Livros, uma paixão tão grande como as séries! Talvez até um bocadinho maior, mas uma coisa não tira o lugar da outra. Muitos continuam a ser os bons livros que inspiram séries e já há algum tempo nos tínhamos debruçado sobre este tema, mas com o número de leituras a aumentar deste lado todos os anos, deu-se a necessidade de fazer uma nova edição da crónica. Esta é uma lista de mais sete bons livros que li em várias alturas da minha vida, a maioria muito recentemente, que adorei e que deram origem a séries (algumas que já estrearam, outras que ainda não, mas cuja luz verde já foi confirmada). A ideia não é exclusivamente fazer uma comparação entre obra literária e série, até porque não é possível nalguns casos, mas sim recomendar bons livros.

A Conspiração Contra a América (The Plot Against America), Philip Roth

De todos os livros que estão nesta lista, foi o que li mais recentemente, já em 2020. Não foi a minha primeira incursão com Philip Roth. A experiência com A Mancha Humana não foi má, mas também não me deu muita vontade de conhecer mais do autor. No entanto, A Conspiração Contra a América jogava com uma premissa interessante que me fez requisitar o livro na biblioteca. A história passa-se numa realidade alternativa na qual Roosevelt não foi eleito para um terceiro mandato enquanto Presidente dos Estados Unidos e o lugar foi ocupado por Charles A. Lindbergh, um herói da aviação com ligações aos nazis. O livro conseguiu conquistar-me desde a primeira página. No centro da trama está uma família judia da classe média cuja existência tranquila é assombrada quando o nazismo começa a ganhar expressão nos Estados Unidos. A história é subtil – os horrores inenarráveis que os judeus enfrentam por toda a Europa não se estendem até à América -, mas as pessoas vivem assustadas e sabem que as suas vidas nunca mais serão as mesmas. Uns lutam contra tudo aquilo que Lindbergh representa, mas outros são cegos e pensam que ele está apenas a manter o país fora da guerra. No entanto, penso que o verdadeiro interesse do livro reside no facto de nos mostrar que em qualquer lugar do mundo, em qualquer altura, podemos testemunhar a ascensão de um populista ou demagogo que destrói as nossas liberdades. Basta olharmos para o outro lado do oceano para vermos dois Presidentes terríveis. Só vi o primeiro episódio da série. Não desgostei, mas tem o defeito que a maioria das séries da HBO tem para mim: episódios muito longos e um andamento muito lento. Não me deu vontade de continuar, muito menos da mesma forma que o livro me tinha feito ansiar por mais. Recomendo vivamente esta leitura a quem gosta de livros com temas políticos e, sobretudo, a quem se interesse pelo fenómeno asqueroso do nazismo.

A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert (The Truth About the Harry Quebert Affair), Joël Dicker

Vi a série e li o livro com muito pouco tempo de intervalo. Aliás, se bem me recordo, acho que vi alguns episódios, depois li o livro e retomei o que me faltava da série. Sem surpresas, gostei mais do livro. A série não é nada má, vê-se bem e tem uma história interessante, com boas interpretações, mas o livro é muito mais cativante. Especialmente a primeira metade é mesmo muito boa. É do género: não vão querer largar o livro. Marcus é o narrador da sua própria história e há algo na forma como o faz que nos deixa agarrados às páginas (mas lembro-me que na série adorei também a introdução do personagem e achei-o bastante relatable). São quase 700 páginas, mas que, ainda assim, se leem rapidamente e há umas quantas partes bem engraçadas, principalmente quando o nosso protagonista fala com a mãe ao telefone. Aquela senhora é cá uma peça cómica! Curiosamente, a parte do mistério à volta do desaparecimento e morte de Nola Kellergan não é a que mais prende à leitura e consigo atribuir isso ao facto de aí a história se centrar muito mais em Harry, o mentor de Marcus, do que no jovem narrador. Na série, pelo contrário, a parte do crime revela-se o mais interessante. Apesar de livro e adaptação proporcionarem ambos bons momentos, a minha recomendação vai, essencialmente, para a obra literária. Grande extra na série são os belíssimos cenários, mas a capa do livro também é bonita, embora simples.

Mulherzinhas (Little Women), Louisa May Alcott

Apesar de adorar livros e de ler um pouco de tudo, especialmente em termos de ficção, há géneros e estilos literários de que não consigo gostar nem por nada. O género clássico é bastante popular na literatura, mas se me entregarem um livro de Jane Austen ou me pedirem para voltar a ler O Monte dos Vendavais eu vou torcer o nariz. Prefiro retirar as minhas leituras de autores do século XX ou XXI. Só há um livro anterior a essa época que posso dizer que adorei, Mulherzinhas, publicado pela primeira vez em 1868. Quando era pequena li uma versão ilustrada dirigida a miúdos mais pequenos e, não muito tempo depois, uma vizinha mais velha emprestou-me a versão original, da qual também gostei muito. É uma história que recordo sempre com muito carinho e cresci também a ver na televisão a adaptação cinematográfica protagonizada por Winona Ryder, Kirsten Dunst e Susan Sarandon. Já se passaram seguramente mais de 15 anos desde que li o livro e por isso não me lembro de grandes pormenores, mas sei que foi uma história que me agarrou às páginas e que me fez ter vontade de ter três irmãs. Foram muitas as adaptações – seja em teatro, cinema ou televisão – que esta obra originou, mas tenho a destacar a versão de Little Women de Heidi Thomas para a BBC One, em 2017, porque, tal como o filme de 1994, capta bem a essência do livro: uma história que nos aquece o coração, com uma família que se ama e pessoas boas que fazem deste mundo um lugar melhor.

Catarina de Aragão (The Constant Princess), Philippa Gregory

Este é um daqueles exemplos flagrantes em que a adaptação desilude completamente os fãs do livro. Já li cinco livros de Philippa Gregory, sendo um deles um dos poucos a que dei 5 estrelas no Goodreads, e os da saga Tudor são bastante bons. É precisamente aqui que se insere Catarina de Aragão, que nos conta a história da primeira mulher de Henrique VIII, o tirânico rei inglês que ficou famoso por mandar cortar a cabeça a duas das suas esposas e por enviar outra delas para o exílio. Catarina manteve a cabeça em cima dos ombros, mas foi afastada da corte depois de Henrique ter decidido desposar Ana Bolena. Este livro mostra-nos a parte menos conhecida da vida de Catarina, antes de se ter tornado Rainha de Inglaterra pelo casamento. A narrativa é viciante, Catarina é uma personagem muito interessante – uma das minhas favoritas da saga – e aprende-se História da forma como mais gosto: ficção misturada com elementos reais. Gosto de saber coisas novas e de aprender sobre áreas que me interessam, mas nunca fui apreciadora daqueles livros em que basicamente somos bombardeados com datas e acontecimentos. Porque esses, quando os termino, rapidamente os esqueço, já que a minha memória também não é a mais pródiga! No entanto, os livros de Philippa Gregory já me ensinaram uma batelada de informação histórica e fizeram-me querer ler outras coisas, não só ficção, sobre o reinado de Henrique VIII. Agora a série esqueçam! The Spanish Princess devia ser mais uma série histórica do que uma história de adolescentes, mas é disso mesmo que se trata. Também já tinha espreitado The White Queen e The White Princess e não tinha gostado de nenhuma delas, mas não tinha lido os livros e pensei que isso podia fazer a diferença. Até tenho medo que sigam a cronologia e façam uma adaptação de The Other Boleyn Girl, porque acho que vão arruinar Ana Bolena como fizeram aqui com Catarina.

Ferrugem Americana (American Rust), Philipp Meyer

Sinceramente, quando comecei a ler Ferrugem Americana estava à espera de algo diferente do que encontrei. Não sei bem o que era, mas tive uma surpresa muito positiva. O livro é muito bom e seria justo que daqui a uns cinquenta anos se tornasse um clássico como As Vinhas da Ira. Um tipo de clássico de que gosto e que é muito distinto dos livros de Jane Austen ou Emily Brontë. O livro passa-se numa cidade fictícia da Pensilvânia, um lugar de enorme beleza, mas onde o sonho americano foi destruído. As pessoas não têm trabalho, a classe média passa por momentos menos fáceis, as perspetivas de futuro não são muitas. No centro da trama estão dois rapazes. Um deles viu-se obrigado a tomar conta do pai com a morte da mãe e a ida da irmã para a universidade e o outro, o seu melhor amigo, é um antigo atleta de sucesso do liceu. No meio do nada, não há muito que possam esperar da vida e, portanto, decidem deixar Buell, mas pelo caminho vão viver uma série de aventuras e ver-se no meio de várias situações perigosas. Não quero revelar muito mais, mas Ferrugem Americana vale a pena ser lido. É daqueles livros raros com uma grande qualidade de escrita, mas com uma história verdadeiramente envolvente sobre a qual queremos mesmo saber o desfecho. A série está ainda por estrear. Primeiro foi encomendada pela USA Network, mas encontrou nova ‘casa’ no Showtime. Estou curiosa por ver o que virá dali.

Pequenas Grandes Mentiras (Big Little Lies), Liane Moriarty

Quando li o livro já tinha a 1.ª temporada da série como referência. Ao contrário da maioria das pessoas, não adorei a temporada. Foi uma série de que gostei, com excelentes interpretações e um cenário lindo, mas não fiquei deslumbrada. O livro é um bocadinho diferente. Melhor dizendo, a série tem algumas diferenças em relação ao livro: nomeadamente a constituição da família de Madeline, algumas características das personagens… A série tem os seus momentos engraçados, mas o livro é bem mais divertido e os capítulos são curtinhos, o que faz com que a leitura avance muito rapidamente, de forma viciante. É daqueles livros que se passa mesmo bem duas horas seguidas a ler. Gostei muito mais da 2.ª temporada de Big Little Lies do que da primeira, mas acho que série e livro estão bastante equiparados em termos de qualidade. A adaptação faz sentido porque é bem conseguida e até acrescenta algo porque a Madeline de Reese Witherspoon e a Renata de Laura Dern são absolutamente fantásticas e aquela Chloe é outra personagem que se farta de brilhar no ecrã.

Sr. Mercedes (Mr. Mercedes), Stephen King

Stephen King goza de uma fama notável, mas está longe de ser dos meus autores favoritos. Já tinha lido os dois volumes da versão portuguesa de A Cúpula, mas não achei nada de extraordinário. O primeiro até foi bom, mas a sequela ficou muito aquém das expectativas. No entanto, a sinopse de Sr. Mercedes pareceu-me bastante bem e emprestaram-me o livro. Esta é uma daquelas histórias bem empolgantes, salta-se de capítulo em capítulo com uma velocidade alucinante porque se quer saber imediatamente o que se segue. A primeira metade do livro, especialmente, é assim. A trama atinge o clímax quando ainda vai a meio e depois a coisa esmorece um pouco, mas uma vez colado à história, é garantido que não vão sossegar até acabarem. King é uma espécie de mestre do terror e da fantasia, géneros de que não sou apreciadora, mas este livro não tem essas características. Trata-se de um policial que começa muito empolgante, que mantém o interesse e com personagens sobre quem queremos realmente ler mais. Bill e Jerome são fantásticos e a relação entre os dois é também muito engraçada. Quanto ao assassino, ele é simplesmente muito louco, que é o que se quer num personagem deste género. Ainda não me deu grande vontade de ver a série porque não é bem o meu género e sei que dificilmente gostaria tanto como do livro. Talvez mais para a frente me decida a dar-lhe uma oportunidade.

Que outros livros que inspiraram séries recomendam?

Diana Sampaio