O Dia Internacional contra a Discriminação Racial celebra-se amanhã e não quis deixar passar a data em branco, porque o racismo e a xenofobia continuam muito presentes. Há quem afirme que não há racismo em Portugal (o que é perigoso, porque basta olhar para os resultados das eleições presidenciais), mas isso é apenas ignorar o óbvio: que ele existe em todo o lado, muitas vezes tão próximo de nós e, inclusive, dentro das nossas casas. No entanto, não quero com esta crónica dar nenhuma aula sobre a questão do racismo, mas sim aproveitar a abordagem que algumas séries fizeram do tema procurando sensibilizar e, de certa maneira, educar os espectadores. A ficção tem este papel importante, que tantas vezes desempenha de forma soberba, de nos abrir os olhos para certas realidades às quais, de outra forma, poderíamos não ser expostos.

Quando se fala em racismo, há certamente séries que nos vêm imediatamente à mente, como When They See Us, que retrata a história real de cinco miúdos, o mais velho com 16 anos, que foram acusados injustamente de violar e espancar uma jovem que corria no Central Park. Kevin Richardson, Antron McCray, Yusef Salaam, Korey Wise e Raymond Santana são os seus nomes, adolescentes que viram as suas vidas completamente viradas do avesso apenas porque estavam no sítio errado (e o Central Park não é propriamente um lugar pequeno) à hora errada. Aquilo que lhes fizeram mostra o quanto a suposta justiça pode ser aleatória devido à necessidade de encontrar culpados para determinados crimes, mesmo que não sejam os responsáveis. No caso de Korey, ele simplesmente foi acompanhar o amigo à esquadra e acabou arrastado para o meio de toda aquela confusão.

O mundo odiou-os, alguns (incluindo Donald Trump, como não poderia deixar de ser), pediram a pena de morte para meninos de 14, 15 e 16 anos, e as provas eram menos do que circunstanciais. As suas vidas foram suspensas, arrasadas durante anos e anos e, afinal, provou-se que eram inocentes. Que raio de justiça é esta? Queremos acreditar que isto teria acontecido na mesma se se tratasse de miúdos brancos? Muito dificilmente. A cor da pele deles foi determinante. A série é um brutal murro no estômago, mas é o tipo de murro que o espectador tem que levar.

Orange Is the New Black é outro título incontornável quando se quer abordar a questão do racismo e da discriminação no mundo das séries. Poussey Washington e Tasha Jefferson são duas das personagens cujas histórias mais se destacaram. A morte de Poussey, às mãos de um guarda, gerou um motim na prisão, mas, mais importante do que isso, gerou uma discussão em torno do movimento #SayHerName, que procura consciencializar para a violência policial e racista que afecta diretamente as mulheres negras nos Estados Unidos. Tasha, ou Taystee, como preferirem, tal como Kevin, Antron, Yusef, Korey e Raymond, foi acusada de um crime que não cometeu. Do meu ponto de vista, Red teria sido um bode expiatório mais credível e justificado, mas não era muito provável que uma senhora branca de meia idade visse o dedo ser-lhe apontado quando as culpas podiam facilmente ser atribuídas a uma jovem negra. É irónico que duas das personagens mais doces, verdadeiramente boas, tenham sido das que enfrentaram maiores injustiças.

Depois, no espectro oposto, temos Piper Chapman, que é o sinónimo de white privilege. O tipo de privilégio de que também gozo. Dei por mim algumas vezes a pensar que, provavelmente, na mesma situação, teria tido a mesma sorte que Piper. Branca, classe média, uma vida confortável, oportunidades… Healy tratava-a imensamente bem (pelo menos até descobrir que não era hetero), foi-lhe concedida a possibilidade de sair para ir ver a avó que estava a morrer, um benefício de que outras inmates não puderam usufruir em situações semelhantes… Piper fazia “trinta por uma linha” e o máximo que lhe aconteceu foi ir para a solitária. É muito mais simpático do que ser assassinada ou condenada por um crime que não cometeu. A maior provação que ela enfrentou foi às mãos de outras inmates, mas Piper andava a fazer um jogo perigoso que, mais tarde ou mais cedo, sabíamos que iria arranjar-lhe sarilhos.

Aprendi que o facto de alguém negar o seu privilégio enquanto pessoa branca é prejudicial e contribui para o problema. A Elena Richardson de Little Fires Everywhere é a epítome desse tipo de privilégio. A mulher abastada que vive numa redoma e não faz ideia de como é a vida para os outros que têm menos do que ela, que se gaba do historial da sua família em prol dos direitos das pessoas negras, mas não é capaz de ver que as suas falsas boas intenções se revelam racistas. Sim, porque os racistas não são apenas os idiotas de lençol branco do KKK ou os que acham que as pessoas negras, latinas ou asiáticas não devem ter os mesmos direitos que as brancas. Há racismo nas pequenas coisas e não pode ser menos reprovável por isso.

Nesta questão do white privilege, Grey’s Anatomy também gerou uma discussão muito interessante. Amelia teme ter sido interpretada como racista depois de ter tomado o partido de Jo em detrimento de Steph e vira-se para Maggie à procura de conselhos. E, lá está, trata-se das pequenas coisas. Desde os que assumem que Maggie é enfermeira e não cirurgiã, aos que encaram com estranheza que uma jovem mulher negra viaje em primeira classe. Amelia preocupa-se com o facto de poder não reparar nessas coisas e então Maggie diz-lhe que o faça, que repare, mas também diz que não fala por todas as pessoas negras, que não é nenhuma espécie de porta-voz. Sinto que Amelia aprendeu com o que a irmã lhe disse e acho verdadeiramente que esta é uma cena que nos pode ensinar algo a nós, espectadores.

Estas duas personagens, também na recente temporada, passada durante a pandemia, voltaram a trazer-nos um momento de grande relevância, quando Amelia partilha com Maggie que fez uma cirurgia a uma pessoa envolvida em tráfico infantil e Maggie mostra a sua revolta para com a maior vulnerabilidade das meninas negras, que são mais passíveis de serem expostas a essa situação e menos de serem vistas como vítimas, visto que são muitas vezes hipersexualizadas nos media. E a pandemia, pelos vistos, – e isto é algo que de que só ouvi falar em Grey’s -, em termos percentuais, mata mais pessoas negras do que brancas. Até numa pandemia, que se suporia que atacaria todos da mesma forma impiedosa, se veem as desigualdades.

Ainda em Grey’s, e aproveitando também para incluir aqui All American, não posso deixar de mencionar uma questão que já tenho visto várias vezes em ficção: pais que se sentam com os filhos negros, ainda em idades muito jovens, para lhes explicar como devem proceder se algum dia forem mandados parar pela polícia. Terem sempre as mãos à vista, não fazerem movimentos repentinos, não serem impertinentes, mas sim educados, fazerem o que lhes mandam e nunca, mas nunca, virar as costas nem assinar nada, qualquer documento, sem a presença de um adulto. Só o facto de o pai de uma criança negra ter de ter com o filho um tipo de conversa que um pai de uma criança branca nunca terá a necessidade de ter… No entanto, foi precisamente isso que Bailey e Ben tiveram de fazer com Tuck, um menino de 13 anos. E era precisamente isso que Billy, de All American, teria eventualmente feito com Jordan.

No entanto, ele pensou que por viverem numa zona abastada, por serem ricos e por o filho ter um tom de pele mais clara, estaria a ‘salvo’ e protegido de certas situações. Portanto, Jordan não estava preparado quando a polícia o mandou parar. A diferença entre Jordan e Spencer no modo de estar perante a situação é gritante! Jordan age como se o racismo não o afetasse e, apesar de esse ser o mundo ideal ao qual aspirar, Spencer é como uma espécie de lembrança de que o racismo está demasiado enraizado para poder ser ignorado.

Para terminar no tópico das séries, escolho Friday Night Lights. A questão dos direitos civis e das injustiças tem estado presente no mundo do desporto e esta série, que tem o futebol americano como centro da narrativa, também não quis ficar de fora. Mac McGill, o assistente do Treinador Taylor, foi bastante infeliz em alguns comentários que teceu. Tenho a dizer que ele foi apanhado em falso por quem o estava a entrevistar, mas isso não serve de desculpa para a porcaria que lhe viria a sair pela boca. Assim, em resultado desses comentários, Smash e os outros jogadores negros da equipa recusam-se a jogar, a não ser que Mac seja afastado. É justo? Claro que sim!

No entanto, nem mesmo aqueles que os deviam apoiar o fazem. A própria mãe de Smash considera que é inútil o filho tentar dar uma lição daquelas numa pequena cidade do Texas. Porque a maior lição que Smash e os outros rapazes podem dar a esta gente é continuarem a trabalhar, a esforçarem-se e singrarem como desportistas. E confesso que me sinto muito inclinada a partilhar do idealismo de Smash, porque aqueles que têm a paixão e a garra para alterar as regras são os que serão capazes de as mudar.

Não posso terminar esta crónica sem me debruçar brevemente sobre a questão da representatividade. Qualquer pessoa que leia frequentemente comentários feitos nas redes sociais, pode ver que as opiniões mais abomináveis não deixaram de existir com a chegada do século XXI. Parece que a maioria continua a ser aquela que pensa que por haver alguns atores negros, asiáticos e latinos nos nossos ecrãs, já foi feito tudo o que se devia em termos de representatividade. Pensam que o facto de haver muitas pessoas a unirem esforços para que se fale destes assuntos e se faça alguma coisa em relação a isso não faz sentido.

Falam do politicamente correto e de estar na moda. Bem, espero que a luta pelos direitos daqueles que menos os têm seja uma ‘moda’ que nunca passe. Nem é como se fizesse algum sentido que uma pessoa de origem latina dê voz a um personagem de animação latino ou que uma pessoa asiática dê voz a um personagem de animação asiático, quando estes atores têm muito menos oportunidades. Esperem! Ou faz? Sim. É que “Deus nos livre” de ver um(a) negro(a) a interpretar uma personagem anteriormente caucasiana! Isso é que não pode acontecer! Infelizmente há um historial bastante extenso da situação inversa e isso não parece incomodar os tais críticos do “politicamente correto”.

Diana Sampaio