Quando se fala de séries, todos nós temos algumas de que nos lembramos logo e aquelas que recomendamos sempre a todas as pessoas, mas raramente falamos do primeiro episódio. Aliás, quando o fazemos costumamos dizer que a série melhora à medida dos episódios e para não desistirem logo ao início e darem uma oportunidade real à série, porque ela fica mesmo boa com o tempo. Porém, existem aquelas que nos agarram logo e cujo primeiro episódio chega e sobra para nos convencer de que podemos ter pela frente uma grande série.

O que vos trazemos aqui são aqueles primeiros episódios que nos marcaram de uma maneira especial por terem uma qualidade elevada e porque foram a melhor porta de abertura para aquela série.

[Contém spoilers]

American Crime Story: The People v. O.J. Simpson: Não sei como é que aqueles que eram adultos em 1995 e acompanharam o verdadeiro julgamento encararam esta série. Eu tinha 4/5 anos e mesmo que fosse mais velha duvido que me lembrasse de grande coisa, porque de certeza que o impacto do julgamento na Europa, e mais concretamente aqui em Portugal, foi imensamente menor. Assim sendo, parti para esta série basicamente sem saber nada acerca do que acontecera, mas uau! Este é um daqueles pilotos verdadeiramente sólidos, onde nos são apresentados os crimes ocorridos, um suspeito principal e potenciais motivos para os homicídios. Lembro-me de ter achado desde o início que O.J. Simpson era culpado. Foi apenas um palpite baseado na forma como ele reagiu, mas também pelo historial de violência doméstica. No entanto, é claro que a história ainda estava a começar e muito havia por contar, mas a base para uma excelente temporada estava lançada, com um grande argumento, um grande trabalho de realização e, sobretudo, um elenco fantástico, com um destaque especial para Sarah Paulson. Só não fiquei muito convencida com a escolha de Cuba Gooding Jr., mas nada é perfeito. A fuga de O.J. só ajudou a cimentar a minha opinião sobre a sua culpabilidade e deixou-me a censurar a ineficácia – incompetência, até – da polícia. No entanto, tudo o que este episódio nos apresentou prometeu que teríamos uma temporada recheada de temas relevantes: racismo, violência doméstica, a questão da fama e o quanto somos influenciados pela forma como os media nos apresentam os acontecimentos e as pessoas envolvidas. Estavam lançados os dados para uma excelente continuação.

Grace and Frankie: Já falámos desta série aqui, mas nunca do seu piloto. Recentemente, por necessidade e também por falta de uma comédia – e aqui diga-se, de passagem, no seu sentido mais positivo -, regressei a esta série e estou de momento a revê-la ao final da noite. Portanto, o primeiro episódio é provavelmente aquele que tenho mais fresco na cabeça de momento. Neste episódio, como em muitos primeiros, conhecemos as personagens e a história principal, que é a de duas ex-inimigas que se juntam após o fim dos seus casamentos, quando os respetivos maridos se apaixonam um pelo outro. No início percebemos que Grace e Frankie são “amigas” mais por necessidade do que outra coisa. Os maridos são melhores amigos (pelo menos era o que elas achavam) e parceiros de negócio, então elas estão juntas apenas quando há eventos e reuniões de amigos. No entanto, após o anúncio de que as vão deixar, estas mulheres fogem para a casa de praia que compraram em conjunto e logo se percebe que são incompatíveis, ou pelo menos acham elas. Neste episódio vemos uma amizade dentro desta aparente cordialidade a desenvolver-se e percebemos bem o teor daquilo por que estão a passar e que se calhar é mais fácil se o fizerem juntas.

Killing EveTinha grandes expectativas para esta série e sei que normalmente isso não corre bem, mas não foi este o caso. Killing Eve tem arrecadado prémio atrás de prémio e desde que estreou em 2018 faz parte dos tops do ano da maioria dos sites. No piloto vemos uma agente do MI5, Eve, que tem o sonho de ser espia, porém que não passa mesmo de um sonho, visto que a maioria do seu trabalho é de secretária. Do outro lado da barricada vemos  Villanelle,  que é uma psicopata e assassina em série que mata pessoas a pedido, por várias cidades europeias, e que deixa pouco ou nenhum rasto. As duas acabam por se cruzar quando a assassina tem um novo trabalho em Londres numa casa de banho de um hospital, onde se encontra a namorada de um político que morreu e que supostamente deveria ter morrido também. Eve não devia ter ido ao local porque supostamente o caso estava resolvido, acabando mesmo por ser acusada pelo seu chefe de ter causado as mortes. Porém, uma das suas chefes pede-lhe que continue a trabalhar no caso, porque acha que há mais por detrás. Com este episódio conseguimos ver que se vai desenvolver uma relação interessante entre a agente e a assassina e ficamos com uma imensa vontade de descobrir mais. Nem que seja para perceber se o nome da série é para ser levado à letra!

Le Bazar de la Charité: O piloto mais recente desta lista e aquele que está também mais fresco na memória. É garantido que os quase 50 minutos de episódio vão passar a voar e que não vão olhar para o telemóvel uma única vez. Sabem aquela sensação de apreensão quando se está a ver uma série de que se gosta muito e algo está a correr muito mal, com hipóteses de ficar ainda pior, e se sentem a ficar com os nervos à flor da pele? É exatamente esse sentimento que este piloto transmite. Tem um impacto fenomenal ao conseguir afetar-nos de um modo completamente raro numa série que acabámos de conhecer. As pessoas a correrem, aflitas, na direção da porta para fugirem das chamas, umas quantas que não tiveram a sorte de conseguir escapar e foram espezinhadas por outras, as muitas que se viram rodeadas pelas chamas e não puderam fazer mais nada que não esperar o terrível destino que as esperava… Depois, quando a morte parecia inevitável, houve quem, do lado de fora, não conseguisse ficar sem fazer nada. É um episódio extremamente emocionante que não deixa ninguém indiferente e que faz na perfeição aquilo que qualquer piloto devia ser capaz: deixar-nos ansiosos por mais! Destaque ainda para o facto de esta série se inspirar em acontecimentos reais.

Prison Break: O que é que estariam dispostos a fazer se um ente querido fosse condenado à pena de morte por um crime que não cometeu? Michael está disposto a tudo para salvar a vida do irmão mais velho, Lincoln. O que é tudo? Cometer um assalto, ir cumprir a pena para a prisão de segurança máxima onde o irmão está e tirá-lo de lá com um plano incrivelmente bem estudado que incluiu tatuar uma grande parte do corpo com o plano de fuga. Prison Break é uma série onde está sempre alguma coisa a acontecer e o ritmo deste episódio é bem acelerado, com o plano de Michael a ser posto em andamento. Tudo foi programado ao milímetro – embora se não fosse uma série muita coisa pudesse correr mal, nomeadamente Michael não ter conseguido ser colocado na mesma prisão de Lincoln. No entanto, não vão pensar nisso quando estiverem a ver este piloto, não vão ter tempo, porque não vão conseguir desviar a atenção. O episódio apresenta-nos também a uma série de personagens que vão ser importantes para a fuga da prisão e dá-nos aquele ‘cheirinho’ de conspiração política quando nos é dado a saber que Lincoln terá sido incriminado pela morte do irmão da Vice-Presidente dos Estados Unidos.

The Astronaut Wives Club: Numa altura em que andava a tentar arranjar uma nova série para ver e não conseguia encontrar nada que me fizesse ir além do primeiro episódio, The Astronaut Wives Club pareceu-me caída do céu. Vi o piloto e pensei para mim: era mesmo disto que andava à procura. Sou uma fã assumida de séries com protagonistas femininas fortes e onde a ligação entre essas personagens tem um grande destaque na narrativa. Aqui temos sete mulheres cujas vidas colidem por serem todas casadas com os astronautas que a NASA contratou com o objetivo de chegarem à lua. Mais ninguém para além delas, pelo menos naquela fase da corrida espacial, sabe o que é a excitação, mas também o medo, de verem os maridos fazerem algo que mais ninguém fez e que lhes pode custar a vida. São todas muito diferentes, mas esta experiência revela-se tudo aquilo de precisam para formarem um verdadeiro laço de amizade desde o início. É esta amizade e esta panóplia de personagens cativantes que a série nos ‘vende’ neste piloto e muito bem. Faz-nos ter vontade de fazer parte de algo assim. Não a parte de ser esposa, não a parte da ida à lua, mas sim a daquele companheirismo e partilha com pessoas que entendem aquilo que estamos a passar.

The Handmaid’s Tale: Esta tornou-se uma das mais aclamadas séries dos últimos anos, mas nem sempre as melhores apresentam os pilotos mais bem conseguidos da televisão. The Handmaid’s Tale não podia ter estreado de forma mais épica. Não somos bombardeados com informação que ainda nem somos bem capazes de processar, mas é-nos dado a conhecer o suficiente para percebermos que ocorreu um golpe político que trouxe para o poder uns fanáticos religiosos que fazem das mulheres férteis escravas sexuais dos casais poderosos para lhes darem filhos. No ano a seguir à inesperada eleição de Trump, uma série que aborda temas políticos e a violação de direitos humanos fundamentais não podia vir em melhor altura. The Handmaid’s Tale traz-nos isso na dose certa para aguçar o apetite, mas não em demasia, o que nos faz querer descobrir como é que tudo realmente aconteceu e como funciona, na íntegra, esta sociedade completamente distópica que dá pelo nome de Gilead. O ambiente escuro e sufocante da casa dos Waterford transmite na perfeição a opressão vigente e Elisabeth Moss dá tudo na sua interpretação de Offred e narradora da série. É uma série que, desde o início, promete as emoções fortes que se exigem num drama de qualidade.

The Morning ShowComo estudante de jornalismo fico sempre entusiasmado quando sai uma série nova que de uma maneira ou de outra aborde este tema (ainda que nenhuma bata The Newsroom da HBO). Juntem-lhe uma das minhas atrizes preferidas, Jennifer Anniston, e um elenco de luxo ao qual pertence Steve Carrell e temos o caldo entornado, mas no bom sentido! The Morning Show foi a grande aposta para a entrada da Apple no mundo do streaming e parece-me que foi uma escolha mais do que acertada. O piloto é, provavelmente, um dos que gostei mais de todas as séries que já vi (e que são muitas! De acordo com o TV Time já gastei mais de 4 meses a ver séries). O primeiro episódio tem de tudo. É atual, visto que começa com um escândalo sexual (como infelizmente acontece muito nos dias de hoje) e traz-nos o confronto de dois mundos. Para a realidade portuguesa pode não parecer tecnicamente jornalismo, mas para os americanos este é um dos exemplos. The Morning Show representa todos os programas da manhã que existem nos Estados Unidos da América e satiriza-os sem exagerar. Depois, mostra-nos o por detrás das câmaras e que o que passa para o lado de cá não é necessariamente o que acontece no estúdio. Vemos dois lados opostos neste episódio. Por um lado, Alex Levy (Jennifer Anniston) é como se fosse o establishment do jornalismo e está no ar há mais tempo do que muitos algum dia esperam manter-se. Do outro, está Bradley Jackson, que defende a notícia acima de tudo e que o jornalismo serve para educar, além de informar. Com este episódio ficamos com a ideia de que nem tudo o que parece realmente é e o que se passou com Mitch, ex-apresentador, pode ter sido mais incoberto do que aparenta à primeira vista. O programa é líder de audiências, mas tem de se adaptar aos novos tempos. Para isso, precisam de Bradley Jackson, mas cedo se percebe que esta relação não vai ser assim tão fácil.

The Walking Dead: Para quem gosta de cenários apocalípticos em que se impõe a luta pela sobrevivência, The Walking Dead é imperdível, pelo menos nas primeiras temporadas. A série ofereceu-nos o melhor de si no início, com um piloto inesquecível. Imaginem acordar sozinhos num hospital que rapidamente descobrem estar abandonado, bem como a cidade inteira, como têm a oportunidade de ver pouco depois, e não serem capazes de encontrar a vossa família, desconhecendo se está viva ou morta. É isso mesmo que acontece com Rick, para quem os sustos não ficam por aí. Ao encontrar um pai e filho, é posto ao corrente daquilo que se está a passar: as criaturas que ele viu são mortos-vivos que só é possível matar com um tiro (ou outro tipo de lesão) na cabeça. O mundo como o conhecemos acabou, mas não sabemos qual foi a causa. Existe a esperança de que o Centro de Controlo de Doenças esteja a trabalhar numa cura, mas não se sabe com certezas. Alguns flashbacks mostram-nos um pouco da vida anterior de Rick e, novamente no presente, ficamos a saber que a família dele está viva, na companhia de um grupo de sobreviventes, entre os quais se encontra o colega e amigo de Rick dos tempos do Departamento do Xerife. O episódio revela-nos o suficiente sobre o que está a acontecer para percebermos o que os personagens terão que enfrentar, mas não nos dá nenhumas respostas acerca do que causou este apocalipse, o que é empolgante. Repleto de ação, este piloto traz-nos um género que, na altura, ainda estava longe de ser abundante em televisão. Estrada, tiros, criaturas nojentas, sobrevivência: o que se pode pedir mais?

TimelessViajar no tempo pode ser um cliché. Para muitos é um escape à realidade, como muitas séries. E, para mim, foi exatamente isso.  Timeless traz-nos três improváveis heróis que vão viajar através do tempo para perseguirem Flynn, um criminoso que roubou uma avançada nave capaz de viajar no tempo. Pouco se sabe neste episódio e acho que isso é que o faz estar nesta crónica. Apenas se sabe que Flynn tenta alterar a História, sobretudo a americana. O episódio deixa-nos com curiosidade de descobrir mais e perceber o porquê desta intenção de alterar o passado, além de nos dar a perceber o impacto que isso vai ter nas personagens e na vida, em geral. O piloto não é o melhor que esta série nos traz, mas não deixa de ser uma excelente entrada para este universo, que infelizmente acabou mais cedo do que devia. Contudo, ainda bem que conseguimos ter um final decente para esta história que merecia, sem dúvida, ser muito mais explorada do que foi na realidade.

Diana Sampaio e Diogo Alvo