Classificação

9
Interpretação
8.7
Argumento
8.6
Realização
8.5
Banda Sonora

[Contém spoilers]

“You don’t need the suit to be Batwoman. She’s already in you.”

É com grande pesar que anunciamos que Batwoman chega agora ao final da sua 2.ª temporada com Power, o seu mais recente episódio. Nesta emocionante season finale, Ryan Wilder questiona o seu papel enquanto vigilante ao juntar forças com Luke, Mary e Sophie para travar o caos causado por Black Mask à sua cidade. Entretanto, a mais recente tentativa de Alice para salvar a sua irmã gémea resulta num novo e desafiante encontro com Circe Sionis. Por fim, num confronto épico, alianças e transformações inesperadas têm lugar, ameaçando alterar para sempre o balanço delicado que governa a cidade de Gotham.

Este último episódio da temporada começa com uma “noite de anarquia”, um evento organizado por Roman Sionis, onde o vilão convida os cidadãos de Gotham a usarem réplicas da máscara por ele utilizada, com o intuito de incitar à violência para derrubar as instituições corruptas, detentoras do poder na cidade – uma missão algo irónica, uma vez que Sionis tem grande parte do GCPD no seu bolso. Este suposto ato de ativismo não tem a aderência desejada, sendo que muitos dos habitantes da cidade se recusam a participar no violento protesto. Ainda assim, o verdadeiro momento de resistência surge quando a população de Gotham ouve o relato da carta sentida de Batwoman, escrita por Ryan e publicada pelos vários meios de imprensa, onde a personagem se despede (pelo menos temporariamente) do papel de vigilante. A homenagem das pessoas que decidem colocar as máscaras iluminadas nas janelas das respetivas casas, criando um outline em forma de morcego, é um momento que nos emocionou e que também não passou despercebido a Ryan, que reconhece assim o verdadeiro valor de Batwoman não apenas como alguém que luta contra vilões, mas como um símbolo de otimismo e esperança. 

Outra consequência desta ação organizada por Sionis foi um corte de eletricidade generalizado e total que cobriu toda a cidade, deixando a população (e os nossos heróis) às escuras e sem saber o que fazer. Depois de localizar o líder da False Face Society, Ryan sem o seu batsuit, sem armas e sem comunicações requer um pouco de ajuda adicional para o deter. Constitui-se aqui a oportunidade e a desculpa perfeita para mais uma missão com Alice, um duo que tem vindo a desenvolver a sua relação turbulenta ao longo da temporada. Nesta interação, Alice acaba por lamentar o seu envolvimento na morte da mãe de Ryan, confessando que entende a sua dor após ter perdido Ocean por ação de Safiyah. Um momento comovente que, obviamente, não se prolonga por muito tempo. No decorrer da discussão, Alice acaba por atirar a Wilder que a culpa da morte da mãe biológica é da própria, alegando que a mãe morreu durante o parto. Para quem viu o progresso (lento) de Alice esta temporada, estas acusações parecem agora autênticas facadas e algo a que já não estamos tão habituadas a assistir. Se saltarmos um pouco para o fim do episódio, sabemos que a irmã gémea de Kate acaba por confessar a Ryan que a sua mãe biológica está, na verdade, viva. Esta será certamente uma narrativa a explorar na 3.ª temporada e a descoberta da sua identidade e localização tem pano para mangas. 

Enquanto Ryan e Alice procuram derrotar Sionis (e, no processo, recuperar Kate), Luke explora a bat cave em busca de algo que possa ser útil para a nossa equipa. Assim, o jovem Fox analisa a montanha de documentos deixados para trás pelo seu pai, dando de caras com uns almanaques que o ajudam a decifrar o paradeiro de Black Mask. As suas descobertas não param por aqui, e o personagem não tarda a encontrar uns desenhos que esboçou enquanto criança. No papel, está retratada uma versão imaginária de Batman, na qual o personagem é uma pessoa de cor ao invés do milionário Bruce Wayne. O jovem Lucas visionava-se nesta posição e Lucius, o seu pai, queria tornar este seu sonho realidade, tendo rabiscado várias equações ao lado dos desenhos do seu filho. A maior surpresa para Luke surge quando o personagem descobre uma versão física do fato, claramente desenvolvida por Lucius na esperança de um dia ver o seu filho como super-herói. Ainda que o pai de Luke nunca venha a ter esta oportunidade, o nascimento de Batwing é um marco importante na vida deste nosso personagem que nos deixa extremamente felizes, até porque há muito que o antecipamos!

Conforme referimos em Kane, Kate, Batwing não é o único personagem dos livros de banda desenhada a fazer a sua primeira aparição na série nesta season finale. Também o principal inimigo do nosso novo herói tem aqui a sua estreia, com Tavaroff a transformar-se em Menace graças à sede de poder de Sionis, que acaba por descartar o personagem quando o veneno de Bane lhe causa uma (temporária) paragem cardíaca. Menace é encontrado nas ruas de Gotham e levado até à clínica de Mary para tratamento, sendo que a nossa médica rapidamente percebe que a snakebite no seu braço serve o propósito de ancorar Tavaroff às suas memórias, impedindo que este se torne num monstro sem controlo, quase como Hulk. Assim, a Dr.ª Hamilton sai da sua clínica com a dose de snakebite em mão, não tardando a ser seguida por um Russell enraivecido. Felizmente, Luke aparece na altura certa para salvar a nossa personagem e vemos o personagem no seu fato de Batwing pela primeira vez. Ainda que acreditemos que a solução para recuperar as memórias de Kate seja um bocado repentina, percebemos que a série tinha muito a fazer em apenas um episódio, sendo que o final desta temporada teria beneficiado de dois capítulos adicionais – uma das poucas críticas que temos a levantar a esta season finale. Existem alguns elementos narrativos que teriam maior impacto se tivessem sido prolongados no tempo, mas estamos bastante satisfeitas com a estreia de Batwing e o facto de Batwoman trazer para o pequeno ecrã a primeira versão live action do personagem na história da DC Comics.

Entretanto, após Alice ter lidado com Black Mask (usando uma arma de Joker para fundir a sua cara com a máscara), junta-se a Ryan, que persegue Kate/Circe pelas estradas de Gotham. Com a ajuda de Batwoman, Alice consegue pulverizar a sua irmã com um aerossol de snakebite, trazendo de volta algumas memórias da sua irmã enquanto imagina outras. Como referimos anteriormente, esta solução do uso de snakebite para reaver memórias é um pouco apressada e conveniente, mas com tanto para incorporar em apenas um episódio, parece-nos uma resolução válida e eficaz. Voltando à cena em questão, não só Kate é afetada com a substância mas também Alice é pulverizada com algum do spray, as duas personagens arrecadando com os efeitos secundários. As alucinações que se seguiram foram um dos pontos emocionais fortes do episódio. Em relação a Kate, a personagem sonha que consegue salvar Beth em criança, mostrando mais uma vez que este é o maior arrependimento da vida da jovem Kane. Já Alice sonha com Ocean, imaginando que se consegue despedir e, tão ou mais importante, o personagem diz-lhe para nunca deixar de perseguir o sentimento de amor, sentimento que foi tão relevante para a evolução da anti-heroína no decorrer desta instalação. Falando ainda sobre Alice, outro momento comovente ocorre após a sua queda ao rio, quando ela consegue arrastar Kate para a borda, acabando a fazer técnicas de ressuscitação na gémea, com a ajuda de Ryan. O instante em que Alice percebe que a irmã está viva é de cortar a respiração (no pun intended!), mas, porque as tragédias não acabam para a personagem, esta acaba por ser presa no local pelas autoridades. 

Também Ryan mudou bastante ao longo desta temporada (ou, na realidade, não mudou mas apenas provou ser a heroína em que todos acreditávamos). Após uma temporada atribulada, onde Wilder teve de provar o seu valor não só à sua equipa como também à sua cidade e, no final, à própria Kate, eis que chega a conclusão pela qual  esperávamos. Power traz-nos o momento oficial da passagem de testemunho do legado de Batwoman de Kate para Ryan, que recebe a benção da nossa ex-protagonista para continuar o bom trabalho que tem feito enquanto vigilante. É um acontecimento que acarreta uma grande carga emotiva e que define Wilder como a verdadeira protagonista da série, uma decisão que apoiamos veemente, em especial após todo o trabalho que esteve por detrás da criação de um novo e cativante lead para esta temporada, dados os acontecimentos que já conhecemos. Ryan é, de facto, a nossa Batwoman, uma personagem por quem nos apaixonámos e cuja história teremos todo o gosto em seguir. A nossa protagonista vê-se também livre do seu período de provação depois de um breve e confiante discurso perante o júri encarregue de avaliar o seu progresso, estando agora à vontade para prosseguir o seu ativismo dentro e fora do fato.

Assim, resta-nos falar sobre Kate, a personagem com a qual começámos esta jornada e de quem agora nos despedimos. Embora gostássemos de ter passado mais tempo com Wallis neste papel, apreciamos o facto de Batwoman ter proporcionado à sua audiência e personagens (Sophie, em particular) um breve momento de closure que certamente não será permanente. Wallis fez um excelente trabalho no pouco tempo que passou na série, e parece que a nossa Kate Kane parte agora rumo a National City, sendo que um cameo em Supergirl aparenta estar no seu horizonte. Sabemos que a personagem procura o paradeiro de Bruce, mas, por agora, esta é a única informação de que dispomos sobre o futuro de Kate Kane.

Por fim, esta season finale de Batwoman lança as bases da sua próxima temporada de forma algo previsível mas extremamente satisfatória. No final da review anterior, mencionámos o nosso desejo em ver a série explorar uma nova galeria de rogues um termo que, no mundo da banda desenhada, se refere aos vários vilões enfrentados por Batman ao longo dos seus anos no ativo. Assim, Power vê Kate perder os itens da pequena coleção de Bruce aquando da sua queda ao rio, sendo que estes se encontram agora à mão de semear por toda a cidade de Gotham, tendo o final do episódio não só demonstrado que deram à costa, como também feito um pequeno tease a Poison Ivy, uma personagem que ansiamos ver neste universo. Parece que os vilões da 4.ª temporada de Batwoman foram revelados, e podemos esperar não só novas iterações de personagens de renome, como também um ou outro cameo dos mais famosos malfeitores da DC.

O balanço que fazemos desta 2.ª temporada é, de forma geral, bastante positivo. A notícia da saída de Ruby Rose fez tremer os pilares da série e deve, com certeza, ter dado muitas dores de cabeça aos escritores de Batwoman. No fim, resultou uma temporada que nos atrevemos a dizer é superior à sua antecessora, que conta com a adição de novas dinâmicas e histórias que não fariam sentido caso Ruby continuasse a ser Kate e, consequentemente, Batwoman. O exemplo mais notório é a personagem de Javicia Leslie, Ryan, que conseguiu trazer à série uma forma de explorar e discutir questões sociais, raciais e de justiça. Aliás, quando revimos alguns episódios da 1.ª temporada, não pudemos deixar de reparar que os problemas são muito à volta de pessoas ricas e das próprias motivações pessoais de Kate Kane, enquanto agora assistimos a narrativas relacionadas com os problemas que comunidades minoritárias enfrentam e uma maior opressão aos detentores do poder em Gotham.

Batwoman regressará aos nossos ecrãs com uma nova temporada já no dia 13 de outubro, durante o começo da fall season televisiva. O início da sua 3.ª instalação representa, também, uma mudança de time slot para a série, que passará a estrear os seus episódios à quarta-feira, ao invés de sábado. Até ao seu regresso, podes rever todos os episódios de Batwoman através da plataforma de streaming HBO Portugal, responsável pela distribuição da série a nível nacional.

Ana Oliveira e Inês Salvado