Bonding – Review da 2.ª Temporada
| 27 Jan, 2021

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[Não contém spoilers]

Temporada: 2

Episódios: 8

A 2.ª temporada de Bonding chegou à Netflix e como não podia deixar de ser, até porque estamos em período de confinamento geral e não há muito mais a fazer com os tempos livres, ataquei-a de uma ponta a outra em dois tempos.

Como provavelmente sabem, se leram algo sobre a série ou a review da 1.ª temporada de Bonding, esta apesar de geralmente bem recebida, recebeu críticas contraditórias de diversas dominatrix profissionais, muitas delas negativas. Estas críticas negativas referiam-se sobretudo a várias aspetos mal conseguidos e até desleixados no que diz respeito à forma como a série retrata a realidade BDSM e as dominatrix em particular. Na altura, o realizador, Rightor Doyle, cujas vivências pessoais como segurança de uma dominatrix estiveram na inspiração da série, não se acobardou nem fez ouvidos moucos e respondeu pelas questões mais problemáticas referidas sobre a temporada e que revelaram um fraco entendimento das nuances da profissão, dizendo que iria ter todo o criticismo em conta e que se lhe fosse “dada a oportunidade de fazer mais”, teria “muito gosto em convidar mais pessoas para a discussão de modo a aprofundar e enriquecer o nosso conhecimento sobre o mundo”.

Bem, o que é certo é que lhe foi dada essa oportunidade e ele fez precisamente o que disse que ia fazer.

Se há alguma coisa que se nota bem nesta temporada é precisamente a preocupação de abordar vários, se não todos, os principais tópicos pelos quais a 1.ª temporada foi criticada e educar-nos um pouco mais a nós também sobre as coisas que o próprio realizador e equipa associada aprenderam com esse criticismo. E conseguiram isso de uma forma bastante humilde e que não só não prejudicou a série, como acho que lhe deu mais profundidade e realismo.

Tiff, na 1.ª temporada a dominatrix super independente e emancipada (profissionalmente pelo menos), regressa a uma posição de aprendiz depois do erro grave que cometeu no final da 1.ª temporada, ao aceitar um trabalho em casa de um novo cliente sem antes lhe ter feito um “background check” completo, o que resultou numa situação muito perigosa para Tiff e Pete, que por sorte lá conseguiram escapar. Colocando Tiff nesta posição de aprendiz, sobre a alçada de uma muito mais experiente dominatrix, Mistress Mira, a série consegue, de uma forma bastante natural, ir corrigindo e educando sobre todos os erros que cometeu no início, desde ter colocado erradamente uma coleira (sinal de submissão) numa dominatrix, aos espartilhos demasiado grandes para o tamanho de Tiff, passando por diversas cenas que tentam mostrar um pouco melhor a realidade, responsabilidade e desafios destas profissionais. Mas sem dúvida que a cena principal foi a autocrítica do realizador na cena em que Tiff confronta Pete sob o facto de ele não querer saber da profissão e apenas utilizar o seu trabalho com Tiff para de lá tirar piadas para a sua carreira como comediante.

Passando à narrativa da temporada, a série continua com alguma dificuldade em introduzir personagens secundárias de valor. À exceção de Doug, que já na temporada passada tinha sido a única personagem secundária a ganhar alguma tridimensionalidade, e de Mistress Mira, que surpreendeu, todas as restantes personagens, mesmo as que vêm já da 1.ª temporada, como Josh, Frank ou Chelsea, acabam por ser muito indiferentes para quem vê. Nem percebi bem o propósito de trazerem esta última à temporada só para uma cena que, embora importante por falar da desconexão que muitas mulheres têm com a sua própria sexualidade e prazer físico, pareceu bastante desapegada do resto da história; que nem aquele episódio de Stranger Things em que Eleven conhece outras pessoas com poderes, mas isso depois é completamente ignorado e não tem praticamente relevância para os episódios e temporada seguintes.

Esta 2.ª temporada de Bonding é menos exploratória e peculiar que a maioria da primeira, focando-se em vez disso muito mais em explorar as vidas e dramas pessoais e profissionais de Tiff e Pete, o que a meu ver não foi nada negativo. A novidade e estranheza dos kinks sexuais já nos tinha sido introduzida na 1.ª temporada, pelo que se esta tivesse continuado muito no mesmo registo, penso que não teria sido um ponto a favor e iria falhar em ambas as medidas. A segunda consegue assim revelar um pouco mais sobre este mundo e aprofundar com conta e medida a história e complexidade dos protagonistas e mostrar-nos algum tão necessário crescimento destes, em especial de Tiff.

Melhor Episódio:

Episódio 3 – Personal – A escolha deste episódio recai simplesmente no facto de ter dois momentos que para mim são dos melhores da temporada: a cena de pintura do grupo de suporte MENtal de Doug, em que este é confrontado com a sua própria misoginia subconsciente por outro elemento do grupo; e em especial a cena em que Rolph, Frank e Pete partilham um dos raros, mas maravilhosos momentos de reflexão profunda e fragilidade emocional de Frank.

Personagem de Destaque:

Frank – Simplesmente porque adorei a reflexão de Frank no episódio acima e apetecia-me abraçá-lo. Este é um personagem introduzido sobretudo para ser o idiota desmedido que faz coisas sem pensar muito bem nelas, mas que acaba por ter momentos bastante preciosos como este. “Tudo parece empolgante quando achamos que nos vai mudar. (…) Como preenches um espaço em ti que está vazio por tua causa?” Good point, Frank, good point!

Mélanie Costa

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