A experiência bissexual é algo bastante específico e complexo, com particularidades que divergem de pessoa para pessoa, mas que se consegue sempre espelhar no sentimento de não-pertença ou inadequação. Não quero dizer, com isto, que estes sentimentos não sejam experienciados por todas as pessoas que não se identificam como cis-hetero, mas há especificidades na experiência/vivência bissexual que dificilmente são percebidas por aqueles que apenas sentem atração por um dos géneros. 

Heterossexuais e homossexuais ambos se sentem atraídos por um género, não tendo qualquer interesse pelos restantes. É-lhes, portanto, estranha – no sentido de lhes ser estrangeira/desconhecida – a noção de sentir atração sexual e romântica por mais do que um género. Digo isto, não para passar a ideia de qualquer superior opressão a pessoas bissexuais (pelo contrário, há um privilégio muito importante na possibilidade de um se esconder por detrás da atração pelo sexo oposto), mas sim porque tudo isto pode explicar o porquê de ser tão difícil encontrar boa representação bissexual nas séries e conteúdos adjacentes. 

“Bicuriosa”, “gosto de experimentar”, “fase na universidade”, “heterofléxivel”, “gay no armário”, “eu apaixono-me por almas não por genitais”, “não gosto de rótulos” são algumas das frases que me lembro de ouvir durante a minha infância e adolescência como forma de personagens, que agora sei serem bissexuais, se auto-descreverem. O medo de usar a palavra “bissexual”, que de certo tem as suas raízes no constante apagamento dessa sexualidade na própria sociedade e em todos os estigmas a ela associados, é algo que só tenho visto dissipar-se de forma significativa recentemente. 

Personagens como Annalise Keating (How to Get Away With Murder), Kat Edison (The Bold Type), Rosa Diaz (Brooklyn Nine Nine), Robert Sugden (Emmerdale) ou Petra Solano (Jane The Virgin) são das muito poucas que ouvi usar a palavra B-I-S-S-E-X-U-A-L, e todos o fizeram há muito pouco tempo. E vocês poderiam dizer: “Se as personagens mostram claramente atração por mais do que um género, então para que é preciso a palavra, se é óbvio?”

 

A palavra é precisa, pois, tal como Kat disse em The Bold Type, esta cria um espaço concreto, definido por uma série de características que permitem às pessoas perceber o que são, criar uma identidade, que possam depois explorar, dar nome aos seus sentimentos e, acima de tudo, encontrar uma comunidade. Deixar as personagens ficarem-se pelo “eu apaixono-me por personalidades, não pelo que elas têm entre as pernas” é frustrante e perigoso. A bissexualidade é ainda tão pouco clara nas restantes comunidades exatamente porque a pouca representação mediática que temos se recusa a usar a palavra, preferindo usar frases feitas que nem sequer definem uma sexualidade, mas apenas diferentes preferências de cada um no que toca à forma como se relacionam humanamente entre si, e não à sua orientação sexual. 

 

 

Sem o nome, é impossível haver uma conversa concreta sobre o que significa ser bi, levando a estigmas e equívocos. Ideias como: os bissexuais estão ainda a decidir o que são, estão confusos, é uma fase até perceberem se são “carne ou peixe”, querem atenção de todos porque um só género não lhes chega, entre outros preconceitos verdadeiramente humilhantes e depreciativos. É preciso dizer “bissexual” e é preciso também, sempre que possível, explicar ou mostrar o que isso realmente é.

Eu sei que aqui no Séries da TV não se costuma falar de novelas, mas eu nunca poderia escrever esta crónica sem mencionar a minha personagem bissexual favorita de todos os tempos, e personagem favorita em geral: Robert Sugden de Emmerdale, uma novela britânica. Ele tem a cena de coming out mais impactante que já vi, no que toca à experiência bissexual em concreto. Fá-lo em conversa (ou discussão) com o namorado (Aaron), quando este diz que as pessoas vão sempre achar que têm uma chance com ele. Robert responde com “Porquê? Porque sou bi?!” e é aí, pela primeira vez, que a personagem se auto-identifica como bi, depois de anos a dizer simplesmente “eu sou hétero” ou “eu não sou gay”. Esta afirmação depois dá azo a uma conversa super realista entre os dois, que destoa das cenas de coming out usuais que parecem mais uma palestra sobre o assunto do que uma confissão sentimental. Aaron, enquanto homem gay, não compreende o que é ser bi e faz uma série de perguntas ofensivas e ignorantes, mas que são o espelho do que muita gente (inclusive na comunidade LGBT) ainda pensa. Os dois acabam por ter um heart-to-heart em que Robert lhe conta o porquê de ter reprimido a sua sexualidade durante tanto tempo (ele tinha 30 anos nesta altura). Para mim, foi a cena mais realista que vi até hoje de um coming out de alguém bi. 

 

 

Muitas vezes outras cenas parecem demasiado fofinhas, ou atuam demasiado como “momentos de ensino” para serem realistas. Isso não é propriamente algo mau, e já é muito bom se existir esse momento de qualquer forma, mas realmente, ver essa cena em Emmerdale (e isto aconteceu em 2016, antes de Kat, Annalise, Rosa ou Petra), foi um abrir de olhos do quão desligada da realidade a representação bi que tinha visto até então tinha sido. E isto aconteceu numa novela britânica, a mais conservadora de todas as novelas britânicas, ou seja, o último sítio onde eu estava à espera de encontrar a personagem bi mais bem criada de sempre. Robert não é só a sua (bi)sexualidade, tem rios e rios e rios de backstory aliada à sua personagem e à sua personalidade e grande parte da repressão da sua sexualidade não veio sequer da vergonha de gostar de homens, mas de outros problemas e expectativas criadas nele pelo ambiente em que cresceu. A partir desta cena vemos Robert mencionar cada vez mais, com orgulho, a sua orientação sexual, corrigindo sempre qualquer pessoa que diga que ele é gay, fazendo piadas sobre o que é ser bi, e acima de tudo, refutando todos os estereótipos que Aaron, e outros, associam à bissexualidade. Fá-lo, sempre, de um modo que flui, que não parece tão fortemente “scripted” como conversas sobre sexualidade noutros programas, e é isso que eu valorizo tanto nele enquanto representação. 

 

 

Depois de Robert, vi Rosa, Kat, Annalise e Petra todas assumirem a sua bissexualidade, e constatei que finalmente aos poucos os escritores e guionistas ganhavam coragem para por os “pontos nos Is”, ao mesmo tempo que crescia também, pelo mundo das séries, o número de personagens claramente bi ou pan que nunca chegavam a usar qualquer uma dessas etiquetas.  O percurso de Annalise, em concreto, até ao coming out tem muitas parecenças com o de Robert, na medida em que demoraram muitos anos a assumir/perceber a sua sexualidade, o que é totalmente realista, exatamente pelo facto da bissexualidade ser tão mal representada e pobremente discutida que uma pessoa bi, se não estiver exposta à comunidade LGBT, demora séculos a perceber a sua identidade. Tanto Robert como Annalise são personagens principais e ICÓNICAS no mundo da televisão (e quem por acaso conhecer o mundo das novelas britânicas irá concordar comigo nisso), complexas, multifacetadas, e que são tão mais do que a sua orientação sexual, ainda que esta seja fulcral no seu desenvolvimento enquanto pessoas. 

 

 

É arrepiante saber que duas das minhas personagens favoritas são bissexuais, out and proud, e sempre que penso nisso quase que me belisco para ter a certeza de que é verdade. O mundo da TV demorou algum tempo a chegar a este ponto, e ainda há muitas personagens claramente bis que se recusam a usar esse título, quando na vida real o fariam sem qualquer problema, mas o progresso feito tem sido bastante positivo. Acredito que daqui para a frente veremos mais e mais personagens identificarem-se enquanto bissexuais, deixando para trás todas aquelas expressões irritantes que tanto se usavam no passado. E pessoas como eu deixarão de ter de se contentar com personagens secundárias “heteroflexíveis”, encontrando a sua representatividade cada vez mais em personagens principais e bem construídas.  

Francisca Tinoco