Classificação

8
Interpretação
7
Argumento
7.5
Realização
8
Banda Sonora

[Contém spoilers]

Temporada: 1

Número de episódios: 10

Foi no passado dia 15 de junho que Cruel Summer, a mais recente aposta do canal americano Freeform, chegou ao final da sua 1.ª temporada. A ação desta história de suspense tem lugar em Skylin, uma tranquila cidade do estado do Texas que é abalada pelo misterioso desaparecimento de Kate Wallis (Olivia Holt), uma adolescente adorada por todos. Esta situação complica-se quando Jeanette Turner (Chiara Aurelia), outro membro desta pequena comunidade, se vê implicada no caso, tornando-se rapidamente na pessoa mais odiada não só de Skylin, mas do seu país.

Cruel Summer desfruta de uma narrativa dividida em três linhas temporais distintas, sendo que cada episódio desta temporada decompõe a sua ação entre os anos de 1993, 1994 e, por fim, 1995. É uma decisão ousada por parte da série, surgindo como um fator diferenciador que acaba por compensar o esforço que requer, não só em termos argumentativos, mas também no que diz respeito à sua realização. De facto, Cruel Summer faz um excelente trabalho ao conferir a cada um destes anos o seu próprio tom, acentuando suas diferenças e levando assim a que a audiência seja capaz de acompanhar com facilidade a história a ser contada, tanto no que concerne aos acontecimentos de cada ano, como no contexto geral.

Antes de partirmos para reflexões sobre as várias personagens desta série e os seus papéis no grande esquema narrativo, temos de fazer um pequeno aviso. A verdade é que entrámos em Cruel Summer com a expectativa de desvendar o mistério de Kate aos poucos, mas não esperávamos que a série retivesse a maioria dos seus segredos até ao terço final desta temporada. De início, pensámos que este seria um processo gradual, mas grande parte dos capítulos iniciais de Cruel Summer são passados a conhecer as suas personagens titulares, as suas vidas familiares e os seus amigos mais próximos. De certa forma, a série apresenta-nos a todo um conjunto de possíveis conspiradores antes sequer de nos contar o que aconteceu ao certo. Em retrospetiva, não vemos esta decisão como um ponto negativo, mas reconhecemos que esta expectativa por nós criada veio a influenciar o modo como nos relacionámos com o início da temporada, sendo que a experiência que é assistir a esta série melhorou ao deixarmos de esperar respostas a cada novo episódio.

Falemos, então, sobre as nossas personagens principais. De um lado temos Kate Wallis, uma jovem popular que se distancia de outras iterações desta personagem-tipo, tratando-se de uma rapariga genuinamente doce, amada por todos os que têm o prazer de a vir a conhecer. Ainda que, a uma primeira vista, a vida de Kate pareça idílica, não tardamos a perceber que muito se esconde por detrás da virtuosa imagem que a sua família procura transmitir à pequena comunidade. Num lado oposto temos Jeanette Turner, uma jovem desengonçada que tende a passar despercebida em Skylin. Apesar de ter a sorte de poder contar com uma família unida e amigos leais, Jeanette ambiciona mais, acabando por se apoderar da vida de Kate após o seu desaparecimento. Esta sua decisão não vem sem o seu preço, custando à personagem muito mais do que esta inicialmente esperava.

Estas são as personagens que fazem com que Cruel Summer funcione enquanto série, pelo que temos a destacar não só a forma como foram escritas, como também (e, talvez, de modo mais importante) o desempenho das atrizes que lhes dão vida. Foi bastante agradável ver Olivia Holt neste novo registo, em muito diferente à sua prestação enquanto Tandy Bowen em Marvel’s Cloak and Dagger. A vulnerabilidade e inocência que confere a Kate não passam despercebidas, em especial quando contrastadas com a dureza da personagem na timeline mais recente. Também Chiara Aurelia merece os devidos louvores, tendo produzido uma excelente personagem em Jeanette Turner. Sem termo de comparação, sendo este o nosso primeiro encontro com a atriz, podemos dizer com toda a segurança que Chiara deixa a sua marca na série, navegando com naturalidade a ténue linha entre a ingenuidade e a conivência.

Estão assim lançadas as bases para um bom mistério, no qual ambas as protagonistas procuram mudar a realidade pouco satisfatória em que se encontram. Segue-se toda uma história repleta de voltas e reviravoltas, de mentiras, presunções e até mesmo memórias mal colocadas, que transmite à audiência a noção de estar perante duas narradoras nas quais não pode confiar. Sendo este o caso, a verdadeira chave para resolver este complicado puzzle no qual nos encontramos reside na intuição do espectador, que terá de decidir, com base na informação ao seu dispor, se pretende tomar o partido de Jeanette ou de Kate.

Além do destaque dado a ambas as protagonistas, a série foca-se também bastante no trio de amigos composto por Jeanette, Vincent e Mallory. O grupo começa como um conjunto de outcasts que tenta sobreviver às peripécias do secundário quando não tem conexões próximas com os adolescentes mais populares. A partir das interações entre os três, começamos a perceber que Jeanette, em particular, age de forma falsa e egoísta, saindo um pouco da imagem de underdog inocente e angelical que estamos habituados a ver representada em televisão. Sabemos que Mallory também não teve sempre as atitudes mais corretas, principalmente quando passa a adorar Kate (quando, previamente, a odiava) sem explicação aparente. No entanto (e, pelo que percebemos, esta não é uma opinião popular), consideramos que Jeanette teve as piores atitudes, já que a vemos por várias ocasiões a deixar os seus amigos pendurados, tudo por uns breves momentos de popularidade e para se aproximar da vida de Kate Wallis. Jeanette usa por várias vezes a manipulação para convencer as pessoas mais próximas de que são as culpadas da sua situação e dos seus problemas, acabando por afastar quem estava do seu lado.

Em relação a Kate e Martin, seu professor, a representação de grooming nesta dinâmica foi feita de forma completamente diferente do que é costume vermos em televisão. Foi extremamente desconfortável e perturbador assistir às estratégias usadas por estes predadores para atrair menores e como estes lhes conseguem manipular o pensamento, de forma a parecer que ambas as partes estão numa relação normal e consensual. No entanto e este torna-se o ponto principal , a série é capaz de mostrar claramente quem é a vítima na situação, tanto pelo uso de flashbacks, onde conseguimos identificar a manipulação subtil, como também pelas conversas posteriores de Kate com a sua terapeuta, que explica abertamente o controlo a que a protagonista foi sujeita por parte de Harris. Esta abordagem, ao contrário das usadas em séries mais antigas como Pretty Little Liars, é um progresso gigante para a televisão destinada a adolescentes e jovens adultos, já que expõe os perigos do grooming ao invés de os romantizar, como acontecia, por exemplo, com as personagens de Aria e Ezra.

Como série destinada a uma faixa etária mais jovem, o que se esperaria era que os adultos ligados à vida das protagonistas não tivessem um papel muito relevante na história. Na verdade, não é o caso com este drama. A partir de várias interações de Kate e Jeanette com as suas respetivas famílias, vamos lentamente subindo a cortina que acaba por revelar bastante acerca da personalidade das nossas protagonistas. A pressão a que Kate é sujeita pela sua família disfuncional (principalmente por parte da mãe) acaba por levar a jovem a tomar decisões irracionais, de forma a obter esse amor e aceitação que faltam em casa. É interessante notar, contudo, que Jeanette (que aparenta ter uma família mais normal) acaba por também ser influenciada por certas ações da parte dos pais. Por exemplo, a discórdia entre os dois e o facto de o pai ser cego quanto às atitudes da sua filha são fatores que contribuem para um certo egoísmo e manipulação que Jeanette apresenta durante a temporada.

No que diz respeito às personagens secundárias desta série, existe uma narrativa que se destaca de entre todas as outras. Uma história que Cruel Summer teve o cuidado de explorar foi a da relação entre Ben e Vincent, um casal gay e birracial durante os anos 90, no Texas. A série não teve medo de mostrar os desafios que uma relação como aquela enfrentava durante este tempo, expondo os medos e a insegurança que uma sociedade racista e homofóbica alimenta. Quando Vincent se desilude com Ben por este não querer tornar a relação pública, estamos a assistir às consequências da sociedade e não tanto aos desejos pessoais das personagens. Apesar de não serem o centro das atenções da série, achamos que o arco narrativo cumpriu o seu papel e ficamos com curiosidade em descobrir se sempre acabam juntos porque realmente gostamos muito da dinâmica deles.

Em suma, Cruel Summer surge como uma boa representante do género em que se insere, mostrando-se capaz de subverter expectativas e estereótipos geralmente associados a dramas adolescentes. Conta com um elenco forte ao qual se aliam um bom argumento, realização e, é claro, uma excelente banda sonora, que convergem de modo a transportar-nos de volta à década na qual esta série tem lugar. É o tipo de entretenimento perfeito para o verão que se aproxima, pelo que recomendamos uma sessão de binge com os amigos e muitos snacks à mistura.

Acabamos esta review com a notícia da renovação da série para 2.ª temporada! Pelo que sabemos, ainda não está definido qual será o rumo desta nova temporada se continuará a seguir os eventos da primeira ou se será uma antologia, seguindo novas personagens e novos mistérios. Achamos que esta última opção talvez seja a mais adequada, pois apesar de ainda haver algumas pontas soltas na história que seriam interessantes de explorar, não sabemos se será o suficiente para cobrir uma temporada inteira. Com o maior mistério já resolvido, seria apenas uma temporada a lidar com as consequências da última revelação. Temos receio que esta ideia não seja sólida o suficiente, mas também estamos dispostas a ser surpreendidas, caso os escritores sigam este rumo.

Se tens interesse em espreitar Cruel Summer, poderás fazê-lo já a partir do dia 6 de agosto na plataforma de streaming Amazon Prime Video.

Melhor episódio:

Episódio 9 – A Secret of My Own Ainda que a season finale desta série seja uma forte concorrente a esta posição, o episódio que a antecede destaca-se de todos os restantes. A Secret of My Own revela os segredos e memórias reprimidas do tempo passado por Kate na companhia de Martin Harris, colocando em primeiro plano a sua relação disfuncional. Trata-se de um dos episódios mais difíceis de assistir de toda a temporada, mostrando, em detalhe, a manipulação levada a cabo por Harris e o desespero de uma jovem Kate, que se apercebe demasiado tarde da seriedade da situação em que se encontra. É o único capítulo da temporada cuja ação se estende ao longo de vários meses, desde o momento em que Kate foge de casa até se ver livre do seu captor, e causa uma crescente sensação de desconforto na audiência que, graças aos episódios anteriores, sabe exatamente qual é o final desta história.

Personagem de destaque:

Kate Wallis – Conforme podem ter percebido pela forma como fomos abordando as nossas personagens principais, nutrimos um carinho particular por Kate. Apesar de ser a vítima de Cruel Summer, não só às mãos de Harris mas também por parte da sua própria família, Kate conseguiu encontrar em si a força para escapar às situações em que se encontrou, recusando-se a viver sob qualquer forma de abuso. É uma protagonista pela qual torcemos, com problemas aos quais qualquer pessoa se pode relacionar, e é esta sua humanidade que a torna a personagem de destaque desta 1.ª temporada.

Ana Oliveira e Inês Salvado