… sempre. Acho que é mais do que justo dizer que as séries, tal como muita da ficção nas mais variadas vertentes, criam expectativas irrealistas sobre a vida real desde sempre. Não é uma crítica, é mais uma constatação. Porque se, por um lado, isso pode ser mau, por outro é positivo. Ora, quando nos referimos a algo como ficção isso significa que são histórias inventadas, mas todos sabemos que a ficção vai beber muita coisa à vida real, é inevitável. No entanto, a verdade é que ninguém iria querer ver nos ecrãs a vida como ela verdadeiramente é para muitos de nós, onde realmente não se passa nada ou se passa muito pouco que vale a pena ser contado. No entanto, acho que é precisamente naquilo em que se distancia da vida dos comuns mortais não fictícios que as séries são irrealistas.

Nem é preciso aprofundarmos muito, basta irmos por uma série de tópicos, que quero abordar meio a brincar, meio a sério. O primeiro: a nível pessoal. As pessoas das séries têm, em grande parte, uma excelente aparência. Nem todas, é claro, mas os nossos ecrãs ainda são muito preenchidos por pessoas bonitas e de corpos em forma. Até é raro ver-se alguém usar óculos, a não ser em personagens bastante específicos. Eu uso óculos e sinceramente nunca tive nenhum problema com isso, nunca sequer ponderei usar lentes de contacto, mas se pensarmos bem, num mundo em que, cada vez mais cedo, se é dependente dos ecrãs, seria expectável ver muito mais pessoas a terem de os usar. No entanto, isto é um pormenor bastante pequeno no panorama geral.

Não sentes que quase toda a gente das séries tem empregos bons ou se não tem um bom emprego, tem um sonho, um talento especial ou uma grande ambição que eventualmente lhe proporcionará uma vida bastante confortável? As séries não são nada relatable neste sentido, sinceramente. São mais as pessoas com trabalhos completamente banais, sem perspetivas de progressão, mal pagos e por vezes bem aquém da formação escolar/académica do que aquelas com trabalhos invejáveis. Nesse aspeto, há que louvar a série Wonderfalls, que se centra numa rapariga de 20 e tal anos, licenciada numa universidade da Ivy League, e que trabalha numa loja de recordações. Uma das coisas mais relatable que vi numa série! Ainda no tópico laboral, e aqueles personagens que têm um trabalho, mas parece que nunca têm que lá estar e têm tempos livres infinitos? Ok, o pessoal de How I Met Your Mother encontra-se muitas vezes à noite, que supostamente é tempo de descanso, mas o pessoal de Friends parece que convive todo o santo dia, todos os dias, a qualquer hora! E Rachel, bem… Sei do que falo, porque tenho bastante experiência como empregada de mesa e sou muito melhor nisso do que ela, o que também não seria difícil… Às vezes o Central Perk tem montes de mesas e ela está simplesmente ali na conversa com os amigos. Ok que o Gunther tem um grande fraquinho por ela e deixa andar, mas Rachel habilitou-se demasiadas vezes a ser despedida.

E já que estamos no tópico das amizades… Eu – e isto antes da pandemia, porque agora a minha vida limita-se a casa, trabalho, supermercado e nada de vida social – às vezes tenho alguma dificuldade em encontrar-me com uma amiga, uma única vez, duas horas por semana, quanto mais num registo diário ou próximo disso. Acho que a última vez que tive tanto tempo disponível – e com tanta regularidade – para conviver foi nos tempos da faculdade, já lá vão quase dez anos. Aí sim, parecia que uma pessoa tinha todo o tempo do mundo. Depois, quando se é atirado para a vida adulta a sério, o trabalho (ou a procura) consume demasiado tempo e energia e também há sempre outras coisas que é preciso fazer.

Passamos dos amigos para a questão das relações amorosas. As séries funcionam muito à base de dramas entre casais. É uma parte muito significativa do enredo da maioria das séries. Quase todos os personagens estão numa relação, procuram desesperadamente uma ou então não vivem sem sexo, mesmo que vivam perfeitamente sem a parte do compromisso. Ainda são muito poucos os personagens que não terminam uma série com alguém ao lado deles. Os finais felizes dos personagens ainda passam muito pelos relacionamentos amorosos. Até o Sheldon Cooper de The Big Bang Theory, um dos personagens fictícios mais averso a relacionamentos de sempre, ficou com Amy no final. Ok, a minha adorada Evil Queen, regenerada como Good Queen, de Once Upon a Time teve um final feliz que em nada teve a ver com um homem e sim com um grande crescimento pessoal que a permitiu tornar-se uma pessoa muito melhor, mas foi uma de poucas exceções.

É certo que as séries se calhar tentam dar ao espectador aquilo que eles não têm na vida real. Percebo o apelo e também não sou totalmente alheia a ele: quem é que não queria ter uma casa gira ou um apartamento com estilo, um emprego que lhe enchesse as medidas e amigos à volta? A questão é que se calhar poderiam ser explorados personagens e histórias um bocadinho diferentes. As crianças da vida real são fofas, mas também são chatas e não têm todas uma grande maturidade, os adolescentes da vida real têm espinhas na cara e não parecem modelos vestidos com roupas que seriam mais adequadas para uma saída especial do que para ir para a escola e os adultos da vida real provavelmente preocupam-se mais com as contas para pagar, com a conquista da sua independência, do que com namoros complicados que está à vista que nunca poderiam funcionar. Há pessoas que são solteiras, que não se importam com isso e que assim permanecem toda a vida.

Drama é interessante, mas às vezes é demais. Grey’s Anatomy é o exemplo perfeito nesse departamento. Quer dizer, Meredith quase morreu afogada, conheceu duas meias-irmãs com quem nunca tinha tido qualquer contacto, sobreviveu a um tiroteio, a um acidente de avião, morreu-lhe o marido, a irmã, a mãe e o pai, sendo que os progenitores a negligenciaram em criança e não fizeram melhor quando ela cresceu, foi ainda brutalmente atacada no trabalho, sofreu um aborto… Esquecendo as outras coisas, que serão bastante mais frequentes, é pouco provável uma pessoa estar envolvida num tiroteio ou num acidente de avião, quanto mais nas duas coisas, juntamente com mais um rol de desgraças.

Não resisto a terminar isto com uma questão que é muitas vezes explorada nos sites de entretenimento: como é que, nalgumas das cidades mais caras do mundo, personagens com trabalhos mal pagos vivem em apartamentos altamente cuja renda custaria, no mínimo, os olhos da cara?

Diana Sampaio