Classificação

10
Interpretação
8
Argumento
10
Realização

Temporada: 4

Episódios: 10

[Contém spoilers]

O problema de séries que têm como base um específico ambiente/tom é que quando este muda, por força da progressão da história e das personagens, poderá deixar alguns espectadores para trás. É o caso da 4.ª temporada de The Handmaid’s Tale? Foi The Wilderness um final satisfatório para um arco que descolou a meio da temporada?

As temporadas anteriores desta saga deixaram algo bem claro: The Handmaid’s Tale não se pode dar ao luxo de engonhar e muito menos de repetir lugares-comuns. June não pode estar sempre a fugir, ser capturada e voltar ao uniforme. Depois de bater no fundo no que toca à esperança de um final feliz, ansiando e pedindo pela morte libertadora, foi surpreendente que a segunda metade da temporada tenha passado pelo Canadá. Ainda mais surpreendente, para mim, é que tenha ficado lá. Estava constantemente à espera de vê-la de mochila aos ombros, a caminhar para lá da fronteira, para enfrentar a tempestade e resgatar Hannah.

No entanto, há duas personagens que é preciso explorar. Não se pode ter Joseph Fiennes e Yvonne Strahovski no elenco e não lhes dar uso. Individualmente (ou em duo), Fred e Serena não são interessantes há algum tempo, ainda assim têm um último suspiro deprimente para largar: um em forma de criança e outro em vingança. Isto explica parte do foco longe de Gilead, a outra é uma necessidade de reacender o fogo de June.

Esta 4.ª temporada de The Handmaid’s Tale explora bem a estranheza da protagonista em voltar ao mundo livre, mas mostra principalmente a divisão entre as diferentes versões da protagonista. A June que foi raptada teria ficado feliz com a bênção da liberdade e com a luta incessante por Hannah, já Offred, parida à força num mundo de homens maus, não consegue ultrapassar ou esquecer. Líder da resistência dá lugar a líder de milícia pela justiça. O final é o epítome dessa transformação/afirmação/evolução.

A única razão, no entanto, para isto ter resultado é só Elisabeth Moss. Num episódio em que não se passou nada de especial, ela sacou daqueles berros à Serena, terminando com “Do you understand me?”. Os arrepios na espinha, a espetacularidade do peso do momento, capturado pela câmara com a mestria que reconhecemos, tudo é excelente. Mesmo que nem sempre os episódios sejam recompensadores ou justifiquem a hora de duração, há sempre “beleza”, emoção e interpretação a nível galáctico. Quando a isto adiciono o que a atriz fez na realização (principalmente no terceiro episódio), faltam palavras para descrever a excelência. Exposto tudo isto, estaria a ignorar uma parte do público se não apontasse uma saturação que a série pode estar já a provocar. Não sei qual a ideia original de duração ao nível de temporadas, mas compreendo quem possa já estar a pedir um final para ontem. Pessoalmente, continua a fazer-me comichão a falta de química com Nick e continua a haver uma inércia em largar arcos que já deviam ter partido (como Moira, por muito que goste de Samira Wiley).

Agora que Fred só pode incomodar como fantasma, o que sobra? Derrubar Gilead? Serena? Lydia? Conseguirá The Handmaid’s Tale tirar mais algo de valor da cartola e manter-se fiel? Considerando o talento envolvido, não duvido que seja muito bom, mas será Handmaid’s?

A viagem até então tem sido a fuga de June de um inferno, mas recapitulemos os atos nestes dez episódios: incentivou a morte de um guarda às mãos de Mrs. Keyes, orquestrou um pequeno genocídio no bordel através de Daisy e finalmente o  linchamento de Fred, arrastando Emily para o ato. Se a isto adicionarmos a violação a Luke e até as ameaças a Mark, começam a haver muitos argumentos para pensar em June como, pelo menos, uma anti-heroína. Se é catártico para a personagem e para nós vermos o fim de Fred ao som de You Don’t Own Me? Claro que sim, mas não muda a decadência moral da personagem. Pergunto-me se a 5.ª temporada não mostra um abandono completo de bons contra maus, mas o fim da viagem de uma mulher em busca da vingança. Custe o que custar.

Nos momentos finais fica uma June manchada aos olhos de Luke. Consciente disto, e talvez lembrando todas as vezes que se manchou de sangue na temporada, diz que se vai embora após abraçar a filha. Não tenho qualquer suspeita para onde caminha a série agora e isso é entusiasmante. É adequado ver que a epopeia começou com June a fugir no bosque e agora parte com outra perseguição no mesmo cenário. Uma marcando o início da prisão e outra o fim. O futuro é incerto, mas não me parece que a história esteja sem leme porque continua a haver significado nas cenas.

Pessoalmente, e talvez estranhamente, sinto-me mais otimista quanto ao futuro que no início da temporada porque a série provou que consegue nadar tanto em água salgada como em água doce. Para isso contribui o ter-me “deslargado” do tom original da série. Esta é a viagem de June, da handmaid, não das handmaids. Apesar de ser consensual que a série não conseguirá reproduzir a surpresa e mestria da 1.ª temporada, a verdade é que nos piores momentos é, ainda assim, melhor que grande parte do conteúdo televisivo no ar. Apesar das pedras no caminho, arcos bons e arcos maus, o balanço final é sempre bastante positivo.

Depois desta 4.ª temporada, vais ficar para a viagem seguinte de The Handmaid’s Tale?

Personagem de destaque:

June Osborne – Seria completamente criminoso não ser June/Elisabeth, por tudo o que já referi. Ainda assim, aproveito para destacar a fantástica performance de O.T. Fagbenle e a consolidação de Janine (Madeline Brewer) como fan favorite. Aconteça o que acontecer, a única certeza no final da história tem de ser a sobrevivência de Janine.

Melhor episódio:

Episódio 3 – The Crossing A temporada teve duas partes, sendo o terceiro episódio e este finale os pontos altos. Apesar de ter gostado de The Wilderness, em que passei o episódio a pensar se June ia matar Fred com o copo, por envenenamento do whisky ou um tiro no aeroporto, a escolha recai ainda assim sobre o terceiro episódio. Não foi porque a surpresa do final estragou-se com June a olhar para Moira e Luke à janela (percebendo-se a sua partida), ou sequer por nos privarem de Serena a abrir o envelope endereçado a ela. Escolho o terceiro episódio pela enorme carga emocional, mestria da realização e um final emocionante.

Vítor Rodrigues