Classificação

6.5
Interpretação
6.5
Argumento
7
Realização
7.5
Banda Sonora

[Contém spoilers]

Temporada: 3

Número de Episódios: 10

Nem um ano se passou desde a estreia da 2.ª temporada de Virgin River, e já se encontra disponível, na Netflix, a 3.ª temporada da série de drama e romance baseada nos livros de Robyn Carr (cumpre referir que eu não li esses livros, portanto não sei nada da história a não ser aquela apresentada ao longo destas três temporadas, pelo que tudo o resto são suposições), que conta a história de Mel (Alexandra Breckenridge), uma enfermeira que decidiu mudar-se para Virgin River, uma pequena e remota cidade do norte do estado da Califórnia, com o intuito não só de começar a trabalhar no consultório de medicina familiar de Doc Mullins (Tim Matheson), mas também de fugir ao seu doloroso passado.

O final da 2.ª temporada tinha deixado em aberto bastantes narrativas, e se pensávamos que íamos obter, nesta 3.ª temporada de Virgin River, algum tipo de resposta não podíamos estar mais enganados. Não só não obtivemos respostas como voltamos a ter narrativas deixadas em aberto. Eu entendo o objetivo da utilização de cliffhangers, mas mais do que incentivarem as pessoas a verem a próxima temporada estes devem ser bem usados/aproveitados e, no mínimo, fazerem sentido.

No final da 2.ª temporada, Jack (Martin Henderson) foi baleado, e apesar de ter 100% a certeza de que ele não ia morrer, pensei que esse acontecimento fosse ter mais impacto nesta temporada, não só nos personagens mas principalmente na relação dele com a Mel. Cheguei a pensar, inclusive, que Mel iria deixar de querer avançar com uma relação, tendo em atenção a perda do seu marido, Mark (Daniel Gillies). Por um lado, ainda bem que não seguiram essa linha narrativa. Apesar de tudo, gostei bastante de os ver juntos. No entanto, considero que poderiam ter desenvolvido um pouco mais esse acontecimento, especialmente por este ter sido um dos mais “marcantes” do final da 2.ª temporada. É certo que nos minutos iniciais do 1.º episódio da 3.ª temporada vimos um Jack quase a morrer, mas na cena a seguir já estava tudo bem, inclusive estava a acontecer uma festa porque o Ricky (Grayson Maxwell Gurnsey) se graduou da escola secundária. Somos informados que entre essas duas cenas se passaram três semanas, que Jack não se lembra de nada e que foi aberta uma investigação. Eu percebi a intenção deles quanto a essas duas cenas, principalmente porque uma dá a entender que Jack morreu e a outra que se poderá tratar do seu funeral. Mas senti falta de pelo menos mais uma cena relativa a esse acontecimento. Nem que fosse um simples flashback de outra cena no hospital.

Inclusive até poderiam ter aproveitado essa cena para inserir de forma mais subtil Brie (Zibby Allen), a irmã do Jack. É que eu já não me lembrava que o Jack tinha uma irmã (para ser sincera nem sequer me lembro se isso alguma vez foi referido na série), pelo que quando ela foi apresentada pareceu-me um pouco abrupto e out of nowhere. Fora esse começo gostei bastante de Brie e da sua história, tanto a nível individual, como a relação com o Brady (Ben Hollingsworth). Embora considere que essa relação pudesse ter sido um pouco mais desenvolvida inicialmente, ou pelo menos de forma mais gradual, achei que formaram um bom casal, já para não falar que foi bom ver outro lado de Brady. No entanto Virgin River tinha que fazer das suas, e no final desta 3.ª temporada, Brady é acusado de ter atirado em Jack, uma vez que encontraram a arma na viatura dele. Assim que vi o mandado de busca, sabia que a arma ia aparecer, porém tenho absoluta certeza de que esta foi plantada, talvez pelo Mike (Marco Grazzini), pois não me acredito que tenha sido Brady o autor do disparo. A minha esperança é que Brie acabe por acreditar na inocência de Brady, decida ficar em Virgin River e, uma vez que é advogada, defenda Brady dessa acusação.

Já que falei no Mike, vou aproveitar para partilhar uma teoria que tenho. Desde a 2.ª temporada que desconfio que os gémeos não são filhos do Jack, mas sim do Mike. Talvez Jack tenha descoberto isso, o que originou possivelmente uma discussão entre eles, levando assim Mike a disparar contra Jack. Uma vez que Jack não se lembra de nada, a não ser que Brady esteve no bar, e este sabe um “segredo” de Mike, nada melhor do que tirar Brady do caminho fazendo-o ser acusado. Dessa forma, Mike fica livre não só do crime que cometeu, mas também de Brady, ainda para mais sendo que Mike também demonstrou interesse pela Brie. Portanto, era/é o plano perfeito.

Ainda neste seguimento, e uma vez que falei nos gémeos, terei sido a única a achar a Charmaine (Lauren Hammersley) ainda mais intragável nesta temporada? Já não bastava ter passado a 2.ª temporada toda a infernizar a vida do Jack, principalmente quanto ao futuro dos gémeos e deles enquanto casal, agora que ficou noiva/casou com uma pessoa que conheceu em três semanas, e que quer excluir totalmente o Jack da vida dos filhos, ninguém a aguenta. Talvez tenha sido uma forma de “castigar” o Jack (e de gerar drama também!), mas confesso que me irritou profundamente.

Agora quanto à relação da Mel com o Jack, que final foi aquele? Assim que Joye (Jenny Cooper) falou à Mel da possibilidade de utilizar dois embriões que ela e Mark tinham guardados, eu já estava a adivinhar que ela iria ficar grávida e que não iria saber se o bebé seria do Jack ou do Mark. No entanto, tendo em atenção o processo necessário para que Mel ficasse grávida de Mark, e a cronologia da série (já para não falar de quão complicado estava a ser para eles conseguirem que Mel ficasse grávida ainda Mark era vivo), o bebé ser do Mark não me parece ser algo muito plausível. Isto é, embora o decorrer do tempo em Virgin River nunca me tenha feito muito sentido, não me pareceu ter passado assim tanto tempo entre a ida de Mel para LA, o tempo que ela passou lá, e o momento final da série. Sendo assim, como é que de forma tão rápida Mel consegue ficar grávida de Mark? Não faz grande sentido. Espero sinceramente, caso haja uma 4.ª temporada, que eles analisem melhor esta situação e consigam explicar de forma plausível como tudo isto aconteceu.

Também no final da 2.ª temporada ficamos a saber que Doc estava doente, sendo que nesta temporada nos foi indicado que ele tem Degeneração Macular, uma doença na retina causada pelo envelhecimento, que sem tratamento pode levar à cegueira. Isto leva Doc a ponderar reformar-se e, por isso, começa a entrevistar pessoas para ocuparem o seu lugar. Embora a relação dele com a Mel tenha vindo a melhorar ao longo das temporadas anteriores, Doc decide não partilhar com ela o que se está a passar, especialmente a sua intenção de se reformar, o que acaba por gerar conflitos entre eles quando Mel descobre o que se está a passar. Embora entenda que ele não quisesse partilhar que estava doente, e que durante 30 anos tomou as decisões sozinho, a atitude dele pareceu-me um pouco despropositada e injusta e fez-me lembrar o Doc da 1.ª temporada, algo que não me agradou muito. Felizmente ele percebeu que não tinha estado bem e acabou por pedir desculpas.

Ainda relativamente a Doc, no final desta 3.ª temporada, para além de estar a passar por um momento complicado devido ao acidente de Hope, também ficámos a saber que tem um neto. Tendo em atenção que ele foi casado durante muitos anos com a Hope e nunca foi referido que eles tivessem filhos (pelo menos que eu me lembre), fiquei bastante curiosa para saber como é que essa história se vai desenvolver. Espero honestamente que seja boa. Falando agora na Hope, a personagem teve praticamente a temporada toda ausente, uma vez que a atriz Annette O’Toole não pode participar das filmagens presencialmente devido à pandemia. Apesar de a minha relação com Hope não ser muito linear, pois umas vezes gosto outras vezes não gosto, confesso que senti um pouco falta dela nesta temporada. No entanto, acho que essa ausência permitiu não só ver o quanto Doc gosta de Hope, mas também ver um melhor desenvolvimento da personagem da Muriel (Teryl Rothery), por exemplo, algo que me agradou bastante.

Quanto a Preacher, este decidiu ficar em Virgin River e ficar responsável por Christopher (Chase Petriw), filho da Paige (Lexa Doig), que ao que parece anda fugida. Sinceramente estava à espera de outra razão para ela ter deixado o filho para trás, inclusive, fuga não estava na minha lista de opções. Pensei que ela pudesse ter sido apanhada ou que se tivesse entregado, mas não que tivesse fugido. Honestamente, tendo em atenção as duas primeiras temporadas, não me parece algo da Paige fugir assim e deixar o filho para trás. Contudo, e uma vez que Preacher foi abandonado inconsciente no meio da floresta, e o irmão do ex-marido da Paige aparece na casa de Preacher, muito provavelmente para levar Christopher, talvez Paige não tenha realmente fugido. Eu não tenho ideia de como é que esta história se vai desenrolar, mas fiquei ansiosa por saber mais.

Posto isto tudo, não é minha intenção que fiquem com a ideia de que desgostei totalmente da 3.ª temporada de Virgin River, pelo contrário, até me entreti bastante e vê-la. Embora tenha considerado o início um pouco lento, e achar que a história poderia ter sido um pouco mais pensada/ponderada, houveram momentos/histórias de que gostei bastante. Aliado a isso, e como já temos vindo a ser habituados desde a 1.ª temporada, temos uma excelente cinematografia, com paisagens de tirar o folego, e uma magnífica banda sonora. Resta-nos agora esperar para saber se a série vai ser renovada para uma 4.ª temporada. Se for, definitivamente que a vou ver, com a expectativa que as coisas que correram menos bem nesta temporada sejam de alguma maneira remediadas/explicadas e que as boas se mantenham ou sejam ainda melhores.

Episódio de Destaque:

The Sun Also Rises (Episódio 9) – confesso que não foi fácil escolher somente um episódio de destaque, pois também me passou pela cabeça escolher o 4.º e o 6.º. O 4.º episódio por causa da surpresa extremamente fofa do Jack à Mel, que não só culminou numa cena cinematográfica esplêndida como me fez lembrar ligeiramente uma cena do filme da Disney, Rapunzel. O 6.º episódio por causa dos jogos do lenhador. Já na temporada anterior tinha achado bastante graça a este festival, mas nesta temporada considerei que foi ainda melhor, especialmente os jogos. No entanto, acabei por escolher o nono episódio. Apesar deste episódio ser extremamente triste, não só pela morte da Lily (Lynda Boyd), mas também pelo aborto espontâneo de Brie, que foi violada pelo anterior namorado, e pelo acidente da Hope, Virgin River mostrou mais uma vez que apesar de abordar temas tristes/pesados, consegue fazê-lo de forma leve e até mesmo reconfortante. O discurso de Tara (Stacey Farber), filha da Lily, no funeral é um excelente exemplo disso. É um momento triste, de perda, mas a mensagem transmitida acaba por nos reconfortar e dar alento.

Personagem de Destaque:

Jack – à semelhança do episódio de destaque também não foi fácil para mim escolher o personagem de destaque pois também me passou pela cabeça diversos nomes, sendo ele o de Brady, Muriel, e até mesmo o de Lizzie (Sarah Dugdale). Estes nomes passaram-me pela cabeça muito por causa do desenvolvimento que sofreram nesta temporada. Vimos um lado diferente de Brady, vimos uma Muriel capaz de apoiar um amigo sem segundas intenções, e ainda uma Lizzie que apesar de ser um pouco mimada e inconsequente às vezes, realmente gostava de Ricky e até acabou por sair magoada da relação. No entanto, acabei por escolher o Jack não só por tudo o que passa/passou, mas principalmente pela forma incrível como ele trata a Mel. Definitivamente que a relação entre eles fez sobressair ainda mais o lado bom de Jack, que entre lidar com as estupidezes da Charmaine, gerir um bar, e ainda lidar com tudo o que lhe acontece, nunca deixa de ser uma excelente pessoa e um grande apoio/companheiro para a Mel.

Cármen Silva