Classificação

8.5
Interpretação
8
Argumento
8
Realização
8
Banda Sonora

[Contém spoilers]

Temporada: 3

Número de episódios: 20

Tal como o nome indica, The Good Doctor é uma série sobre médicos e, em especial, sobre Shaun Murphy (Freddie Highmore), um jovem cirurgião com autismo e síndrome do savantismo que se muda de uma vida tranquila no campo para começar a trabalhar na unidade cirúrgica de um hospital de prestígio. Embora esta premissa esteja correta, é muito mais alusiva às primeiras duas temporadas. A série tem vindo a crescer naquilo que oferece ao espectador. Se antes a única preocupação era ver como Shaun iria triunfar na sua missão de ser um bom médico, agora acresceram outras componentes como a sua vida amorosa. Isto é sem dúvida um aspeto positivo desta temporada, pois vemos mais desenvolvimento da personagem, que se torna mais complexa – agora se as decisões tomadas em relação a isso foram as melhores… Já falaremos disso.

Outro coisa é certa: se na 1.ª temporada ficámos agarrados ao ecrã por Shaun, nesta 3.ª já não é bem assim. Conseguiram fazer um ótimo trabalho em dar a conhecer aos pouquinhos cada personagem e a sua história. Ansiamos cada episódio para saber mais sobre Claire, Neil, Park, Morgan e mesmo Glassman e Lim. E não nos interpretem mal, embora seja bom sentir conexão com estas personagens também é muito mau quando temos de nos despedir delas. Se já tinha sido triste quando Jared deixou o hospital, não há palavras para descrever o vazio que sentimos quando percebemos que o Dr. Melendez não só deixara o hospital como… morrera. Mesmo a escrever, ainda não acreditamos que fizeram isto. Que foi inesperado foi, mas necessário? Não concordamos. Até pensámos que fosse o ator que quisesse abandonar o projeto, mas segundo entrevistas foi uma decisão criativa. Receamos que a série vá perder bastante com a saída de Nicholas Gonzalez.

Falando no nosso protagonista e nas relações que ele estabeleceu com os restantes. Embora tivesse sido das temporadas em que menos interação existiu entre Shaun e Glassman, consideramos que tenha sido perfeito. Finalmente são amigos e muito mais independentes um do outro, dando espaço a cada um para crescer, sem nunca deixar de estar lá nos momentos difíceis. Quanto ao triângulo amoroso: há muito que a série aponta para uma união entre Shaun e Lea (tal como apontava para Melendez e Claire). Embora não tivessem a melhor química do mundo, foi interessante ver Shaun e Carly como casal, especialmente para percebermos como o protagonista explora a intimidade e sexualidade. Sempre com muitos desafios pela frente, Shaun consegue, ao fim de alguns episódios, controlar melhor o que sente e estar mais à vontade.

No entanto, ao longo da temporada há vários sinais de alerta para esta relação. Seja o funeral do pai do Shaun (momento bastante emotivo também), seja toda a questão dos ciúmes de Carly. Quando já está confortável com Carly, apercebemo-nos que já o tinha conseguido antes com Lea – talvez desde que a conheceu. Por nós até aqui está tudo bem. Onde começamos a torcer o nariz é quando Lea dá para trás a Shaun inúmeras vezes, sendo que na maioria delas afirma que não tem capacidade emocional para estar com alguém autista. Shaun passa-se completamente da cabeça e pensa até em partir-lhe o carro, acabando apenas por gritar com ela dizendo-lhe milhares de coisas más. Ok, aqui morreu qualquer esperança de uma relação entre os dois, certo? Pois, não. No episódio final, de forma muito cliché, Lea apercebe-se que Shaun é tudo o que ela sonhou e que lhe acrescenta algo, tornando-a melhor… Por favor. Ambos devem ter batido com a cabeça durante o sismo e algo não ficou a regular muito bem.

Claire foi um dos grandes focos desta temporada. O regresso da sua mãe deixava adivinhar tempos atribulados, mas, mais uma vez, a sua morte abrupta não foi previsível. Parece que os argumentistas tomaram a decisão de fazer sofrer todas as personagens. A partir daqui, Claire entrou numa espiral de emoções negativas que certamente a teriam levado à auto-destruição não fosse ter-se aproximado de Melendez. Sejamos sinceros: desde a 1.ª temporada que todos esperávamos que Melendaire acontecesse. Sim, muitos havia que gostavam de Melendez e de Lim juntos, e atenção, eles até faziam um parzinho engraçado, mas a sua química não se comparava minimamente à de Neil e Claire. Esperamos que a próxima temporada traga algo de bom à jovem médica, porque isto foi sofrimento a mais para apenas 20 episódios.

Também Morgan teve a sua quota parte de desilusão. A personagem nunca puxou muito pela empatia na temporada anterior, mas nesta tivemos oportunidade de conhecer um pouco do seu passado e do seu contexto, o que nos permitiu gostar mais dela. É certo que Morgan é egoísta, narcisista e competitiva, mas não merecia que o seu sonho lhe fosse retirado por uma doença que não pode impedir. O seu sacrifício na season finale foi tocante. Afinal de contas, tem um lado altruísta em si. Contudo, o que significará isso para o futuro da personagem na série? Será mais uma despedida ou irão encontrar uma cura milagrosa? Se assim for, então a morte de Melendez tem ainda menos sentido, porque se têm soluções para outros casos tão ou mais graves, também teriam para salvá-lo. Ainda que não tão impactante como Melendez, o Dr. Park também parece que nos vai deixar para estar mais próximo da família. Ficámos tristes, mas como os dois últimos episódios foram tão fortes emocionalmente e carregados de acontecimentos, talvez não tenha tido o devido impacto.

The Good Doctor é uma série de médicos, mas não é só mais uma série de médicos. Apresentou-se como um drama que teria como protagonista um cirurgião prodígio com autismo, uma doença ainda tão incompreendida por tantos, mas revelou-se ser muito mais do que isso. Ao longo das três temporadas, o argumento evolui e hoje podemos ver uma série que traz às luzes da ribalta assuntos bastante relevantes para a atualidade, que dá um fantástico character development ao protagonista e que, simultaneamente, eleva as restantes personagens fazendo-nos gostar tanto delas que vê-las partir é verdadeiramente triste. Venha a 4.ª temporada e que seja tão boa ou melhor do que esta!
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Melhor Episódio:

Episódio 19 – Hurt – Não é a primeira vez que The Good Doctor utiliza a fórmula de dividir um episódio em dois, deixando-nos com o desfecho insatisfatório e que resulta tão bem, pois queremos que chegue a semana seguinte o mais rapidamente possível. Já na 2.ª temporada criaram um cenário completamente caótico de quarentena no hospital que funcionou muito bem. Desta vez escolheram fazê-lo no penúltimo episódio, com um terramoto que causa grande destruição num bar, e não poderia ter sido melhor escolha. Ainda que o último episódio da temporada tenha sido qualquer coisa de especial e bastante emotivo, este brilhou por toda a tensão que conseguiu construir e na maneira como moldou o percurso de cada personagem, que se refletiu na season finale.
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Personagem de Destaque:

Dr. Neil Melendez (Nicholas Gonzalez) – O Dr. Melendez não entrou nesta série com o melhor pé. Inicialmente era um dos que duvidava das capacidades de Shaun e isso, de certa forma, fez com que não sentíssemos imediatamente empatia para com ele. Contudo, o seu percurso em The Good Doctor não se pode caracterizar por outras palavras que não as de “desenvolvimento de personagem”. Neil passou de um médico respeitado com um ego um pouco grande demais que é deixado pela noiva a alguém que ouve e confia nos seus aprendizes e que os tenta ensinar da melhor forma. Estas ações são particularmente visíveis nesta temporada, fazendo dele uma das personagens mais acarinhadas pelos fãs, a quem, sem dúvida, vai deixar saudades.

Ana Leandro e Beatriz Caetano