É verdade que a Comic Con Portugal 2019 já foi há uns bons tempos, mas como estamos a passar uma fase conturbada e precisamos de distrações, abaixo segue uma crónica, sob o meu ponto de vista, do último dia da edição mais recente do evento. Para quem não esteve lá neste dia específico ou nunca foi a uma Comic Con, acreditem que costuma ser bem diferente do que aqui está relatado. Várias coisas falharam e creio que este ano já se irão registar melhorias. Afinal de contas é com os erros que se aprende.

Era o início do último dia da Comic Con Portugal 2019 e o entusiasmo estava no ar. Millie Bobby Brown, a protagonista de Stranger Things, era a grande confirmação para encerrar mais uma edição do maior evento de cultura pop do país e eu teria a oportunidade de a conhecer.

Estava presente neste evento com passe de imprensa, em representação do Séries da TV, e, como tal, entrei no recinto antes da hora a que as bilheteiras abriam para a compra das senhas para fotografias e autógrafos. Sabia de antemão que seriam vendidos 100 fotografias e 200 autógrafos, mais coisa menos coisa, e queria ter a certeza de que seria uma das duzentas primeiras pessoas na fila.

Fomos avisados de que não podíamos formar fila antes das 10h, pois seria injusto para todas as outras pessoas que adquiriram bilhete para o evento e que se encontravam lá fora à espera que abrissem as barricadas. Quando finalmente deram ordem de entrada àquilo que pensava serem centenas de pessoas, dirigi-me para a bilheteira. Contudo, depressa se instalou o caos. Não eram centenas, mas sim milhares que ansiavam por chegar à fila para terem uma chance de obter uma senha.

O que tinha tudo para ser um processo normal (formar uma fila, esperar pela abertura das bilheteiras, comprar uma senha e seguir caminho) quase se transformou numa batalha campal. Nunca imaginei que as coisas tomassem tamanha proporção. Havia pessoas a passar à frente de outras, crianças (com cerca de 10 ou 12 anos) a chorar, adultos a gritar com outros adultos e com crianças, seguranças sem saberem o que fazer. Tudo isto pelas 10h30 da manhã. Quando a maior parte das pessoas se apercebeu que não iria conseguir comprar uma senha, dirigiram-se ao pavilhão Golden Theatre, onde o painel da atriz iria decorrer. Enquanto isto, lá consegui comprar uma senha para tirar uma fotografia com Millie Bobby Brown que custou 30 euros. Também já sabia qual era o valor e durante algum tempo debati-me sobre se deveria realmente gastar esse dinheiro numa coisa como esta, mas saberia que se não o fizesse me iria arrepender.

A maior parte da multidão formada por mais de 20 mil pessoas que se encontrava em frente ao pavilhão com apenas 2 mil lugares não iria conseguir ver o painel do lado de dentro. Eu não estava preocupada; tinha uma credencial de imprensa, teria com certeza permissão para entrar. Afinal de contas, fazia parte do meu trabalho assistir aos painéis, mas, claro, fomos informados de que somente quem já se encontrasse lá dentro é que poderia assistir. Nem mesmo a imprensa tinha permissão. E foi a partir daqui que a minha tarde idílica se começou a transformar em algo ridículo. Os milhares e milhares de crianças e adolescentes, acompanhados dos pais, que ficaram do lado de fora acharam boa ideia gritar “Deixem-nos entrar!” quando o painel começou. A organização tinha colocado um ecrã gigante para que os menos afortunados pudessem assistir em direto, mas nem mesmo isso acalmou os ânimos. Agora presa na área dos jornalistas, que se situava mesmo ao lado do Golden Theatre, restava-me observar o decorrer dos eventos que se foram agravando.

Para além dos gritos, muitos foram os que tentaram forçar a entrada, chegando mesmo a rasgar a lona da tenda. No meio da multidão e de empurrões, houve crianças feridas e uma ambulância foi chamada ao local. Pais ameaçaram seguranças e voluntários e também a PSP se dirigiu à cena. Enquanto isto decorria no exterior, no interior Millie Bobby Brown e Nuno Markl, que moderou o painel, tentavam salvar aquilo que deveria ter sido um momento para a jovem atriz falar do seu trabalho. Quando os microfones foram abertos ao público, as crianças que tiveram oportunidade de chegar perto deles apenas conseguiram soluçar um “I love you”, enquanto os pais lhes faziam festinhas no ombro. Pouco ou nada Bobby Brown conseguiu falar sobre o que a levou ali.

Decorrida esta série de eventos tristes, chegou a hora dos autógrafos e das fotografias. Esperei pacientemente na fila, que, estranhamente, avançava rapidamente. Quando chegou a minha vez de entrar no photo booth nem queria acreditar nos 5 segundos que se seguiram. Saí de lá literalmente de boca aberta e atónita. Mas que raio… Apenas algumas horas depois consegui restituir esses escassos momentos na minha mente.

Quando entrei, apressaram-me para junto dela, saiu-me um “Hi” tímido, coloquei o braço à volta dela e ela o seu em volta de mim, sorri para a fotografia e apressaram-me para fora do cubículo. Assim, tal e qual. Nem mais nem menos. Foi isto que os 30€ me valeram. Nem consegui olhar bem para ela. Recordo-me perfeitamente apenas que a sua blusa era macia ao toque. E ficou-me também gravado na memória o ar robótico da pobre rapariga. As poses para as fotografias seguiam-se umas às outras sob o olhar atento do que presumi serem os pais e os agentes da jovem.

Neste dia muita coisa falhou: desde a organização do evento aos pais dos meninos e meninas que estiveram lá presentes. Sobretudo um pequeno grande pormenor foi esquecido: Millie Bobby Brown, ainda que atriz e famosa, tem apenas 16 anos (15 na altura) e foi tratada como um objeto; talvez por mim, inclusive, que também comprei uma fotografia. Tenho pena dela pelo que passou naquela tarde.

Se estou arrependida por ter desperdiçado 30 euros? Sem dúvida. Teria feito melhor em gastá-los num Funko Pop.

Beatriz Caetano