As séries estão repletas dos mais variados tipos de relações, umas boas, algumas nem tanto. Aliás, há muito bom drama que surge de ligações complicadas que nos agarram ao ecrã, mas com as quais ninguém queria ter de lidar na vida real. Foi precisamente a pensar em relações tóxicas do mundo das séries que decide escrever esta crónica, que não vai focar-se apenas em pares amorosos, mas em amizades, famílias e outras. Muitas outras hipóteses haveria para incluir, mas estas são algumas das que mais me marcaram em muitos anos como seriólica.

[Contém spoilers]

Bryce Walker e Justin Foley (13 Reasons Why): Só vi as duas primeiras temporadas de 13 Reasons Why, mas acho que são mais do que suficientes para rotular esta amizade como extremamente tóxica. Os dois eram amigos desde pequenos e é justo dizer que Bryce olhava por Justin e o ajudava, sabendo que o amigo tinha uma situação familiar e económica complicada. No entanto, ao crescer, Bryce tornou-se claramente numa má pessoa, tendo violado duas raparigas, sendo que uma delas era a namorada de Justin. Ao analisar-se o quadro completo, talvez já houvesse maldade em Bryce muito antes desses horríveis atos que cometeu, até porque acho que faz todo o sentido quando Jessica diz a Justin que as coisas que Bryce fez por ele foram uma forma de exercer poder. As palavras não são estas, mas o sentido é o mesmo e a verdade é que vemos Justin a debater-se com um certo sentido de lealdade para com Bryce e, por outro lado, fazer a coisa certa, apesar de tudo. Justin conhece o lado melhor e o lado pior de Bryce como ninguém.

a teacher pilot

Claire Wilson e Eric Walker (A Teacher): As relações sexuais entre adolescentes e adultos (nomeadamente professores) não são uma novidade na ficção, mas esta minissérie tem o bom senso de não romantizar a questão e de inverter os papéis habituais de forma a contar uma história relevante e que faz o maior sentido aos olhos dos avanços que tivemos nos últimos anos. Eric é um aluno popular do liceu e Claire é a sua jovem professora e explicadora. Além da grande diferença de idades, não inferior a 12 anos, coloca-se a questão do grande desequilíbrio de poder. Bem, e não é preciso referir o quão perturbador é uma pessoa adulta envolver-se com um miúdo! Faz-me especial confusão porque eu tenho uma idade muito próxima da desta professora e não consigo conceber como é que ela foi capaz de fazer uma coisa daquelas! Há uma cena em que ela está a confessar a outra professora da escola que a pessoa com quem anda a ter um caso é um aluno e é um outro nível de… nem há palavras. Ela fá-lo como se pensasse que está apenas a fazer-lhe uma confidência, quando se trata de um crime. Balanço feito, a relação ilícita estragou as vidas de ambos. De maneiras diferentes, mas estragou, e ver a série a refletir ideias erradas ainda tão enraizadas na sociedade foi muito importante.

Ally e Ivy Mayfair-Richards (American Horror Story: Cult): Os casais tóxicos nas séries são uma constante, mas são menos frequentes aqueles que acabam com a morte de alguém. Ao contrário daquilo que nos fizeram acreditar, Ally não via coisas que não existiam. Tudo não passou de maquinações do culto a que Ivy pertencia. Aproveitaram-se das fobias, dos medos e da ansiedade de Ally e quase a fizeram enlouquecer. Aquilo com que Ivy não contava é que Ally seria capaz de estar sempre um passo à frente dela e do culto. Ainda menos contava que Ally teria coragem de fazer algo tão extremo como envenenar a mulher. No entanto, se pensarmos nas motivações de Ivy, tudo isto se torna ainda mais absurdo. E eu ao início, inocente, a pensar que formavam um casal giro!

Perry e Celeste Wright (Big Little Lies): Um caso clássico de violência doméstica, como tantos que, infelizmente, continuam a existir. As aparências mostram um casal perfeito e feliz. No entanto, à porta fechada, Perry abandona a fachada de príncipe encantado e transforma-se num monstro. Apesar do inferno dos espancamentos, Celeste ama o marido e convence-se que as coisas não são assim tão más, que não chegaram a um ponto em que aquilo que deve fazer é afastar-se e nunca mais olhar para trás. Celeste culpabilizava-se e acreditava que Perry a amava mesmo. Talvez até ele a amasse de uma maneira distorcida qualquer que faz sentido naquela mente perturbada, mas não é um tipo de amor que interesse a ninguém.

Gemma, Simon e Tom Foster (Doctor Foster): Acho que é completamente justo dizer que Doctor Foster é uma das séries mais maradas que já vi. Gemma e Simon são um casal horrível em todos os sentidos. A descoberta de uma traição despoleta toda uma série de comportamentos loucos, psicopatas e criminosos. Não há muitas pessoas que tenham feito tão mal uma à outra, mas a verdade é que, ainda assim, Gemma e Simon partilham uma obsessão doentia e não conseguem manter-se afastados. A sério, há uma altura em que parece uma competição para ver quem ganha o prémio de pessoa pior naquela relação. Tortura psicológica e emocional, violência física e ciúmes doentios, mesmo quando um deles parte para outra relação, são os ingredientes. Esta toxicidade não é, de todo, alheia ao filho dos dois, Tom, que é inevitavelmente envolvido na bola de neve de destruição familiar. É um daqueles casos clássicos de pais que arruínam completamente os filhos. Pobre miúdo! 

Mia Warren e Elena Richardson (Little Fires Everywhere): Elena é uma daquelas pessoas privilegiadas que deixa que o facto de ter dinheiro e estatuto lhe suba à cabeça e por isso tem uma atitude de total condescendência quando uma jovem mãe solteira com poucas posses entra na vida dela. Elena também tem a mania de contar que a mãe fez não sei quê pelos direitos dos negros, mas toda a impressão que dá é que não quer saber dos direitos civis de ninguém, só quer “vender” o quão boa pessoa é. E, se pensarmos bem, Elena tem atitudes bem preconceituosas e até racistas. Mia não quer levantar ondas e então aceita o emprego que Elena lhe oferece em sua casa, mas quando a filha mais nova de Elena se afeiçoa a Mia e quando a própria filha de Mia se começa a sentir demasiado confortável na casa dos Richardson, a coisa começa a correr mal. Trata-se de muito mais do que isso, mas a tensão criada por esta situação não ajuda. Elena torna-se obcecada em descobrir o passado de Mia e Mia descobre informações que vão abalar o mundo de algumas das pessoas mais próximas de Elena. No entanto, Mia parece ser movida por aquilo que ela acredita ser o que está certo e é inegável que há algo de nobre na personagem, mas Elena não é mais do que uma mulher caprichosa. Até Mia se ir embora, aquelas duas fizeram da vida uma da outra um inferno. Contudo, em comparação com as outras integrantes desta lista, esta relação até não parece assim tão má.

Eleanor e Patrick Melrose (Patrick Melrose): Não hesitei em relação a nenhuma das minhas outras escolhas para esta crónica, mas esta foi mais difícil. Eleanor e Patrick são mãe e filho e não há dúvidas em relação ao amor que sentem um pelo outro, mas muitas vezes isso não é suficiente. Patrick sofria abusos, psicológicos e sexuais, às mãos do pai, mas a mãe tinha demasiado medo do marido para o confrontar ou para simplesmente se ir embora com o menino. Aliás, também Eleanor era maltratada pelo marido e o crápula, ainda por cima, vivia às custas dela. Ninguém protegeu aquele miúdo e ele acabou por crescer a ressentir-se da mãe por não ter sido capaz de o proteger. A pessoa que ele mais amava no mundo e a única que sabia o que se passava dentro daquela casa não foi capaz de o salvar daquele pesadelo, que viria a destruir também a sua vida adulta.

Camille Preaker e Adora Crellin (Sharp Objects): Esta série é um poço sem fundo de relações tóxicas, mas esta é a mais relevante de Sharp Objects e por isso mesmo merece destaque. Uma filha que se sente completamente na sombra da irmã, já falecida? Check! Uma mãe que faz questão que a filha saiba que lhe é difícil amá-la? Check! E não é do género: é difícil amar-te, mas amo-te, ainda assim! É difícil para Adora amar Camille e por isso mesmo não a ama. Que tipo de pessoa é que vive bem com uma coisa dessas? Bem, o tipo de pessoa que faz a filha sentir-se mal por ser como é e que procura humilhá-la das formais mais horríveis, explorando os problemas de saúde mental de que Camille sofre. Para Adora, o problema é que Camille teve sempre uma personalidade forte, pouco dócil e domável. Mestre a manipular emoções, Adora é uma das mães mais frias e mais detestáveis da televisão. Não há um único momento, em toda a série, em que Adora seja capaz de se assemelhar, nem que seja remotamente, a uma mãe carinhosa para Camille. Com Amma isso acontece, mas a verdade é que parece mais uma representação do que algo genuíno.

Alistair Robertson e Joanna Lindsay (The Cry): Houve qualquer coisa que me deixou de pé atrás em relação a Alistair desde o início, mas estava longe de imaginar o que viria aí. Quando o filho dos dois desaparece, nós, enquanto espectadores, somos manipulados a acreditar que as coisas aconteceram de forma muito diferente daquilo que aconteceu realmente. Sem querer entrar em muitos pormenores, descobrimos que o bebé está afinal morto, mas somos, mais uma vez, levados a acreditar que Joanna teve alguma culpa no cartório. No entanto, na verdade foi Alistair quem cometeu um erro. É lamentável e talvez pudesse acontecer a qualquer um, mas o facto de ele ter virado a história de modo a fazer com que Joanna acreditasse que a culpa foi dela fez com que as coisas passassem de um acidente verdadeiramente infeliz para um caso de contornos criminais. Alistair montou todo um esquema para encobrir o que realmente aconteceu e a forma como explorou as inseguranças da mulher enquanto mãe é verdadeiramente deplorável.

Serena Joy e June Osborne (The Handmaid’s Tale): Mais de 90% das relações desta série seriam consideradas tóxicas, mas não havia maneira de escolher outra que não a de June e Serena. Para o bem e para o mal, para mim não há nada de melhor em The Handmaid’s Tale do que quando estas duas partilham o ecrã. No entanto, além do óbvio desequilíbrio de poder, acho que é justo dizer que há uma certa obsessão que caracteriza esta dupla. Odeiam-se, sure, e não há como duvidar disso, mas parece ser-lhes difícil livrarem-se uma da outra. Serena fez coisas horríveis e, ainda assim, June mal conseguiu vê-la a ser espancada por Fred com um cinto e quis ajudá-la quando Serena perdeu parte do dedo, ao ter violado uma lei de Gilead. Houve algumas vezes em que foram “cúmplices” (quando trabalharam juntas, quando Serena abdicou da bebé para que esta tivesse uma vida melhor no Canadá), mas Serena deu a Fred a  ideia de violar June para induzir o parto e já a tinha feito ter sexo com Nick para que engravidasse… E depois há aquele confronto em frente à estátua destruída de Lincoln, na 3.ª temporada e a necessidade que June teve de, novamente, confrontar Serena no Canadá. June é corajosa e já mostrou que não tem medo de nada, mas penso sempre que, no lugar dela, a maioria das pessoas só queria não ter de voltar a olhar para Serena, a não ser que fosse absolutamente necessário. É suposto que a posição de handmaidwife crie uma dinâmica tóxica e abusiva, mas as coisas atingem outro nível entre June e Serena.

Diana Sampaio