Classificação

10
Interpretação
9.7
Argumento
10
Realização
10
Banda Sonora

Temporada: 3

Número de episódios: 10

[Contém spoilers]

Depois de quase dois anos de espera, The Crown está finalmente de volta! E no palácio de Buckingham o tempo também passou desde a última temporada. Podemos agora assistir ao período desde o início dos anos 60 até ao Jubileu da Rainha, em 1977.

Vamos começar pelo assunto mais controverso – a mudança de elenco. Confesso que estava bastante apreensiva e especialmente triste por ver o elenco anterior sair, principalmente a maravilhosa Claire Foy como Rainha, que na minha opinião aperfeiçoou aquele papel até à perfeição. Chegou ao ponto de eu ver a verdadeira Rainha Elizabeth II na televisão e ser capaz de ver a cara de Claire e ouvir a sua voz a representar. Agora, com a temporada finalizada, apesar de sentir alguma nostalgia pelo elenco das primeiras temporadas, devo dizer que o novo me conseguiu convencer.

Olivia Colman, a quem foi passado o testemunho de Claire Foy, é, sem grandes surpresas, incrível a representar este papel. Apesar de eu estar inicialmente reticente, já que compreensivelmente a atriz não teve o tempo que Claire teve para aperfeiçoar os maneirismos e detalhes da Rainha, Olivia consegue trazer o lado mais maduro da personagem, apropriado à sua idade. Nesta temporada, a Rainha revela um lado mais frio e ponderado, próprio das acrescidas responsabilidades do seu cargo, mas é várias vezes  confrontada com a sua falta de emoções. Olivia consegue mostrar estes dois lados muito bem. A outra “substituição” de um papel principal foi para Philip, agora representado por Tobias Menzies, que foi mesmo escolhido a dedo! A caracterização está fantástica, parecendo mesmo o Philip real. Os maneirismos estão também no ponto.

Nesta temporada somos apresentados à Princesa Margaret, agora interpretada por Helena Bonham Carter, que também brilha neste papel. Vemos uma fase mais complicada na sua relação com Tony e como esse escândalo afetou a família real. Adorei o episódio dedicado a esta história e deixou-me a desejar por mais. Achei que a Margaret teve muito pouco foco esta temporada, o que é uma pena porque não só a atriz foi mal aproveitada, como conhecemos menos da personagem, que pessoalmente é das minhas favoritas. Espero que haja mais destaque na próxima temporada.

Por fim, temos a estreia dos, agora muito mais crescidos, irmãos Príncipe Charles (Josh O’Connor) e Princesa Anne (Erin Doherty), ambas personagens muito interessantes, que deram uma dinâmica diferente e mais jovem à série. Adorei o destaque que foi dado às diferenças na vida dos dois irmãos. Charles, como futuro rei, tem uma pressão muito grande em cima dele, é constantemente obrigado a participar em cerimónias e os familiares estão constantemente a decidir a sua vida. Podemos ver principalmente isto quando se intrometem na sua relação com Camilla Shand, que representa o ponto máximo da tensão criada ao longo da temporada entre Charles e a família real. Um dos meus episódios favoritos é o episódio onde Charles vai estudar para o País de Gales, por ser um momento em que Charles descobre a sua voz, aproveita a experiência para crescer, realmente conhece pessoas diferentes do seu ambiente e acaba por ir contra o que é esperado dele por parte da família real. Já Anne tem uma experiência muito diferente. Pelo facto de ser mulher e não ser sucessora do trono, Anne tem bastante mais liberdade e é uma pessoa muito menos tradicional que o resto da sua família, sendo mais parecida em termos de personalidade com a Princesa Margaret, do que com Elizabeth. Um dos momentos mais marcantes para mim, além de Anne ser a comic relief da série, foi quando esta confessa a Charles que desejava que a família exercesse mais pressão sobre ela, pois isso significaria que se importavam. Apesar de Anne não ter muito destaque em comparação com Charles, os escritores conseguiram trazer complexidade à sua personagem. Tal como a Margaret, espero que haja mais Anne em breve!

Gostei de conhecer todas estas personagens gradualmente, pois nesta temporada cada episódio é dedicado a um acontecimento marcante na vida da família real, ao invés de haver uma história com uma linha temporal definida. Quase que podíamos ver os episódios fora de ordem que não iria importar. E penso que desta forma somos capazes de conhecer as personagens uma a uma, já que cada episódio tem foco em alguém diferente. Apesar de adorar a Rainha como personagem principal, admirei imenso esta decisão e as personagens que no passado eram secundárias, acabaram por se tornar nas minhas personagens favoritas, como é o caso de Charles e de Anne. A mãe de Philip, que infelizmente aparece em muito poucos episódios, foi dos pontos altos desta temporada.

Resumidamente, The Crown continua com um nível de qualidade excelente, aliando um elenco fantástico com novas personagens e relações, e retratando os momentos mais marcantes da história da família real e do Reino Unido. Estou ansiosa para na próxima temporada conhecermos a história da Princesa Diana e espero que possamos continuar a conhecer melhor estas personagens mais secundárias, mas tão relevantes para a história da Coroa.

 

Melhor Episódio:

Episódio 3 – Aberfan Houve vários episódios memoráveis nesta temporada mas Aberfan é daqueles que eu vou recordar para sempre como um dos melhores episódios que vi em televisão. O episódio retrata o desastre na vila de Aberfan, quando uma mina de carvão desaba sobre a vila, caindo principalmente em cima de uma escola e matando centenas de crianças. O episódio fez-me um pouco lembrar Chernobyl, pela representação de um desastre que afeta tanta gente e como é que os políticos e pessoas influentes lidam com a situação. A Rainha neste episódio é confrontada com a sua frieza e acaba com um close-up que me deu arrepios. Só essa cena já devia dar direito a um Emmy para The Crown e para Olivia Colman.

 

Personagem de destaque:

Príncipe Charles (Josh O’Connor) – Além de ser incrivelmente parecido com o Charles real, esta personagem revoluciona um pouco a dinâmica da série. Podemos ver a pressão que lhe é imposta por ser sucessor do trono (é sempre engraçado pensar que isso era muito mais provável quando dito em 1970, do que em 2019), e a forma como isso o afeta na sua vida pessoal, social e romântica. Foi muito interessante conhecer o Charles fora da dinâmica da família e a sua relação conflituosa com a Rainha. É uma personagem bastante complexa, mas também bastante influenciável, o que torna sempre as suas ações imprevisíveis. Espero que seja uma personagem ainda mais explorada na próxima temporada.

Ana Oliveira