Classificação

9.9
Interpretação
9.6
Argumento
9.6
Realização
9.6
Banda Sonora

[Contém spoilers]

Uma review difícil de escrever, um episódio complicado de assistir… todos sabíamos o que nos esperava, mas não queríamos que chegasse realmente. Para quem ainda não viu, respirem fundo, enrosquem-se com companhia, ou pelo menos aconchegados, e enfrentem este episódio com esperança, pois se a família Pearson conseguiu sobreviver a isto, nós também conseguimos.

Como é que uma história que sempre soubemos que era ficção nos consegue tocar e emocionar tanto? Porquê é que personagens escritas para “entretenimento” nos transmitem sentimentos e sensações tão fortes? A resposta parece-me objetiva: há algo de muito bem feito desde o início. This Is Us é uma série com uma história muito familiar e que nos lembra em cada episódio de momentos das nossas próprias vidas. E além disso têm atores e atrizes soberbamente talentosos. Quando escrevi a review do primeiro episódio da 1.ª temporada previ que não tardaria a estarmos a torcer pelas conquistas desta família. Acho que não me enganei, os fãs criaram uma verdadeira ligação com cada um destes personagens, não uma ligação qualquer, mas uma que fica na nossa memória, nos deixa à pensar quando nos vamos deitar, que nos motiva quando estamos em baixo, que nos inspira a sermos melhores pessoas a cada dia.

A primeira personagem que me fez apaixonar por esta série foi Jack Pearson… logo ali naquele primeiro episódio quando viu luz quando a sombra se debruçou sobre a sua família, quando viu esperança quando a vida lhe colocou uma pedra no caminho. Milo Ventimiglia desde logo encarnou o espírito de Jack Pearson e tem feito um trabalho brilhante.

A alegria e positivismo de Jack face a todas as adversidades é simplesmente contagiante e os seus momentos dão uma imensa vida à série. Infelizmente, já conhecíamos pelas pistas que foram sendo deixadas que a sua morte estaria por perto; fomos conhecendo o impacto duradouro e devastador que teve nos filhos e em Rebecca, mas faltava assistirmos a como tudo aconteceu.

No episódio passado, as chamas já se haviam espalhado por toda a casa, condenando-a, mas quanto à família, Jack não deixaria que algum mal lhes acontecesse. Com a bravura e coragem que o caracteriza enfrentou as chamas para socorrer Randall e Kate dos seus respetivos quartos, engendrou artimanhas para enganar as chamas e encontrar caminho para deixar a família a salvo. Já fora da casa, um latido indicava que havia mais uma vida por salvar. E de repente, lá estava Jack a desaparecer para o interior da casa. Tudo indicava que seria ali o fim, mas depois de um momento de tensão dramática crescente, ei-lo a irromper chamuscado pela porta principal, com Louis debaixo do braço com vida e com um saco cheio “do que importava”. E conhecendo Jack como já o conhecemos, o que importava não era nada de material, eram nada mais nada menos que memórias: álbuns e até a cassete que gravara na véspera, de Kate a cantar. Tinha-se salvado o mais importante, o amor daquela família estava intacto, o que ruíra era “apenas” uma casa. Ganhámos também nós, enquanto espectadores, o alento para acreditar que aquela noite poderia não ser a noite fatídica… mas subitamente, e quando tudo parecia resolvido, o cenário mudou, já no hospital, e momentos após Rebecca ter dado um simples ‘até já’ a Jac,k que estava aparentemente bem, a recuperar-se da enorme quantidade de fumo que inalou, a “máquina parou”, o seu coração deu de si, de um modo irreversível. O choque e a negação que se apoderaram de Rebecca eram o espelho da crueldade da dura realidade. O quadro daquela família tão querida estava irremediavelmente incompleto. E seguiu-se mais um momento implacável para uma mãe, anunciar aos seus filhos adolescentes que tinham perdido o pai, comunicar, como Rebecca disse, o arruinar da vida deles. E Rebecca provou ser também ela uma mulher de armas, enchendo-se de força para apoiar os filhos naquele momento de dor. Só uma pessoa saberia como consolá-los a todos naquele momento e era justamente a pessoa cuja ausência causava tamanha mágoa.

Foi uma morte heroica, pelo melhor dos propósitos, salvar a sua família. Poder-se-ia dizer que é a morte que qualquer herói mereceria, para fazer jus ao carácter e bravura da personagem, mas a verdade é que nenhum herói deveria morrer… e um pai tão especial merecia ter podido fazer parte da vida adulta dos seus filhos e preservar o romance que o unia a Rebecca. E nós que adorámos cada uma das cenas de Jack com cada um dos seus filhos, as suas conversas a puxar o ego de Kate para cima, a dar lições de vida aos pequenos Randall e Kevin, não seria genial ter em cena Milo Ventimiglia com “os seus filhos adultos”? Parece-me que sim!

No presente assistimos a “um dia de Superbowl”, que é o mesmo que dizer um aniversário da morte de Jack Pearson. Rebecca mantém a sua rotina de ter um dia mais reservado, afastada de Miguel, no qual cozinha a lasanha preferida de Jack e assiste ao jogo relembrando os bons velhos tempos. Kate aproveita o dia para rever a cassete que o pai salvou das chamas e que ficou como uma última boa e poderosa lembrança. Kevin tem uma rotina mais de negação, tentando esquecer de que data se trata, mas neste ano decide adotar uma postura diferente: vai até à “árvore do pai”, onde terá ocorrido o funeral, para desabafar, pedir desculpa e, sobretudo, deixar a promessa de que vai melhorar e vai deixar o pai orgulhoso do homem em que se irá tornar, acabando por assistir ao jogo com a mãe e fazendo o papel do enviado de Jack, como se este estivesse a “puxar os cordelinhos” para consolá-los e apaziguar aquele vazio. Por fim, Randall vê as coisas de uma perspetiva mais positiva, celebrando a vida e o amor de ser pai, aspirando a seguir o exemplo deixado por Jack. No final podemos ver um Randall já com uma certa idade e uma Beth adulta a trabalhar num orfanato e a quem foram passados valores bem característicos do seu pai Randall e do seu avô Jack.

Confesso que não foi um dos meus episódios preferidos, faltou Jack para nos alegrar a todos. E espero que a série o mantenha regular e que possamos visitar muitas memórias felizes, porque, não obstante o presente, que tem muito a explorar, e personagens de quem gostamos com certeza, Jack Pearson é grande parte de This Is Us e um dos maiores responsáveis por esta ser uma série tão especial.

André Borrego