Classificação

8
Interpretação
7
Argumento
7
Realização
7
Banda Sonora

[Contém spoilers!]

Temporada: 2

Número de episódios: 10

Everything’s Gonna Be Okay regressou com uma 2.ª temporada que me relembrou o porquê de ter continuado a ver a série após o seu piloto. A principal razão que dei para dares uma oportunidade ao piloto foi Kayla Cromer, que interpreta Matilda. Adicionalmente a ser uma atriz com autismo a representar alguém no espectro, é a primeira atriz, de sempre, com autismo a representar uma personagem principal no espectro. Daí ser relevante que as pessoas acompanhem a série, para que tal deixe de ser impressionante e passe a ser recorrente. Obviamente, este facto não funciona só por si, mas não te preocupes, não é representação forçada, é algo que ocorre da forma mais natural possível, sem qualquer agenda evidente. Matilda é uma personagem muito importante na televisão, pois para além de quebrar múltiplos estereótipos relativamente ao autismo, também introduz uma vertente interseccional com a sua jornada pela sexualidade, casando com uma mulher, ainda que sem atração sexual por mulheres, apenas por homens. Já a mulher com quem casa, Drea, também é autista e é assexual. Portanto, a nível de representatividade e diversidade de personagens, podes ver que esta série faz a sua parte. Aliás, o facto de duas mulheres autistas se casarem na série é parte do seu plano para provarem à família e a elas mesmas que embora seja difícil serem independentes de forma individual, juntas conseguem fazê-lo mais facilmente.

Adicionalmente, no final desta temporada, Nicholas é também diagnosticado como autista, o que coincide com o facto de em 2021 o ator que interpreta o personagem, Josh Thomas, também ter anunciado via Instagram que tinha recebido esse diagnóstico. Se relativamente a Matilda e Drea, os espectadores pareceram felizes e satisfeitos, o mesmo não se pode dizer relativamente a Nicholas. Toda a temporada foi marcada por problemas amorosos entre o protagonista e Alex. Ao mesmo tempo que vemos Matilda e Genevieve a aceitar Alex na família, vemos Nicholas a não ser o namorado ideal. E, no final, ele chega a dizer que não irá mudar nada no seu comportamento. E porquê? Porque não pode nem quer, por ser autista. Muitos espectadores temem que este tipo de representação possa ferir mais do que ajudar. Ainda assim, como temos Matilda para estabelecer uma contramedida, tal não me deixou muito preocupada.

Por fim, Genevieve está cada vez mais adulta e bem precisa, pois os seus dois irmãos estão a viver períodos atribulados das suas vidas amorosas, pelo que convém haver uma voz da razão. Confesso que os enredos dela foram os que menos me cativaram. Ainda assim, a personagem e a atriz já ganharam um espaço que não tinham no meu coração.

A nível de narrativa, a série acabou por pecar um pouco, pois começou por adotar o contexto de pandemia, num episódio ou outro perdeu o mesmo sem qualquer justificação e, de repente, num episódio seguinte já havia máscaras de novo. Fora estas descontinuidades, tal como fui escrevendo, o desenvolvimento das personagens trouxe novos elementos ao ecrã, sempre de forma descontraída e que nos agarra do princípio ao fim. Everything’s Gonna Be Okay é, sobretudo, uma produção feita de momentos e preocupada com a escrita das suas personagens. A série continua relevante socialmente e consegue ser leve, dinâmica e original. Esperemos ter uma 3.ª temporada!

Melhor episódio:

Regal Jumping Spider (02×06) – Foi dos episódios mais divertidos, seja pela estadia de Matilda e Drea na cabana, em que é possível ver que gostam muito uma da outra, seja pelo encontro que Genevieve teve com Oscar – que, para além de muito constrangedor, foi também muito realista no que toca a primeiros encontros de adolescentes.

Personagem de destaque:

Matilda (Kayla Cromer) – Matilda é uma adolescente autista que muito diverge do que a televisão nos habituou a nível de personagens com autismo, já que é bastante faladora e social. Esta personagem acaba por dar uma importante representação a pessoas que estão no espectro, pois permite fugir ao estereótipo que por vezes é criado e ampliar o sentimento de conexão que possam sentir com uma personagem. E, claro está, o facto de a atriz pertencer a este grupo é extremamente positivo e inspirador.

Ana Leandro