Esta está longe de ser uma crónica sobre casais de que não gosto, seja qual for o motivo para isso. Cerca de metade dos casais desta lista foram dos meus favoritos do mundo das séries em determinados momentos, mas acho que todos sabemos os efeitos negativos que o drama excessivo pode ter numa relação e todos temos a consciência do quanto as coisas são tantas vezes forçadas. Debati-me com a possibilidade de incluir ou não Ted e Robin de How I Met Your Mother nesta crónica, mas não seria justo. O maior motivo, e provavelmente único, para não gostar que tenham acabado juntos prende-se com o facto de isso ter acontecido porque Tracy morreu, quando eu criara expectativas acerca de ela ser o grande amor da vida de Ted. No entanto, um grande amor nem sempre dura por muito tempo e a verdade é que casais que tantas vezes se revelam tóxicos acabam por ficar juntos. Não é o caso de todas as minhas escolhas para esta lista, mas aprofundarei os motivos mais à frente. Para mim, estes seis casais têm em comum o facto de as suas histórias se terem desenvolvido de uma forma em que não deviam ter ficado juntos, porque tal deixou de fazer sentido.

[Contém spoilers]

Benjamin Greene e Julia Day (Gold Digger): Não, eu não me incluo na lista de pessoas que consideram Benjamin um interesseiro. Acredito genuinamente que ele ama Julia, embora nem sempre a sua postura tenha sido das melhores, e que os filhos dela, só os rapazes, tiveram um comportamento inadmissível em relação a Benjamin. Não duvido que há amor entre os dois, mas houve sempre drama excessivo desde o início. Dadas as circunstâncias do passado de Julia, é mais do que justo esta sentir-se insegura, mas… Bem, vou ter que citar Halsey em Graveyard e dizer: “The warning signs can feel like they’re butterflies”. E precisamente por tudo aquilo que Julia viveu, como é que ela é capaz de mergulhar numa relação em que, apesar de se sentir amada, vista e ouvida, ela própria sente tantas dúvidas e desconfianças. E apesar de acreditar na veracidade dos sentimentos de Benjamin, a verdade é que ele mentiu demasiadas vezes sobre coisas importantes. Sobre ser filho único, sobre o porquê da relação tensa com o irmão, sobre a sua própria identidade e o passado. Há uma altura em que Julia basicamente lhe dá a oportunidade de ser franco em relação a qualquer outro segredo que tenha para contar e ele escolhe fingir que não há mais nada a revelar. Ok, ele não matou ninguém, foi o irmão, mas isso não invalida que Julia se tinha sentido traída pela mentira. Mais uma, aliás. Tratava-se de coisas demasiado importantes para serem varridas para debaixo do tapete, por muito difícil que fosse para Benjamin falar sobre elas. Como é que se consegue confiar em alguém depois de uma coisa dessas? No entanto, Julia conseguiu fazê-lo e os dois acabaram por casar, rodeados pela família e pelos amigos. Julia merecia tanto um final feliz, mas este? Tenho as minhas sérias dúvidas.

Dan Humphrey e Serena van der Woodsen (Gossip Girl): Confesso que até achava piada, ao início, a ver o outsider, o rapaz que não fazia parte daquele mundo de miúdos ricos, envolver-se com a it girl, simpática, mas sempre mergulhada em problemas. No entanto, a verdade é que eu nunca liguei muito a Gossip Girl e deixava-me levar mais por ódios a determinados personagens e irritação em relação a certas relações do que por outra coisa. À exceção de Rufus e Lily, claro! Estava a torcer fortemente por eles. Já nem sequer me lembro do que foi acontecendo durante a história de Dan e Serena, mas quando foi revelado que era ele a gossip girl fiquei de queixo caído. Foi uma péssima escolha e nem sequer fazia muito sentido. Enquanto gossip girl, ele expos os segredos de todos, fartou-se de causar problemas. Encaro-o como uma espécie de traição àqueles que o receberam nas suas vidas. Talvez alguns tenham merecido, mas nem todos. E, no final, quais foram as consequências? Nenhumas, zero! Ainda por cima, ficou com Serena, que tinha ficado tão melhor com Nate. Não consigo perceber como é que Serena conseguiu sequer olhar para Dan depois de se saber a verdade! Foi tudo tão simples, tão fácil. Deixa-me bastante incomodada que o comportamento de Dan tenha ficado tão epicamente impune.

Arizona Robbins e Callie Torres (Grey’s Anatomy): Quem acompanha as minhas crónicas sabe certamente que tenho um grande fraquinho por casais LGBTQ+, em especial constituídos por duas mulheres, e os três desta lista não constituem exceção, mas a verdade é que as séries parecem ter uma grande tendência para os arruinar à grande de uma forma que nem eu, a maior fã, acabo a torcer por eles no final. Não estou a mentir ou a exagerar se disser que Callie e Arizona foram o meu casal preferido do mundo das séries durante muitos anos. Apesar de Nomi e Amanita de Sense8 terem assumido esse lugar e lá estarem de pedra e cal, não havia até aqui nenhuma relação do mundo das séries que me tenha tocado tanto quanto a de Callie e Arizona, quer porque adorava as personagens individualmente, especialmente Callie, quer porque adorava a química delas e a relação que construíram. Sei que fui um pouco cega aos sinais. No entanto, achava-as perfeitas na sua própria imperfeição. Porque via amor uma pela outra nas suas decisões, mesmo quando isso as afastava. Mesmo quando as coisas estavam num ponto mesmo mau, depois de Arizona ter perdido a pena e principalmente depois da traição com Lauren, achava que elas seriam capazes de enfrentar a situação. E foram. No entanto, a verdade é que nada voltou a ser o mesmo. Houve erros de ambas as partes. Uns mais graves do que outros, sem dúvida, mas houve-os dos dois lados e a verdade é que a magia que via na relação delas começou a desvanecer-se, até que morreu completa e irredutivelmente depois da questão da custódia de Sofia. Fiquei tão zangada com elas! Como é que duas pessoas que se amaram tanto acharam que a única maneira de resolver aquilo era começarem uma guerra impiedosa contra a outra? A sério, como? E a maneira como Callie permitiu que Arizona fosse enxovalhada pela sua advogada em tribunal ainda hoje me desilude profundamente. E agora desse lado tu estás a pensar: mas elas não ficaram juntas. Fizeram tréguas, mas Arizona comprou bilhetes de avião para que Callie se juntasse a Penny do outro lado do país. Sim, essa foi a última vez que as vimos juntas no ecrã, mas aquando da despedida de Jessica Capshaw da série, descobrimos que Penny e Callie já não estavam juntas e que esta última e Arizona tinham restabelecido o contacto e ficou mais do que óbvio pela felicidade de Arizona a mencionar a ex-mulher que as coisas não estavam acabadas. Uma pequena pista como esta numa série significa sempre o mesmo: que mais cedo ou mais tarde, eventualmente, acabaram juntas. As séries seguem sempre uma via de facilitismo preguiçoso! E eu que estava a torcer tanto para as coisas corressem bem com Penny!

Piper Chapman e Alex Vause (Orange Is the New Black): Outro dos meus ships preferidos do passado. Pode-se dizer que eu era completamente doida por Piper e Alex. Isto até chegar a 7.ª temporada e destruir tudo! O início da história de amor entre estas duas remonta a tempos muito anteriores a OITNB. Tiveram um passado em comum, mas o presente, eventualmente, encarregou-se de as voltar a aproximar. A relação foi conturbada desde o início, mas é compreensível. Quer dizer, Alex denunciou Piper e fez com que esta fosse presa. Não injustamente, Piper era culpada, mas não é inocente considerar que foi uma vingançazinha por a ex-namorada lhe ter partido o coração. Juntas na mesma prisão, não tardou muito até que as duas se voltassem a envolver. Discutiam – até chegaram a andar à pancada – com a mesma intensidade com que faziam sexo, odiaram-se com a mesma intensidade com que se amavam. Era uma relação pouco convencional, mas o ambiente ao qual estavam confinadas também nada tinha de típico. Por isso lidei sempre bastante bem com a loucura da relação. Primeiro porque não era suposto que fosse sério para Piper. Ela estava noiva de um tipo (bastante aborrecido, diga-se) e Alex era apenas um escape. É claro que qualquer pessoa que tenha visto a série percebe que as coisas nunca podiam ser só isso entre elas. Houve bastantes confusões pelo meio, sendo que uma delas se chama Stella, dificuldades em admitir a intensidade dos sentimentos e a seriedade da relação, mas eventualmente as coisas chegaram a esse ponto. As duas casaram-se – apenas simbolicamente e não em termos legais – ainda na prisão, pouco antes de Piper ser libertada. E foi precisamente aí que tudo começou a descambar. Não é muito exagero admitir que ao fim de cinco minutos as coisas começaram a correr mal. Culpa de ambas. Piper não demora muito a envolver-se com outra pessoa no exterior e o mesmo se passa com Alex, que, para alguém inteligente, foi estúpida ao ponto de se envolver com uma guarda prisional. Mesmo quando Piper visitava Alex, parecia que nenhuma das duas fazia o mais pequeno esforço por aproveitar o momento e para realmente estarem uma com a outra. Havia sempre algo que as distanciava, que as distraía. Acho que isso teria feito sentido ao fim de algum tempo, quando a relação começasse a acusar um certo desgaste relativamente à separação, mas aconteceu tudo tão rápido que a única conclusão a que cheguei é que elas não queriam que as coisas resultassem. Os argumentistas lá arranjaram forma de as juntar no final, mas não senti qualquer prazer nisso, de tão forçado que foi. Se era para terem terminado juntas o percurso devia ter sido diferente. Com obstáculos, ok, mas não em tão grande dose.

Naomi e Sam Bennett (Private Practice): Estes dois foram casados, mas quando Private Practice começou já se tinham divorciado. Tanto quanto sabemos, foram um daqueles casais perfeitos até que deixaram de o ser. Não houve nada em especial que tivesse precipitado o fim da relação, mas a verdade é que terminou. Apesar do divórcio, trabalhavam na mesma clínica e a relação foi sempre bastante pacífica. Não destituída de alguma estranheza e tensão, mas era muito melhor do que aquilo que seria de esperar. Acho que até é justo dizer que em certos momentos conseguiram manter uma amizade. Tanto Naomi como Sam tiveram relações sérias com outras pessoas depois de o seu casamento ter terminado. A relação de Sam com Addison, a melhor amiga de Naomi, causou, inclusive, alguns problemas. No entanto, em momento algum das seis temporadas da série tivemos aquela sensação tão comum de que, eventualmente, o antigo casal voltaria a juntar-se. Não houve pistas, nada! Aliás, Naomi até esteve ausente da série durante algum tempo. No entanto, voltou para o episódio de despedida e eis que os argumentistas se lembram de a voltar a juntar a Sam. Foi tão precipitado, tão repentino! Do género: estes dois estão ambos sozinhos. Não sabemos o que fazer com eles, por isso ‘bora lá juntá-los? Ainda por cima não foi Sam que passou boa parte do tempo a não querer ter mais nenhum filho (uma storyline bastante importante da sua relação com Addison) e depois Naomi descobriu que estava grávida e já não havia problema? A sério, estes argumentistas não são pagos para ter ideias? Boas ideias, de preferência? Parece que não!

Bette Porter e Tina Kennard (The L Word): Sinto tantas vezes que os casais LGBTQ+ são sabotados à custa de drama parvo! Recapitulemos: Callie e Arizona, Alex e Piper, há também Lindsay e Melanie da versão americana de Queer as Folk, e Bette e Tina, claro está. Traição? Check! Luta agressiva para decidir quem fica com a criança? Check! Se a história de Callie e Arizona atingiu níveis deploráveis em termos daquilo que pessoas que se amaram podem fazer uma à outra, com Bette e Tina as coisas conseguem ser bastante piores. Se não estou enganada, elas andavam a ter aconselhamento ou terapia de casais muito cedo na 1.ª temporada. Nada de muito problemático, mas já havia claramente questões a resolver. As coisas ficaram mesmo feias depois de Bette ter traído Tina. Há uma cena de que nunca me vou esquecer quando Tina confronta Bette em relação à traição e as coisas se tornam violentas. Há até uma parte que roça a violação, é horrivelmente desconfortável de ver. Só por aí… No entanto, a relação daria ainda muito pano para mangas – que é, como quem diz, drama. Tina decidiu esconder durante meses que estava grávida (ela e Bette tinham tentado durante algum tempo), eventualmente voltaram a ficar juntas, mas houve muitos outros problemas quando Bette ficou sem trabalho e os papéis se inverteram, com Tina a passar a ser a pessoa que sustentava a casa, depois de anos em que foi o contrário. Cada uma delas teve várias outras relações pelo meio, mas era sempre óbvio – e a tensão sexual absolutamente palpável – que tudo o que queriam era estar uma com a outra. Era obsessivo e nada saudável, principalmente se pensarmos que quando estavam juntas parecia haver tantas vezes ressentimentos e coisas para atirarem à cara uma da outra. Quando vi a série pela primeira vez torci bastante por elas, mas depois a minha opinião revelou-se muito diferente. Eram um desastre! Não nego que se amassem, mas era tudo tão exaustivamente complicado! É claro que houve períodos de acalmia em que estava tudo bem, mas sinto que o drama era demasiado e muito pesado. Não vejo The L Word: Generation Q, mas sei que Bette e Tina se divorciaram. No entanto, tanto quanto li, essa decisão parece prender-se com o facto de Laurel Holloman, a Tina, não se ter mostrado disponível para regressar ao seu papel a tempo inteiro, tendo apenas feito algumas participações especiais. Seja como for, na jornada inicial de The L Word as duas ficaram juntas, o que não deixo de sentir que envia a mensagem errada. A ficção não devia premiar relações tóxicas.

Quais são aqueles casais que sentes que não deviam ter acabado juntos?

Diana Sampaio