[Não contém spoilers]

Glória, a muito aguardada primeira série portuguesa original da Netflix, estreou no passado dia 5 de novembro e, depois de ter devorado a temporada, resolvi enumerar as sete razões para ver a série, numa tentativa de ajudar os indecisos a darem-lhe uma oportunidade.

1 – Inspirada em factos reais

Nos anos 40, os americanos lembraram-se que seria uma boa ideia terem uma rádio que emitisse propaganda ocidental para o bloco de leste, com o objetivo de combater o regime comunista. Com o aval do governo de Salazar, Glória do Ribatejo, concelho de Salvaterra de Magos, mostrou ser o local ideal quando o Conde de Monte Real vendeu a Herdade de Nossa Senhora da Glória, de quase 200 hectares, e, entre 1951 e 1996, a Rádio Retransmissão (RARET) esteve em funcionamento. Em 1960, a época retratada na série, a RARET passou a transmitir programas em 18 línguas para todos os países sob influência da URSS, incluindo a Polónia, Checoslováquia, Bulgária, Roménia e a Hungria. A RARET continuou a operar durante toda a Guerra Fria, mesmo com o final da União Soviética, que aconteceu em 1991, tendo encerrado operações apenas durante a presidência de Bill Clinton. As instalações continuam abandonadas desde então.

2 – Espionagem

Mesmo que a premissa possa desmotivar quem não é fã de séries históricas, o facto de incluir espionagem eleva o nível de entusiasmo. Transportando-nos para o Portugal dos anos 60, a série retrata como a pequena vila de Glória do Ribatejo se tornou um improvável palco da Guerra Fria, onde forças americanas e soviéticas se enfrentavam em perigosas manobras de sabotagem para ganhar o controlo da Europa. No centro da trama está João Vidal (Miguel Nunes), um engenheiro de uma família abastada com ligações ao Estado Novo que é recrutado pelo KGB, depois de se ter convertido politicamente durante a Guerra Colonial. Durante a temporada, num ritmo crescente de emoção, acompanhamos a missão de João quando vai trabalhar para a RARET, bem como os desafios que encontra relacionados com o choque entre o regime de Salazar e a PIDE, os americanos e os comunistas.

3 – Multilíngue

Uma das partes cativantes da série, principalmente se pensarmos que Glória pode ser vista a nível mundial, é ouvirmos mais línguas para além do português de Portugal. Temos russo, inglês e até português do Brasil. Este fator mostra bem a versatilidade dos atores portugueses e os seus dotes em falar outra língua que não a materna ou até mesmo sotaques diferentes, como é o caso de Joana Ribeiro e a sua Ursula, que fala português com sotaque polaco, ou de Albano Jerónimo e a sua personagem peculiar, que fala inglês com sotaque russo enquanto está bêbado.

gloria

4 – Personagens interessantes

O elenco não desilude, mas já era algo, de certa forma, esperado numa produção a este nível. Assim, escolhi destacar as personagens de Glória e todo o desenvolvimento bem conseguido ao longo dos dez episódios que, claro, também têm o mérito dos respetivos atores. Começando no protagonista e a profundidade do seu percurso durante a missão que lhe foi dada, complementada por flashbacks que justificam a sua motivação e dúvidas morais; passando pela enigmática Mia (Victoria Guerra), que consegue ser um ponto fundamental na história; ao colega de trabalho Gonçalo (Afonso Pimentel), que também esconde um jogo duplo; a doce e inocente Carolina (Carolina Amaral); ao casal americano (Stephanie Vogt e Matt Rippy), que dá um toque especial a Glória; e até uma certa personagem que odiamos à primeira vista e se mantém fiel a si própria até ao final.

5 – Cinematografia

É impossível ficar indiferente aos planos lindíssimos do Ribatejo e à qualidade técnica de Glória: desde paisagens deslumbrantes, a cenas de pancadaria de cortar a respiração e até cenas íntimas que nos fazem corar, assim como feridas expostas, efeitos especiais e explosões realistas. Glória oferece um conjunto de brindes visuais, da responsabilidade do realizador Tiago Guedes.

6 – O fator Netflix

A Netflix pode ter muitos defeitos, mas é certo que confere algumas vantagens aos seus conteúdos originais que os nossos canais nacionais não conseguem reproduzir. Para além de um orçamento superior, a série tem um alcance global imediato, com dobragens e legendas em várias línguas para além do português e inglês. Não esquecendo também o efeito binge watching, com o lançamento da temporada completa no mesmo dia – e acredita que a história de Glória enquadra-se muito bem no modo maratona.

7 – Futuro de séries portuguesas na Netflix

Se La Casa de Papel ou Squid Game nos ensinaram alguma coisa é que os conteúdos espanhóis e coreanos aumentaram exponencialmente nas plataformas (não só da Netflix), depois dos seus sucessos mundiais. Quem não gostaria de ver uma série portuguesa a obter o mesmo sucesso e a ser comentada e divulgada por todo o mundo? Pode não acontecer com Glória, mas este foi sem dúvida um primeiro passo necessário para o futuro de conteúdos portugueses na Netflix e, quem sabe, noutras plataformas a operar em Portugal.

Ana Velosa