Depois de na semana passada termos dedicado um artigo às narrativas trans nas séries, hoje continuamos a homenagear o Pride Month dando atenção a outras letras da comunidade LGBTQ+. Possivelmente não de todas, porque são cada vez mais e nem sempre acabam por ter representação nas séries, mas também porque não queremos estar a repetir muito abordagens que já fizemos numa crónica anterior relacionada com este tema.

“Tenho estado a pensar sobre a minha vida e em todos os erros que cometi. Aqueles que guardo comigo, aqueles de que me arrependo, são aqueles que cometi por medo. Durante muito tempo, tive medo de ser quem sou porque fui ensinada pelos meus pais que há algo de errado com alguém como eu. Algo ofensivo, algo que se devia evitar, talvez até de que ter pena. Algo que nunca se podia amar. A minha mãe é uma fã de São Tomás de Aquino. Ela chama ao orgulho um pecado. E de todos os pecados, venial ou mortal, São Tomás vê o orgulho como rainha dos sete mortais. Via-o como o derradeiro pecado de acesso que te tornaria rapidamente num pecador. Mas odiar não está nessa lista. Nem está a vergonha”. – Nomi Marks, Sense8

Há muito de verdadeiro nestas palavras de Nomi. É claro que o ódio se pode enquadrar no pecado da ira, mas não é essa a questão. Devemos ter orgulho, e não vergonha, daquilo que somos. Devemos ver as outras pessoas como iguais, independentemente da orientação sexual, da identidade de género ou qualquer outra coisa. O ódio não foi nunca, nem é, a resposta. A resposta é o respeito e a empatia, coisas que algumas séries se têm preocupado em transmitir. É precisamente de algumas dessas narrativas que vamos falar a seguir.

Acho que todos conhecemos o historial de discriminação que a homossexualidade gerou (e continua a gerar) e não precisamos de ir muito longe nem de recuar muito no tempo para pegar num exemplo concreto. Em Inglaterra e no País de Gales só em 1967 foram descriminalizados os atos sexuais entre homens, embora isso estivesse longe de significar uma liberdade total. A minissérie britânica Man In An Orange Shirt, decorrida em parte nos anos 40, traduziu muito bem para a ficção essa impossibilidade de dois homens se amarem de outra forma que não às escondidas. Por sua vez, a série Call the Midwife, da BBC, passada nos anos 50/60, dá-nos a conhecer a história de amor entre duas enfermeiras parteiras. A relação também teve de ser vivida em segredo, mas sem o risco de poderem ser presas por isso, visto que a homossexualidade feminina nunca foi punível por lei no Reino Unido. Nesse sentido, recentemente Grey’s Anatomy também nos mostrou uma dicotomia interessante entre a forma como a homossexualidade era encarada no passado e no presente. Nesta temporada ficámos a conhecer melhor Levi Schmitt e a relação próxima que tinha com um tio, que viemos também a descobrir ser gay. Levi tem a liberdade de viver a sua vida às claras, sem ter que se esconder, coisa que o tio nunca pôde. Não nos podemos esquecer que os avanços civilizacionais, seja em que questão for, significam que muitos não tiveram a mesma sorte e que precisaram de lutar por aquilo que muitos de nós dão como adquirido.

Embora não saibamos em que ano se passa The Handmaid’s Tale, podemos perceber que se trata da atualidade, se bem que Gilead se assemelhe em tantas coisas à Idade Média. Lá, as pessoas homossexuais são consideradas “traidores de género (gender traitors)” e a punição é a morte. A não ser que se trate de uma handmaid. Que Deus livre aqueles fanáticos de matarem uma mulher fértil quando podem simplesmente mutilá-la enquanto continuam a fazer uso dela para procriarem! Só por isso é que Emily evitou a morte, destino a que não conseguiu escapar a Martha com quem ela foi encontrada. Até nisto Gilead demonstra a sua extrema hipocrisia. Legisla um crime de uma determinada forma, mas para servir os seus próprios propósitos cria exceções. A homossexualidade é crime e a desigualdade é lei! Se a estupidez matasse é garantido que não havia um único manda-chuva de Gilead vivo!

Independentemente da nossa opinião sobre guerras ou a existência de forças militares, a verdade é que esta é uma realidade presente em muitos países, apesar de existirem diferenças distintas entre eles. Devido à forte presença militar nos Estados Unidos da América, é normal que este seja um tema bastante abordado nas séries. É o caso de The Night Shift, um drama médico que decorre no Texas e acompanha um grupo de médicos do exército que trabalham no turno noturno de um hospital. No início da série, Drew esconde ser homossexual em grande parte devido ao estigma que existe no exército relativamente à comunidade LGBTQ+, ainda por cima num estado tão conservador como o Texas. Drew acaba por se assumir quando o seu companheiro Rick, um ex-comandante do exército, dá entrada no hospital depois de sofrer um grave acidente. Ao longo da série, Drew e Rick casam-se e adotam uma menina, com o apoio total dos amigos e até dos pais de Drew, que inicialmente não aceitam a sua orientação sexual. Ainda dentro deste tema, é também de destacar Batwoman, que também é bem sucedida a retratar uma situação de preconceito no exército americano, quando Kate é expulsa da academia militar simplesmente pelo facto de ser lésbica.

Apesar de ser uma comédia, o reboot de One Day at a Time também não deixa de conter temas atuais relevantes. A série foca-se numa família cubana nos E.U. A., composta por uma enfermeira divorciada, dois filhos adolescentes e a avó. Quando a filha mais velha ganha coragem de se assumir como lésbica, Elena recebe o apoio imediato da mãe e do irmão, ao contrário do pai, que deixa de falar com ela. No entanto, a parte mais interessante desta história é ver o percurso de aceitação da parte da avó, que naturalmente nasceu noutra época e tem perspetivas diferentes sobre o assunto, mas mesmo assim encontra uma forma de demonstrar o seu amor pela neta.

No entanto, se hoje, no geral, nos países ocidentais há a liberdade para sermos aquilo que quisermos e para estarmos com quem escolhemos, nem sempre é fácil as pessoas aceitarem-se a elas mesmas. Em março, a Netflix lançou Feel Good, uma série original do britânico Channel 4. Aí, George, uma jovem a viver a sua primeira relação homossexual, esconde a namorada de todos. George vive num país onde pode ser abertamente lésbica, mas não consegue abrir-se com a família nem com os amigos e dizer-lhes que a pessoa com quem está é outra mulher. Podemos especular se se trata de vergonha, de medo da reação dos outros ou se são dificuldades da própria em lidar com a sua sexualidade, mas é a prova de que mesmo que a sociedade esteja mais tolerante, isso só por si não faz com que as coisas sejam fáceis.

Tal como George, Will, de Nashville, também tem bastante dificuldade em assumir-se, mas por um motivo diferente. Will é um cantor famoso e bastante cobiçado por fãs do sexo feminino e é persuadido a não revelar que é homossexual de forma a não perder fãs nos espetáculos e baixar as vendas dos seus álbuns. Will chega até a casar-se com outra cantora para manter as aparências. Claro que tudo isto tem um desfecho desfavorável quando Will entra numa depressão profunda e tenta o suicídio como escapatória. Esta situação é ainda mais dramática se tivermos em conta que, na realidade, a maior taxa de tentativas de suicídio nos E.U.A. é precisamente em jovens LGBTQ+.

Através de Chris Carmack, mas não com ele, fazemos nova transição para um caso médico – que se tornou muito mais do que isso – de Grey’s Anatomy. Na 15.ª temporada, o drama apresentou-nos Toby Donnelly, paciente do Grey Sloan Memorial Hospital. Toby é non-binary, ou seja, não se identifica com o género feminino ou masculino. Isso significa que nos devemos dirigir a Toby – e a outras pessoas na mesma situação – por pronomes neutros e não usando palavras como ele ou ela. A representatividade de pessoas non-binary nas séries ainda é ínfima, mas aos poucos esperamos que vá aumentando. Nesse sentido, Billions chegou-se à frente, a partir da 3.ª temporada, com a primeira personagem principal non-binary da televisão norte-americana, interpretada por Asia Kate Dillon, também non-binary.

Por sua vez, em AJ and the Queen temos um protagonista, interpretado por RuPaul, que ganha a vida como drag queen. RuPaul é provavelmente uma das drag queens mais conhecidas de sempre e a série leva-nos a conhecer um pouco desse mundo, que é muito mais do que perucas, maquilhagem, roupas vistosas e espetáculos. Importa ressalvar que apesar do que muitos possam pensar, a cultura drag não tem nada a ver com identidade de género. Há pessoas de todos os géneros e orientações sexuais a fazerem este tipo de espetáculos. Robert, o personagem principal da série, é um homem gay e há precisamente um episódio em que está à conversa com AJ, a sua companheira de viagem de dez anos de idade, e esta pergunta-lhe se ele quer ser uma rapariga e a resposta dele é não. Ser drag queen é uma parte muito importante da vida de Robert, mas não é o que o define. A série levanta ainda outra questão interessante acerca de discriminação quando um grupo decide manifestar-se contra drag queens. Gente, manifestem-se antes contra o vosso presidente, que é uma ideia melhor!

Para terminar, não podíamos deixar de mencionar The Bold Type. A série aborda temas bastante importantes, em especial na forma como representa o feminismo. É aqui que conhecemos Kat, a responsável pelas redes sociais de uma revista feminina. Depois de várias relações falhadas com homens, Kat questiona a sua sexualidade quando conhece Adena. Kat e Adena iniciam uma relação e namoram por uns tempos, ao mesmo tempo que Kat começa a pensar que é lésbica. Contudo, tudo muda quando Adena termina a relação por achar que Kat deve ter experiências com outras mulheres e isto acaba por fazer com que Kat perceba que realmente é bissexual. A série consegue explorar um ponto importante ao mostrar que também pode existir uma visão negativa dentro da comunidade LGBTQ+, ao vermos Adina a não aceitar que Kat possa ser bissexual e encarando o facto quase como uma ofensa. De destacar igualmente neste aspeto a série Vida, que mostra bastante bem o conflito que existe entre uma geração mais velha de mulheres lésbicas (mais antiquada) e uma geração mais jovem e moderna, que inclui um vocabulário muito mais extenso para se identificar.

As séries têm desempenhado o seu papel a mostrar-nos as lutas, as dificuldades, mas também vitórias e felicidades da comunidade LGBTQ+ e esperamos que continue a fazê-lo e a ajudar mais pessoas a abrirem as suas mentalidades e corações em relação àquilo que não conhecem tão bem.

Ana Velosa e Diana Sampaio