O drama é, sem dúvida, um dos maiores géneros no mundo das séries e é o meu eterno favorito. Às vezes, quando me querem sugerir algo novo para ver, dizem-me: “é deprimente”, palavras-chave para me convencer a dar uma oportunidade a uma série, porque gosto realmente de histórias que apelam às emoções. Não há nada pior do que estar a ver uma série e não sentir nenhuma ligação aos personagens, ser-nos indiferente o que acontece às mais variadas relações ou não nos preocuparmos com quem vive ou morre. Decidi então escolher dez das minhas cenas favoritas (a maioria delas retiradas de séries que me são extremamente queridas) em que o drama assume o papel principal e partilhá-las aqui convosco (os links das cenas podem ser visto através das hiperligações).

[Contém spoilers!]

Violet conforta Mary depois da morte de Matthew (04×01) – Downton Abbey: Matthew morreu há pouco tempo e Mary está a viver a perda do grande amor da sua vida logo a seguir ao nascimento do filho dos dois. Esta devia ter sido uma altura de felicidade, mas está ensombrada pelo luto. Mary nunca foi uma personagem de quem gostei particularmente, mas sempre mostrou ser uma mulher muito forte e por isso é difícil ver a forma como parece completamente destruída pela morte de Matthew. Mais do que isso, ela está entorpecida pela dor, cansada de tudo, e a verdade é que não consegue lidar com nada naquela altura da sua vida e a família não consegue ver isso. No entanto, o grande momento aqui não é o jantar, mas a conversa que a avó tem com ela. Violet não é mulher de demonstrar muitos afetos (como a própria diria, tal não seria muito britânico da sua parte), mas isso não significa que não os tem para dar ou que não é capaz de ser uma avó maravilhosa e com conselhos sábios. Acho que ouvir a avó dizer que a ama desarma um pouco Mary. É algo que ela certamente sabe, mas que não terá ouvido muitas vezes ao longo da vida. Mary precisa de saber que vai conseguir sobreviver àquilo, precisa de saber que o que tem de bom dentro dela não morreu com Matthew, que vai ser capaz de ser uma boa mãe, que ela é a responsável pelas suas próprias escolhas e Violet fá-la ver isso mesmo. Toda a cena é muito comovente, mas traz também um pouco de esperança, uma luz ao fundo do túnel que Mary não conseguia ver até ali.

Fleabag encobre o aborto de Claire (02×01) – Fleabag: Talvez esta esteja longe de ser uma cena dramática muito óbvia, mas para mim é absolutamente extraordinária. Estão todos muito divertidos a jantar; depois de ter ido à casa de banho, Claire faz de conta que não se passa nada, embora isso não pudesse estar mais longe da verdade, e Fleabag, a única naquela mesa que sabe o que acabou de acontecer à irmã, está em choque. A forma como Fleabag confessa como seu o aborto espontâneo que Claire sofreu há instantes porque esta está decidida a escondê-lo da família… O pai quer que ela vá ao hospital, mas a madrasta/madrinha mostra-se mais interessada nos pormenores suculentos, o Padre é a voz da razão e Claire está completamente à toa, dotada de uma frieza que provavelmente não sente, mas que está determinada a mostrar. Fleabag está preocupada com a irmã, mas não há realmente nada que possa fazer e assume a postura de membro da família que os outros estão habituados a ver fazer asneira. Martin comporta-se como o grande imbecil que é e a cena acaba em pancada, algo que noutra altura poderia ter sido divertido. A relação entre estas irmãs pode não ser a mais fácil, mas aquilo que Fleabag fez foi uma grande prova de amor por Claire, ao escudá-la de uma situação com a qual ela não se sentia preparada para lidar e muito menos para admitir em frente ao resto da família. Phoebe Waller-Bridge foi fantástica ao longo de toda a série, mas esta cena não podia ser mais perfeita.

As mulheres do Grey Sloan Memorial Hospital unem-se para apoiar uma vítima de agressão sexual (15×19) – Grey’s Anatomy: É ao som da brilhante Lost Without You de Freya Ridings que a melhor cena destes 15 anos de Grey’s Anatomy nos chega. Num episódio todo ele centrado na temática da violação, a forma como as médicas, em especial Jo, trataram de Abby devia ser a regra para qualquer caso destes: medicina aliada a um grande sentido de humanidade que faz os sobreviventes de agressão sexual sentirem-se o mais seguros possível. No entanto, a melhor parte ainda estava para vir! Vemos as mulheres que trabalham no hospital a juntarem-se no corredor, a pedido de Jo. A maioria não sabe aquilo que Abby passou, mas percebem que são parte de algo muito importante. Quanto à cena em si, não é possível dizer mais nada que não seja simplesmente: vejam (e com um pacote de lenços por perto)! No entanto, vale a pena conhecer a história por detrás deste episódio e desta cena em especial. A showrunner da série, Krista Vernoff, sentiu-se inspirada a escrever um episódio sobre consentimento e violação depois de ter visto o testemunho de Christine Blasey Ford contra Brett Kavanaugh, que estava prestes a ser nomeado juiz do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, apesar das acusações de agressão sexual que pairavam sobre ele. A ABC terá mostrado algumas reservas em relação ao episódio – apesar da sua ausência de conotações políticas – da forma como fora planeado, mas Shonda Rhimes, a criadora da série, lutou para que a visão criativa de Krista prevalecesse. Conseguiu e o interesse pelo episódio quando o guião foi publicado revelou-se enorme, com pessoas a pedirem para fazerem parte da cena no corredor. As mulheres que ali vemos são trabalhadoras da ABC, assistentes da Shondaland, argumentistas da série e não apenas atrizes. Kavanaugh conquistou o seu lugar no Supremo Tribunal, tal como Clarence Thomas há cerca de 30 anos, apesar das acusações de assédio sexual feitas por Anita Hill, mas histórias como esta de Grey’s Anatomy fazem a diferença e a prova disso é que nas 48 horas seguintes à emissão do episódio, a RAINN, linha de apoio às vítimas de agressão sexual, recebeu um aumento de 43% no número de chamadas. Silent All These Years é a lembrança de que o silêncio das vítimas já não é a arma destes agressores sexuais!

A discussão entre Elena e Izzy (01×08) – Little Fires Everywhere: O problema nas séries costuma ser, frequentemente, os adolescentes, mas aqui é Elena, a mãe, quem ultrapassa os limites. A relação entre ela e a filha mais nova, Izzy, nunca foi fácil. Do lado oposto, Lexi é uma filha à sua imagem, Trip também é aquilo que se espera dele e Moody é um bom menino que não causa problemas. Ou pelo menos é o que parece, porque nenhum deles é o retrato da perfeição. No entanto, Izzy e Elena sempre chocaram imenso, mas não daquela maneira típica entre adolescente e mãe, é muito pior do que isso. Elena não consegue aceitar Izzy da forma como ela é e nunca se esforçou por compreendê-la. Então a filha percebeu que contrariar a mãe lhe dava um certo gozo. Só que quando Mia entrou nas suas vidas, Izzie sentiu uma ligação com ela como nunca teve com a própria mãe e, mais do que qualquer coisa, isso feriu o orgulho de Elena. Reparem, quando Izzy diz que queria uma mãe que realmente a amasse, Elena não lhe diz que a ama, escolhe contra-atacar e dizer que não queria uma filha como ela, que nem a tinha desejado, mas Izzy não tem culpa de que, quando nasceu, Elena já estivesse desesperada com outros três bebés para criar. O choque na cara dos irmãos de Izzy… Elena apercebe-se imediatamente da gravidade do que disse, como se vê pela sua expressão, mas em nenhum momento age como a adulta que é. Nem sequer tenta resolver as coisas indo atrás da filha, deixa-a simplesmente ir, uma miúda de 14 anos. Acho que nenhuma relação sobrevive a um acontecimento como este. O que vai ser daquela miúda agora? Para onde é que ela foi? Quem vai cuidar dela? Elena é a verdadeira prova de que o maior disparate que um pai pode fazer é exigir que um filho seja algo que não é.

 

Regina apercebe-se de que não há verdadeira redenção para ela (05×22) – Once Upon a Time: Todos têm coisas do passado que gostavam de apagar ou de esquecer, mas a bagagem de Regina é gigantesca porque já foi o tipo de vilã dos contos de fadas de que os miúdos têm medo (vou contar-vos um segredo: em pequena, a Rainha Má assustava-me!). Pode ter percorrido um longo caminho desde os seus tempos enquanto Evil Queen, mas os crimes que cometeu são difíceis de deixar para trás. Esta dualidade da nova pessoa que procura expiar o mal que fez e da que cometeu esses crimes atrozes é particularmente interessante ao longo da série e exige um grande equilíbrio: a capacidade de Regina aceitar que aquelas coisas fazem parte do passado dela, mas que não têm que definir aquilo que é agora ou que vai ser no futuro. No entanto, quando os seus erros continuam a atormentá-la e parece que por muito que se esforce nunca consegue chegar a um momento da sua vida em que as coisas correm realmente bem, a tarefa torna-se hercúlea. E a sedução do mal está precisamente aí: é mais fácil ser a pessoa que faz a vida de todos num inferno do que viver no seu próprio inferno pessoal. A grande diferença é que, agora, Regina não tem de travar sozinha nenhuma luta. Tem Henry, Emma, os Charming, Zelena. Mas este wake up call por parte da personagem é, na verdade, muito positivo. Esta consciencialização da luta que tem de travar com ela mesma é essencial para iniciar o processo de transformação de Regina na Good Queen que vemos finalizado no último episódio da série.

Brooke perdoa Julian pelo que aconteceu ao bebé deles (09×04) – One Tree Hill: As desgraças acontecem, mas quando pela nossa condição falível de seres humanos somos responsáveis por elas, a questão torna-se muito mais complexa. Julian saiu com o filho bebé no carro, até que um telefonema o despertou para o facto de que se tinha esquecido disso. O tempo estava quente e o pequeno Davis podia ter morrido. Como seria de esperar, Julian ficou assoberbado pela culpa, uma culpa que Brooke também não conseguiu deixar de lhe atribuir. Como é que se ultrapassa uma coisa destas? Não sei, mas… Se ele já se sente assim, para quê atirar-lhe mais um peso para cima? E não consigo deixar de pensar que se isto tivesse acontecido a Brooke, Julian ter-se-ia certificado que ela sabia que a perdoava e que ia ficar tudo bem. É precisamente deste perdão por parte dela que Julian precisava para também ele começar a sarar.

Dois meninos pequenos enfrentam sozinhos o seu futuro em tribunal (07×11) – Orange Is the New Black: Quem acompanha as notícias internacionais está ciente das polémicas políticas de Trump face à imigração, mas por muito triste que seja a realidade, as histórias individuais perdem-se no meio dos números. O tom para a cena começa a ser mostrado com o insensível agente do ICE (Immigration and Customs Enforcement) e depois com a bebé, acompanhada por alguém do Estado que está responsável por ela, a chorar. No entanto, os motivos para os espectadores chorarem vêm logo a seguir. Olhem para aquelas crianças! A menina não tem sequer seis anos, o menino não terá quatro, e aquela juíza pergunta-lhes se têm advogado. Eles não têm idade para saber o que é um, muito menos para compreender aquilo que lhes está a acontecer. A menina a perguntar se pode usar a casa de banho dá cabo de mim! Como é que estas coisas acontecem, seja onde for, em pleno século XXI? Onde estão os pais/familiares daqueles meninos? Deportados para os países de origem? Como é que aquelas crianças estão ali sem ninguém que represente os seus direitos? Se ficarem nos Estados Unidos ficarão à guarda do Estado até serem maiores de idade? Se forem mandadas embora estarão de volta a um país de onde precisaram de sair, por algum motivo. Aconteça o que acontecer, não parece que haja um final feliz à sua espera. Nem todos temos a sorte de nascer num país em que estamos seguros e no qual podemos ter uma vida boa, mas porque é que aqueles de nós que a tiveram não compreendem a necessidade de os outros procurarem precisamente isso para eles? 

Blanca conta aos filhos que tem SIDA (02×02) – Pose: Numa altura em que a SIDA é uma verdadeira epidemia a dizimar as vidas de tantas pessoas, ainda há muito quem seja descuidado. Blanca está ciente de que os seus filhos talvez não sejam os mais responsáveis e, por isso, decide dar-lhes uma pequena aula de educação sexual. No entanto, a verdadeira aula é o que se segue: que estão em desvantagem no mundo por pertencerem a minorias (em termos de tom da pele, de orientação sexual e de identidade de género) e que isso pode levá-los a procurar amor de forma irresponsável, mas se morrerem, o resto do mundo não se importaria. Blanca partilha a sua própria experiência e, finalmente, revela a Damon, Ricky e Papi que também ela tem SIDA. Numa altura em que esse diagnóstico era uma sentença de morte, o peso da revelação de Blanca é indescritível. Ela é esta mulher extraordinária que amou miúdos que os próprios pais escorraçaram de casa e o mundo é um lugar melhor por ela existir e por isso é tão difícil de imaginar que um dia, provavelmente não tão longínquo quanto isso, não estará lá para se certificar de que continuam no caminho certo. No entanto, a marca de Blanca neste mundo foi deixada nestes miúdos. Não só pelo amor dela por eles, mas deles por ela. A reação de Papi e a promessa que faz de que vai cuidar dela é uma das coisas mais puras que me lembro de ver em televisão!

Adora humilha Camille à frente de Amma (01×05) – Sharp Objects: Não estou a imaginar alguém mais perfeito do que Amy Adams para o papel de Camille e são cenas como esta que o provam. O desespero de Camille ao perceber que as suas roupas desapareceram é pungente. Ela sabe que Adora, a mãe (a pior mãe de sempre), tem prazer em humilhá-la, mas isto é um new low, até para uma mulher destas. Sim, porque forçar a filha, que ela sabe perfeitamente que tem o corpo todo mutilado, a mostrar-se quase despida à frente da irmã mais nova é absolutamente execrável. Camille não quer que a irmã veja aquilo, não quer ter de mostrar o que procura sempre esconder com mangas compridas. Amma fica sem fala e, por uma vez, Adora também, mas logo se recompõe para dizer que é pior do que se lembrava. A dor de Camille está incrivelmente bem retratada na sua expressão, na sua voz, na vulnerabilidade do seu corpo exposto. Como é que Adora consegue preocupar-se com o corpo ‘arruinado’ da filha quando a dor em que estava mergulhada para fazer aquilo a ela mesma é tudo o que importa? Uma dor que ela própria causou a Camille? Aquele grito no final da cena é qualquer coisa!

June ataca Serena (03×09) – The Handmaid’s Tale: Ao longo da série, Elisabeth Moss já provou que não precisa de falas para ser absolutamente extraordinária. A cara de June, em especial os seus olhos, dizem-nos tudo o que precisamos de saber em muitos momentos. Este é um deles, mas também não quereria perder, por nada deste mundo, as palavras dela. Acho que, qualquer um de nós, no lugar dela, teria vontade de esfaquear alguém. E eis que entra Serena. A sério, esta mulher está em todo o lado! Não como um Deus omnipresente, mas como uma praga. Esta cena é fabulosa, mas assusta-me um bocado. Quando a vi pela primeira vez, pensei que June estivesse a perder a sanidade mental. Algo que é justo dizer que vale muito pouco num mundo louco como Gilead, mas… Não sei, consegui identificar-me perfeitamente com aquilo que Serena disse acerca de pensar que June era “uma das fortes”. Por outro lado, compreendo que seja impossível uma pessoa passar por aquilo que June já enfrentou sem quebrar, nem que seja um pouco. E, para todos os efeitos, Serena é uma espécie de materialização do inferno que Gilead representa e uma enorme nuvem negra na vida de June. Este é o culminar de anos de violência sexual, de ausência de liberdade, de privação daqueles que ama. June está completamente desesperada, por isso tem que fazer algo que lhe permita sentir que ainda tem algum controlo sobre aquilo que lhe acontece.

E tu, também és fã de drama? Partilha connosco algumas das tuas cenas dramáticas favoritas!

Diana Sampaio