Classificação

7.6
Interpretação
6.9
Argumento
6.9
Realização
7
Banda Sonora

[Contém spoilers]

Foi na passada sexta-feira que Legacies regressou do seu mais recente hiato com um novo episódio, This Feels A Little Cult-y. Numa tentativa de controlar algumas das emoções negativas de Hope, Josie sugere que ambas se juntem a Lizzie num retiro de bem-estar espiritual para bruxas – uma decisão de que rapidamente se arrependem. Entretanto, Alaric e Dorian unem esforços depois de saberem que MG pode estar em apuros.

À semelhança do que aconteceu no decorrer da temporada anterior, Legacies vê esta sua 3.ª instalação encurtada para apenas 16 episódios, sendo que os restantes capítulos pensados para esta temporada chegarão aos nossos ecrãs durante a fall season. Assim, a série deixa-nos apenas com dois novos capítulos até ao seu abrupto final ao invés de seis, o que certamente irá resultar numa season finale que – tal como o resto desta temporada – se mostrará inapta em proporcionar à audiência uma conclusão satisfatória. No entanto, sinto que estou a antecipar-me. A verdade é que This Feels A Little Cult-y surge como mais um capítulo razoável para a série, capaz de produzir de forma eficaz os seus vários momentos de entretenimento e aproximando-se um pouco do tom de gozo da sua 1.ª temporada.

Após uma ampla quantidade de episódios sem o nosso trio como peça central da série, eis que Legacies nos traz um capítulo do qual Hope, Josie e Lizzie são o foco. Dando seguimento aos acontecimentos de One Day You Will Understand, episódio que trouxe consigo o (aguardado) fim da relação entre Landon e Hope, este novo capítulo apresenta a nossa protagonista num estado mental delicado, marcado, em grande parte, por um profundo sentimento de mágoa, angústia e alguma amargura. Assim, e após um breve percalço durante uma aula de interpretação, Josie resolve arrastar a sua amiga para o retiro espiritual onde Lizzie se encontra, sob o pretexto de precisar de ajudar a sua irmã gémea. 

Em retrospetiva, Josie não estava errada – Lizzie precisa desesperadamente de ajuda. Todavia, Hope e Josie não são as grandes heroínas deste episódio, pelo menos não de início. Tal como Lizzie, as personagens não tardam em ser aliciadas para este culto por Andi, sua líder, que mantém as bruxas sob sua influência com recurso a drogas psicotrópicas. Surpreendentemente (e, pensando bem, nem por isso), Lizzie é a primeira a quebrar este controlo exercido por Andi, após experienciar fortes emoções negativas quando a carismática líder escolhe Hope como seu prodígio. Assim, Lizzie vê-se forçada a salvar a sua irmã e a tríbrida, sendo a única capaz de reconhecer que Andi está a manipular todas à sua volta. A tarefa torna-se mais urgente quando a personagem descobre as ligações da bruxa à Triad, mas trazer Josie e Hope de volta não é tão fácil quanto parece ser.

Apesar de conseguir quebrar Josie depois de alguns golpes baixos sobre as suas maiores inseguranças, Lizzie acaba por ficar inconsciente, delegando à sua irmã a função de salvar Hope. As ofensas levantadas por Josie são exatamente aquilo que esperamos por parte desta personagem, em especial no que diz respeito à tríbrida. Ainda assim, a jovem Josette consegue romper a barreira que separa Hope da realidade, colocando em evidência o facto de a nossa protagonista se encontrar em negação sobre a inevitável separação com o seu ex-namorado. Afinal de contas, Hope e Landon são completamente incompatíveis, pelo que o personagem apenas fez aquilo que Hope nunca teve coragem de fazer. Ainda que algumas das suas cenas sejam incapazes de passar o teste de Bechdel, sendo Landon a razão que levou Josie e Hope até Lizzie em primeiro lugar, sou capaz de perdoar as várias menções ao personagem, uma vez que nos permitiu ver o trio a trabalhar em conjunto mais uma vez. Não é segredo que sentia saudades da dinâmica entre estas personagens e este episódio chegou na altura certa para reanimar o meu empenho nesta sua amizade. 

De modo a resumir os eventos que se seguem, limito-me a dizer que Hope mostra a Andi que esta escolheu meter-se com as pessoas erradas. O conflito entre ambas culmina com o sacrifício da bruxa a Malivore, de modo a poder convocar o próximo monstro que as nossas personagens terão de enfrentar. Depois deste momento mais sério, segue-se uma hilariante sequência na qual Hope, Josie e Lizzie se encontram vestidas dos pés à cabeça num fato de urso panda (mais alguém apanhou vibes de Midsommar?), completamente alucinadas após Andi derramar uma grande quantidade de psicotrópicos sobre as personagens. A cereja no topo deste bolo surge com a decisão de colocar a música Because I Got High como som ambiente da cena, que acaba por ser um dos momentos mais hilariantes de Legacies em tempos recentes. Conforme mencionei no passado, não me importo que a série tenha as suas instâncias de gozo e esta foi uma excelente oportunidade para o fazer. É quase tão engraçado como saber que o próximo episódio verá Darth Vader como seu vilão, mas falaremos mais sobre isso na altura certa.

Correndo o risco de parecer tendenciosa (mas, ao mesmo tempo, assumindo que leem estas reviews pela minha opinião pessoal e não por um recap clínico dos acontecimentos da série), tenho de partilhar um desabafo. Apesar de nutrir um enorme carinho pelas várias relações de amizade em Legacies, por mais que a própria série as tente arruinar, vejo a relação entre Josie e Hope como algo mais do que isso e gostaria que Legacies se inclinasse nesse sentido, num futuro preferencialmente breve. Este meu desejo não é algo de novo, tendo-se vindo a desenvolver desde a 1.ª temporada da série, nomeadamente após a admissão de Josie sobre uma passada paixoneta em Hope (e, de igual modo, a mesma confissão por parte da nossa protagonista em That’s Nothing I Had to Remember). O simples facto de assistir a novas cenas entre as personagens após tanto tempo é o suficiente para reacender este meu interesse, uma vez que sou da opinião que Danielle e Kaylee partilham de uma ótima energia em cena, em muito superior ao que temos vindo a observar em outras relações. Mesmo em termos narrativos, acredito que esta seria uma boa aposta por parte da série – e certamente o tipo de representação que procuro nos conteúdos que consumo.

De volta ao episódio, encontramos Dorian e Alaric em busca de um novo monstro nos arredores de Mystic Falls, responsável pelo desaparecimento de um transeunte. A estranha ocorrência desperta a curiosidade dos nossos personagens, sendo que, ao chegar ao local e dando de caras com um MG coberto de sangue, Dorian rapidamente deduz que o vampiro se transformou num ripper (uma storyline de grande interesse, mas da qual Legacies se esquece com alguma frequência). Na verdade, o personagem está neste estado lastimável porque tentava ajudar algumas pessoas quando deu de caras com um wendigo, colocando um ponto final à piada recorrente da série sobre como o monstro da semana nunca é um wendigo. Sinto que é escusado dizer que os personagens conseguem derrotar a criatura, mas não antes de Dorian se magoar com alguma seriedade. Como sempre, tudo está bem quando acaba bem e Alaric promete a MG que o irá ajudar a salvar pessoas desde que o vampiro volte à escola. Ainda que isto signifique que o último personagem que se encontrava em Mystic Falls irá regressar ao nosso principal cenário, acredito que não será a última vez que nos cruzaremos com a fação humana, até porque Ethan continua a existir enquanto personagem.

Entretanto, na Salvatore School, aquele que é talvez o meu aspeto menos favorito deste episódio tem lugar. Após um pequeno desentendimento, Finch disputa o lugar de alfa da alcateia da escola com Jed, escolhendo como prova um simples jogo de bilhar. O lobisomem sente-se preparado para enfrentar a recém-chegada – isto é, até que os seus subordinados admitem tê-lo deixado ganhar no passado. Assim, Jed não tem qualquer hipótese contra Finch, que, por alguma razão, é perita neste desporto. No entanto, a personagem rapidamente se apercebe do quão importante a posição de Jed enquanto alfa é, tanto para o lobisomem, como para a sua alcateia, pelo que acaba por perder o jogo de propósito para que este mantenha o seu lugar. Apesar de ser uma boa tentativa de tornar Finch numa personagem um pouco menos insuportável, sinto que esta narrativa não encaixou no restante episódio, tendo contribuindo em muito para o meu aborrecimento geral.

Como nota de rodapé, resta-me apenas mencionar que a série continua a fazer várias menções a Clark e à Triad, sendo que espero o retorno do personagem num episódio próximo. Sabemos que os flashbacks dos quais o nosso antagonista faz parte estão relacionados com o infame artefacto, mas pouco mais percebo no que diz respeito a esta storyline à qual não tenho prestado grande atenção. Ainda assim, estou curiosa em ver o que o destino aguarda e de que forma tudo isto será relevante para os acontecimentos do presente.

Um último desabafo? Tenho um ódio de estimação pelo filtro azulado que a série tende a usar em algumas cenas. Acredito que todo o tempo passado no culto tinha um aspeto muito mais apelativo no vídeo promocional do episódio do que no produto final, pelo que não consigo perceber o porquê desta decisão estética.

Legacies regressa esta semana com A New Hope, o capítulo de homenagem a Star Wars que antecede a sua season finale. O episódio temático encontrar-se-á disponível para visualização na plataforma de streaming HBO Portugal já nesta sexta-feira.

Inês Salvado