Bem, obrigada à minha amiga que teve a gentileza de me fornecer a password dela da Netflix para eu poder finalmente ver algumas coisas que já algum tempo estavam na minha watch list. Trinkets, por acaso, não estava na minha lista há muito tempo, mas o facto de já ter o final anunciado e os episódios emitidos até agora serem poucos levou-me a começar por ela. As séries de adolescentes não me costumam cativar por aí além, mas gosto de espreitar o que anda por aí e Trinkets foi uma agradável surpresa, podem crer.

[Contém spoilers]

1 – A amizade de Elodie, Tabitha e Moe: As três personagens principais não podiam ser mais diferentes, mas a verdade é que a relação de amizade que estas adolescentes formaram ao longo da série é muito gira de se ver. Elodie é nova na cidade, mas vai parar à escola que Tabitha e Moe frequentam. No entanto, não é aí que os laços entre elas se formam, mas sim nas reuniões dos shoplifters anónimos a que vão as três. A amizade cresce de forma gradual e as diferenças deixam de ser assim tão importantes, porque aquilo que têm em comum pode não ser muita coisa, mas é o mais importante. Nenhuma delas tem muitos amigos com quem possa contar, mas encontram umas nas outras alguém com quem gostam realmente de estar e vivem umas quantas aventuras juntas.

2 – Moe Truax: Ao início, Moe parece ser uma miúda um bocado difícil. Não que isso seja algo que me desagrada, até porque ela está longe de ser ‘difícil’ naquele sentido irritante das adolescentes mimadas, mas quando largou a máscara de alguém que não quer saber de ninguém tornou-se uma personagem mais interessante e de quem é muito fácil gostar. Para começar, tem uma relação adorável e saudável com a mãe, algo que é agradável de ver, visto que os adolescentes nas séries têm uma certa tendência para odiar os pais; depois, Moe junta uma série de características que gosto de ver numa personagem: é engraçada, tem o seu quê de sassy ao ser o tipo de rapariga que não aceita tretas dos outros e um bom coração, embora não goste de se expor demasiado aos outros porque assim evita magoar-se desnecessariamente. Fora do núcleo da amizade entre as protagonistas, Moe é a personagem que revelou ter a história mais cativante e a que me conquistou mais quando está no ecrã.

3 – Série leve, mas que aborda temas relevantes: As séries de adolescentes muitas vezes cometem o erro de serem irrelevantes para alguém que não a faixa etária para a qual são dirigidas ou então esforçam-se demasiado para incluir temas mais sérios, mas que nem sempre são abordados da melhor forma ou se adequam muito ao tom geral da narrativa. Trinkets não é nenhuma série que a crítica vá louvar pela sua genialidade, mas apesar de, no geral, ter um tom leve, não é por isso que deixa de abordar temas mais sensíveis e que vale sempre a pena discutir. Já se fizeram inquéritos aqui em Portugal que têm como objetivo revelar a forma como os adolescentes vivem os namoros e muitos deles controlam a pessoa com quem têm uma relação, quer porque violam a privacidade do outro vendo-lhe as mensagens, quer porque querem ter alguma coisa a dizer acerca do que o outro veste ou porque exigem saber onde estiveram e com quem. Numa série de adolescentes é essencial tocar nestas questões que muitos jovens desvalorizam e que encaram como normal, quando não o são. Ninguém tem o direito de exercer poder sobre o outro e a história sobre Tabitha e o seu namorado ilustra bem isto.

4 – Episódios curtos e que dão vontade de ver mais: Dou muitas vezes por mim a revirar os olhos quando vejo que uma nova série tem episódios muito grandes. Para ser sincera, prefiro ver dois episódios de meia hora do que um de 60 minutos. A maioria das séries não consegue ser interessante o suficiente para captar a atenção durante uma hora, portanto acho que mais vale apostar numa duração mais reduzida. Em Trinkets, os episódios rondam os 30 minutos e passam num instante, sendo perfeitos para uma pequena maratona. Começando a ver, a vontade de continuar está lá!

5 – A banda sonora: Ok, na maioria dos casos a banda sonora não é algo essencial que nos faz continuar a ver ou desistir de uma série. Tem a sua importância, é claro, mas não é determinante, a não ser que se trate de Glee, Nashville ou outra em que a música faz a série. Trinkets não é o tipo de série que exigiria uma banda sonora de topo, mas tem boas músicas a acompanhar a história e, melhor do que isso, conta com excelentes momentos musicais protagonizados pela cantora Kat Cunning, que dá vida a Sabine, uma cantora em ascensão e interesse amoroso de uma das protagonistas. King of Shadow e o pequeno dueto com Elodie valem a pena ser ouvidas. Há alguns momentos em que a sonoridade de Sabine me faz pensar nos Florence + the Machine e isso só tem que ser uma coisa boa.

6 – Os momentos de shoplifting: É caso para dizer “please, don’t try this at home”. Roubar é feio, mas há qualquer coisa de divertido nas cenas em que as nossas protagonistas podem ser vistas a fazer ‘desvios’ em lojas. Não sei se se deve ao facto de se ter aquele receio de que vão ser apanhadas ou se se explica por ser uma transgressão que se traduz naquela atração por tudo aquilo que é proibido. Sabemos que aquilo que estão a fazer não está certo, mas ao mesmo tempo não queremos que sejam apanhadas. Ainda antes de se tornarem amigas, foi um desafio de shoplifting que acabou por aproximá-las um bocadinho daquilo que viriam a significar umas para as outras.

7 – A série não recorre a cliffhangers forçados para nos fazer continuar a acompanhar os episódios: Detesto a sensação de acompanhar uma série e 90% do episódio me dar vontade de ficar por ali, mas depois, no final, haver algo que me deixa curiosa o suficiente para continuar. Considero essa uma forma preguiçosa de fidelizar espectadores e que acaba por não funcionar a muito longo prazo. Quando assim é, uma pessoa cansa-se de ser ‘manipulada’ e acaba por desistir. Trinkets não tem a necessidade de recorrer a esses subterfúgios porque a história é cativante, com personagens de quem não é difícil gostar e cujas relações queremos continuar a acompanhar. Que venha a 2.ª e última temporada!

Diana Sampaio