[Pode conter pequenos spoilers]

Quem me conhece sabe que gosto de séries com personagens LGBT+, mas Pose nunca me tinha despertado uma curiosidade por aí além e por isso quando vi o primeiro episódio já tinham sido emitidas duas temporadas completas. No entanto, basicamente foi amor à primeira vista – ou ao primeiro episódio.

Um dos grandes méritos que podemos encontrar em Pose mesmo antes de começar a vê-la é que tem o maior elenco transgénero – no papel de personagens também elas trans – do mundo das séries. A televisão soma pontos no caminho pela diversidade ao fazer destas pessoas a verdadeira história ao invés de as tornar ‘adereços’ para as narrativas de outros.

A trama decorre nos anos 80, em Nova Iorque, altura em que a SIDA ataca em força, sem que haja ainda conhecimentos suficientes sobre a doença para a tratar de forma eficaz. A comunidade LGBT+ – que se sentia desde sempre à margem do resto da sociedade, alvo de ódio e discriminação – vive a perda dos seus para a SIDA. Quem se interessa por esta temática sabe que a administração Reagan levou muito tempo até reconhecer sequer que havia um problema a assolar o seu país e basicamente só o fez quando a dimensão gigantesca de casos já não podia ser ignorada. Estas pessoas sentiam-se então desprotegidas perante uma doença nova que estava a dizimá-las e ninguém fazia nada para as ajudar. No entanto, nos ballrooms havia um verdadeiro sentido de comunidade, de família até. É precisamente no seio da ball culture, uma subcultura da comunidade LGBT+, que grande parte da ação desta série decorre. Para quem não conhece, como é que isto funciona? Os participantes são, na sua maioria, negros e latinos que se juntam para desfilar, dançar e fazer poses com vestimenta adequada para a categoria em questão. Os melhores têm direito a troféus e cada participante faz parte de uma house (casa) que os acolheu e onde são uma família, depois de terem sido rejeitados pelos parentes de sangue.

Nunca pensei, mas a verdade é que adoro a parte colorida dos desfiles, das roupas, do glamour, das picardias engraçadas entre os participantes. Contudo, é precisamente pelo sentido de família que Pose brilha verdadeiramente, foi isso que me fez apaixonar pela série. Ninguém devia ter de passar pela provação de ser rejeitado pela família de sangue, mas pelo menos estas pessoas encontram umas nas outras o amor e a aceitação que todos deviam ter nas suas vidas. Há histórias trágicas, mas também inspiradoras, como a de Elektra, que fez a cirurgia que a tornaria uma mulher em todos os aspetos, ou a de Blanca, que foi a melhor mãe que Damon, Angel ou Papi poderiam pedir.

Quando estou a ver Pose sinto que estou a ver algo que dá verdadeiro empowerment à comunidade trans – mas também a todos aqueles que são diferentes daquilo que a sociedade considera comum – e às mulheres, não importa o corpo com que nasceram! A banda sonora é incrível, mas o lado humano é, sem dúvida, aquilo que mais merece destaque. A 2.ª temporada trouxe menos daquilo que adorei na primeira, mas o último episódio foi perfeito para mostrar que a essência de Pose está lá. Sabemos que a televisão está a fazer verdadeiro serviço público quando dá voz a uma comunidade que, apesar do longo caminho que percorreu, ainda é marginalizada, vítima de ódio e de desprezo porque ainda não evoluímos o suficiente enquanto sociedade para tratar todos da mesma maneira, sem olhar a cores de pele, orientação sexual ou identidade de género. As frases no final dos episódios são verdadeiras pérolas que ajudam a fazer a diferença e a construir aquilo que é Pose.

Espero que a 3.ª temporada deixe para trás das costas aparições esquisitas de personagens que já morreram e se concentre em continuar a contar histórias comoventes, sem que deixe também de dar destaque aos divertidos momentos nos ballrooms, que dão à série um toque atrevido que também lhe cai muito bem.

Diana Sampaio