Classificação

10
Interpretação
8
Argumento
8
Realização

[Não contém spoilers]

O piloto de Scenes from a Marriage depende de dois atores de classe mundial terem de ser protagonistas, cenário e tema. Isto podia correr horrivelmente mal, não fossem esses atores Chastain e Isaac.

Começo por dizer que não estou familiarizado com o original de Ingmar Bergman, mas este Scenes from a Marriage começa literalmente com um ator a chegar à cena da sua vida amorosa. Mira (Jessica Chastain) é uma mulher bem sucedida que vive um casamento que não a deixa completa. Isto não é spoiler, é algo que percebemos ao fim de cinco minutos, porque os atores são assim tão bons e o foco é tão intenso que é impossível não reparar em todas as suas reações. Jonathan (Oscar Isaac) toma um passo mais curto, pelo menos no piloto, no protagonismo, mas é também bastante percetível nas suas palavras que não vive a vida que deseja.

O diálogo é bastante rico, cheio de conversa normal, sem que nunca pareça forçada ou enfadonha. A primeira metade deste piloto é bastante expositiva, sim, mas vale pelas reações (especialmente de Mira) ao que é dito, montando desde logo o status quo da relação. É absolutamente delicioso (e trágico) ver como um casal tão bem sucedido nas suas áreas profissionais, com um casamento que aos olhos do mundo exterior parece tão bem sucedido, ter tanta falha na comunicação. Torna-se um incrível exercício de observação ver que se magoam tanto pelo que é dito como o que fica por dizer e é como ver um castelo de cartas a cair em câmara lenta.

O primeiro episódio é bem sucedido em aguçar a curiosidade, pelo menos para quem como eu que gosta de ver excelente interpretação aliada ao estudo de comunicação interpessoal. Como série, no entanto, não sei até que ponto é que resulta. Dependerá muito de como a história será conduzida e de que maneira chegará a bom porto (mesmo que não necessariamente um final feliz). Utilizando uma série bastante semelhante como comparação, Normal People faz tudo o que esta faz, mas vemos mais do que a análise minuciosa a uma relação. Neste piloto vemos um caso de estudo, dois “ratos” no labirinto de uma casa, o que se pode tornar algo claustrofóbico ou desmoralizante de observar. Hagai Levi é um dos criadores de The Affair, da Showtime, e não é que o produtor não saiba o que está a fazer, mas também é certo que The Affair perdeu-se no seu caminho.

Esta análise, apercebo-me agora, acaba também por ser um foco de estudo por si só: por vezes as notas não querem dizer mesmo nada. A interpretação não tem falhas, o diálogo é inteligente e a realização é mais do que competente. No entanto, pode não chegar. O que é certo é que convido qualquer um a espreitar, o piloto ao menos, disponível a partir de hoje na HBO Portugal, mas avisando à partida que promete não ser uma viagem feliz e leve.

Não queria encerrar a análise sem salientar a surpresa de encontrar Nicole Beharie (de Sleepy Hollow), uma incrível atriz que espero ver brilhar mais vezes.

O Melhor: Jessica Chastain e Oscar Isaac. A série pertence-lhes.

O Pior: Apesar de gostar de quase tudo o que estou a ver, não me sinto confortável em afirmar que se trata de uma boa série. É  o equivalente a um mestrado de interpretação e doutoramento em psicologia numa hora. Só o fim dirá se tudo encaixa.

Vítor Rodrigues