Classificação

9
Interpretação
9.5
Realização
8.5
Argumento
9.5
Banda Sonora

Temporada: 2

Episódios: 10

[Não contém spoilers]

A escritora mais desconhecida/famosa do mundo está de regresso para uma 2.ª temporada, com o seu look retro e mentalidade de millennial. Terá esta segunda edição dado mais profundidade à poesia da série?

Dickinson regressa para uma 2.ª temporada, acima de tudo, mais “amadurecida”. Não necessariamente mais madura em avanços significativos da narrativa, maturidade das personagens ou profundas alterações de comportamento, mas na capacidade de saber o que quer transmitir ao espectador. Como quem faz all-in numa aposta que sabe ser segura. Para isso muito contribui uma Hailee Steinfeld que é basicamente tudo o que a personagem, e todos os envolvidos nesta série, podiam desejar: a imaturidade para brincar e a capacidade para o drama em dose certa, que convence e agarra. A jovem atriz não precisa de convencer nada nem ninguém há  já algum tempo, uma vez que o seu nome já não suscita dúvidas, mas com Dickinson sente-se que pode “brincar” com uma liberdade que lhe assenta bem. O argumento explora-a, o elenco secundário apoia-a e eleva-a e a cinematografia dá o toque especial que torna tudo irreverente. Uma excelente simbiose.

Continuamos a ter momentos em que a série agarra termos modernos e brinca com eles, catapultando-nos para fora dos costumes vitorianos. Continuamos a ter também os momentos de fantasia, mas sem nunca perder o terreno de drama interpessoal. O look é um complemento para o drama e não um substituto ou recompensa.

A grande temática da temporada é a fama, o que ela significa e o que estamos dispostos a sacrificar para beneficiar dela. Emily quer muito que a reconheçam, mas, em simultâneo, não quer perder a melancolia e os sentimentos que dominam e alimentam a sua arte. A maneira como o dilema a tortura e impacta as suas relações dá asas a que muitos arcos se entrelacem e muitos estilos se cruzem. Quando a escrita é inteligente e divertida, torna-se mais fácil. Esta é sem dúvida uma temporada de maior sofrimento numa série que precisa constantemente de se mexer para sobreviver.

A 3.ª temporada, já garantida, promete uma nova descida no poço dramático, com a Guerra Civil a avizinhar-se. A série terá, mais do que nunca, de balancear muito bem o divertido e o dramático. Até agora tem sido exímia nesse aspeto, pelo que não há por que duvidar que conseguirá manter o feito. Para além das torturas internas de Emily, na verdade, todos os arcos interessam-me muito: a irreverência de Lavinia (Anna Baryshnikov), a procura de um lugar próprio de Austin (Adrian Enscoe), os traumas e a procura incessante de amor de Sue (Ella Hunt), a maneira como a mãe de Emily lida com tudo isto (a excelente Jane Krakowski, que nunca aparece tempo suficiente) e o seu marido (Toby Huss), que vagueia entre o alienado e o preocupado com tudo o que gravita em torno da sua família. Estaria a ser muito injusto se não mencionasse o squad de jovens atores que estão sempre presentes nas festas e derivados. Fazem parte da alma da série. As participações especiais da temporada também merecem destaque: não só Will Pullen como a personificação da fama ou Finn Jones como catalisador dessa ambicionada fama.

Dickinson, seja por ser uma série de época, por passar na Apple TV+ ou simplesmente porque há demasiado para ver, continua a passar debaixo dos radares de muita gente. Ainda que com todo o drama e fantasia que lhe corre nas veias, é uma série profundamente feel good que se devora com muita facilidade.

Melhor Episódio:

Episódio 8I’m Nobody! Who Are You? – Poderia destacar o excelente sexto episódio na ópera, o divertidíssimo sétimo em que as meninas descontraem num ‘spa’, mas irei talvez salientar aquele em que a autora está invisível para o mundo. Apenas porque vemos todos os aspetos da série num pacote completo: comédia, fantasia, banda sonora (a cena no celeiro!) e drama. Um episódio cheio de momentos de introspeção e de revelações que lançam o final da temporada.

Personagem de Destaque:

Lavinia Dickinson – Destacar Emily seria chover no molhado, por isso prefiro destacar a infalível Lavinia. Sempre de língua afiada e com comportamento irreverente (longe da “dona de casa” da 1.ª temporada), pronta a servir de apoio à irmã enquanto se destaca por mérito próprio. Nunca me irei cansar de rever aquela cena de “sedução” no quarto. Anna Baryshnikov é uma pérola!

Vítor Rodrigues