Classificação

6
Interpretação
4
Argumento
4
Realização
6
Banda Sonora

[Contém spoilers!]

Temporada: 1

Número de Episódios: 6

A 1.ª temporada de COBRA, que estreou no ano passado na Sky One, foi agora transmitida em Portugal pela RTP2, tendo ontem, dia 28, sido transmitido o último episódio da mesma. A série acompanha o primeiro-ministro britânico e os restantes membros do Governo, enquanto estes tentam gerir o país durante uma grave crise energética, causada por uma tempestade solar.

O ponto de partida da narrativa fazia antever uma de duas coisas: ou a temática da série seria bem explorada, dando-nos um conjunto de seis episódios bem conseguidos a nível de argumento, ou poderia cair no erro de exagerar as consequências desta crise. Veredito: creio que nenhuma das opções se adequa verdadeiramente àquilo que a série se revelou ser, tendo eu própria dificuldades em expressar uma opinião concreta em relação à mesma.

A série concentra-se na ação do Governo e no comportamento da população após uma tempestade solar, que faz com que o país fique sem eletricidade. Esta falha de eletricidade dura pouco tempo em algumas zonas, mas na chamada “zona vermelha” esta demorará mais tempo a ser resolvida, sendo necessário a importação de um transformador que vem do estrangeiro.

COBRA foi filmada e transmitida antes desta pandemia e da invasão ao Capitólio, nos EUA, mas é impossível vê-la sem fazer comparações. Todo o mundo está a passar por uma situação de crise e os governos de vários países estão sob o escrutínio da população. Sendo uns mais bem sucedidos do que outros, a verdade é que todos eles estão numa situação inédita e que necessita que sejam tomadas medidas, que nem sempre podem ser bem aceites ou bem tomadas. O que acontece na série britânica é isso mesmo, o Governo tem de tomar medidas, que nem sempre são bem aceites pela população ou são muito demoradas.

Um dos aspetos da série que mais me tem inquietado é a questão do exagero. E passo a explicar. Ao analisarmos a série, não podemos deixar de destacar a importância que o grupo “Justiça Popular” teve em atiçar os ânimos da população já descontente, levando a um ambiente de anarquia na chamada zona vermelha, e não só. A facilidade com que este grupo controla um grande número de pessoas e consegue invadir instalações protegidas pela polícia é assustador. Aliás, eu diria que esta é a palavra que melhor descreve a série. E é assustador porquê? Porque, como já referi, podendo a série ter caído no erro de ter exagerado nestas representações, se virmos isto aos olhos do que se passa hoje em várias partes do mundo e ainda mais da invasão do Capitólio, percebemos que se calhar a série não exagerou, mas sim fez uma representação fiel das consequências desta crise.

A voz de uma só pessoa pode levar centenas ou mesmo milhares de outras pessoas descontentes a ter comportamentos violentos, como forma de se revoltarem. Uma das personagens que poderia ter sido considerada um incentivador destes comportamentos é o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Archie, desempenhado de forma exemplar por David Haig. Os seus jogos de poder para tentar derrubar o primeiro-ministro e apoderar-se do seu lugar não têm limites, mesmo que tente fazer parecer o contrário com as suas ações, para ganhar o apoio do povo. Mais uma vez, “assustador”, pois temos alguém no Governo a incentivar a revolução popular, ao mesmo tempo que não se interessa pelo bem-estar das pessoas, mas sim pela sua sede de poder.

Em paralelo com a narrativa da crise, existe também uma narrativa mais pessoal, que nos leva a refletir sobre a justiça e os cargos de poder e também a ética. A melhor amiga da filha do primeiro-ministro morre depois de estas terem feito uma “festa”, em que tomaram várias drogas, sendo que foi ela quem forneceu as substâncias. Há uma tentativa por parte dos pais e de Peter Mott, o assessor de imprensa, de atirar as culpas para cima da falecida. No início, eles conseguem fazê-lo, mas Ellie acaba por revelar a verdade, por culpa. Há obstrução da justiça por membros do Governo, e ainda mais grave, pelo primeiro-ministro, mas estes acabarão por sair impunes. Outros membros do mesmo Governo, mais uma vez, Archie, estão mais interessados em que isso se saiba para proveito próprio do que por uma questão de justiça. O escândalo que eles quiseram abafar foi tornado público, mas, antes de mais, estas pessoas deviam ser vistas como um ser humano como todos os outros e não ser privilegiados de forma alguma.

Ainda no mesmo tema, a série aborda uma questão bastante relevante nos dias de hoje, que são as redes sociais como fonte de ódio e as consequências que isso pode ter para uma pessoa. Todos os comentários maldosos que foram feitos não tiveram em conta que Ellie era uma cidadã como todas as outras, tendo tido a (in)felicidade de ser filha do primeiro-ministro e que sempre quis agir de forma correta, mas que foi incentivada a não o fazer para evitar o escândalo. Um tema abordado aqui com o caso de uma figura pública, mas que serve de exemplo para qualquer pessoa que se senta atrás de um computador e critica sem saber a realidade do seu alvo.

Em geral, achei o argumento mediano, que poderia ter sido melhor explorado, não caindo no erro de abordar aqui a questão dos imigrantes e do racismo, que, apesar de ser um tema importante nos dias de hoje, pareceu-me que foi encaixado à força. Não fiquei grande fã da realização, havia alguns planos em que a câmara se deslocava enquanto os atores estavam a falar de que não gostei nada e não me pareceu que aquela abordagem fosse relevante para a narrativa. Tenho, no entanto, de sublinhar que este movimento de câmara na cena em que Robert, o primeiro-ministro, está a tentar consolar a filha em casa foi muito bem conseguido e ajudou a transmitir as emoções da cena.

O desempenho dos atores também foi mediano, tendo ficado um pouco desiludida com a prestação de Robert Carlyle, que dava vida ao primeiro-ministro. Para quem não sabe, Carlyle fez de Rumplestiltskin em Once Upon a Time, a minha personagem preferida da série e muito por mérito do ator, mas em COBRA, não consegui ver o Robert, a maior parte das vezes só conseguia ver a personagem do conto de fadas. Houve até uma cena em que ele faz um gesto com a mão igualzinho ao da sua personagem em Once Upon a Time e algumas das expressões e formas de falar também me remetiam para ela. Não desfazendo o seu mérito como ator, achei que esta não foi, de todo, a sua melhor interpretação.

Resumindo, a 1.ª temporada de COBRA retrata um cenário assustador das consequências da privação de um bem essencial à sociedade e das repercussões que isso teria para um determinado grupo populacional, assim como a resposta do Governo a essa crise, não conseguindo, no entanto, concretizá-lo de forma realista, nem plausível, utilizando o exagero como protagonista de toda a narrativa.

Melhor Episódio:

Episódio 5: Neste episódio há algumas cenas determinantes para esta 1.ª temporada de COBRA, mas o que realmente tenho a destacar neste episódio é a tensão da cena final, em que o primeiro-ministro tem de decidir se dá autorização para uma abordagem mais violenta dos militares ou não. Esta será, talvez, a cena mais bem conseguida de toda a temporada e merece, por si só, destaque.

Personagem de destaque:

Anna (Victoria Hamilton) – Anna é o braço-direito do primeiro-ministro e um elemento importante (se não mesmo o mais importante) em toda a narrativa. Anna é a personagem mais bem conseguida, mais interessante e mais plausível em toda a 1.ª temporada de COBRA. A televisão precisa de personagens femininas fortes e bem estruturadas e, mesmo não sendo a protagonista da história, Anna consegue prender a atenção do telespectador sempre que aparece no ecrã, muito devendo-se também à atriz, que desempenhou o papel de forma notável.

Cláudia Bilé