião muçulmana nos Estados Unidos da América do século XXI? Há práticas muçulmanas que, aos olhos do Ocidente, parecem cada vez mais antiquadas, não acompanhando a modernização dos tempos. E o que são os Estados Unidos da América senão o epíteto da modernização? A série mostra de forma divertida a influência intercultural que faz nascer expressões como “Salaam, bro!” e que, como sabemos, a melting pot americana proporciona, refletindo, ainda, sobre os desafios de tentar ser fiel à religião muçulmana numa sociedade em que a religião é cada vez menos relevante, porque cada vez mais parece afastar-se dos valores modernos.

“Home is where the heart is” (ou “We did it all for hot dogs”)

A série é, então, a história de uma família imigrada em New Jersey, em busca do sonho americano. Embora Ramy e a sua irmã já tenham nascido na América, os pais tiveram de deixar a sua terra natal e todas as pessoas que mais amavam para trás. Esta é uma decisão que, principalmente no final desta última temporada, tanto o espectador, como o casal Hassan, questionam. Afinal, para esta família, o sonho americano nada mais é do que um mito. Entre os problemas financeiros, o preconceito sistémico perante a sua etnia e religião e o estar longe da terra e das pessoas que os viram crescer, parece não haver uma única boa razão para terem imigrado para os Estados Unidos da América (exceto, talvez, os cachorros-quentes americanos, que deixarão para sempre a sua marca nas memórias familiares dos Hassan).

Apesar da sua nacionalidade americana, o estatuto de imigrante dos pais acaba por prejudicar também Ramy e a sua irmã, que, criados no seio de duas culturas bem distintas, muitas vezes até com valores conflituantes, têm dificuldade em estabelecer uma identidade cultural que lhes assegure um pleno sentimento de pertença.

Sem ser possível rever-se nos desafios que uma família muçulmana enfrenta nos EUA, os portugueses, com o seu historial de emigração, partilharão com os pais de Ramy alguns dos sentimentos que todos aqueles, independentemente da sua etnia ou religião, que têm de deixar para trás todo o seu «coração» normalmente partilham.

Quem ao outro quer agradar sempre acaba por desapontar

Ramy é uma viagem pela psique das suas personagens, que tentam enfrentar os seus conflitos internos. No caso de Ramy, ele só quer ser uma boa pessoa e um bom muçulmano, mas o que será que isso significa? Na sua incessante busca para ser melhor, Ramy faz tudo aquilo que acredita ter de fazer para que as pessoas o vejam como uma boa pessoa e um bom crente e, no processo, acaba sempre por tornar-se pior, magoando aqueles que o rodeiam e afastando-se de Deus e da sua verdadeira essência.

Desde o início da série que o nosso protagonista – algumas vezes por puro narcisismo, outras por puro azar – parece estar preso num perpétuo ciclo de retrocessos. Isto torna a vida de Ramy uma verdadeira frustração de acompanhar e, mesmo assim, é difícil não torcer por ele. Essa talvez seja a prova do quão humanamente Youssef construiu a personagem de Ramy, que, como afirmou o autor da série numa entrevista à Forbes, não é um herói nem um anti-herói, mas um personagem pensado para estar completamente despido em frente ao espectador. Ramy é uma dissecação da mente do seu protagonista, tornando-se, por isso, um complexo estudo do carácter humano, refletindo sobre o que significa ser uma boa pessoa num mundo repleto de contradições.

Quanto mais específico, mais universal

Como disse Youssef numa conferência de imprensa após ganhar o seu Globo de Ouro, em 2019, a série não foi construída com a intenção de apelar a um certo grupo de pessoas. Apesar de Ramy contar a experiência de um filho de imigrantes muçulmanos nos Estados Unidos da América, Youssef não quer ser o porta-voz da primeira geração americana de filhos de imigrantes muçulmanos. Este não é, portanto, o reflexo de toda uma comunidade, mas, antes, a mera representação de uma experiência pessoal.

Por assim o ser, Ramy permite que muitos dos espectadores se identifiquem com a história, ainda que seja nos seus mais ínfimos detalhes. Para além disso, ainda que esta seja uma história muito específica, sobre uma única família muçulmana em New Jersey, ela cruza-se com outras histórias que podem representar pontos de fuga com os quais o espectador poderá relacionar-se. Assim, apesar de ser uma história muito particular, acaba por nos incluir a todos, seja direta ou indiretamente. Seja porque nos revemos na procura para ser alguém melhor, porque somos uma mulher que ambiciona ser advogada, porque somos um casal que dá o outro como garantido, ou porque somos parte de uma sociedade que inflige uma certa segregação religiosa. Esta é uma história de humanos para humanos.

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