Criminal – Review da 1.ª Temporada
| 26 Set, 2019

[Pode conter spoilers]

Criminal é uma série original Netflix que se pode dizer que contém quatro minisséries dentro dela: Criminal: UK, Criminal: Spain, Criminal: France e Criminal: Germany. Ao contrário das outras séries, nesta nós podemos escolher por qual queremos começar, não havendo um episódio piloto, mas sim quatro, e não somos obrigados a ver todos os conjuntos de três episódios. Não há qualquer relação entre eles, tirando o espaço físico onde a ação decorre, sendo tudo o resto diferente: o suposto local onde a ação se passa, no Reino Unido, em Espanha, em França ou na Alemanha, a língua e as personagens. Apesar de não sermos obrigados a ver os episódios dos quatro países, é interessante ver as diferenças entre eles. Todos têm uma equipa que tem os seus próprios problemas e em cada episódio é interrogado um suspeito.

Apesar de o esquema ser o mesmo, cada país tem as suas próprias características e em cada um sobressaiu uma coisa diferente. Por essa razão, vou analisar cada uma destas minisséries separadamente, mas fazendo, sempre que ache relevante, a comparação com as outras. Por esta razão, esta review será um pouco diferente das outras, tendo atribuído uma classificação para cada um dos Criminal e no canto superior esquerdo poderão ver a soma de todas essas classificações, dando assim uma classificação global da série.

O mais importante na série são as interpretações dos atores, pois é nelas que a série se baseia, não há lutas, músicas, efeitos especiais, nem artifícios que lhe valham e nisso pode-se dizer que todos os atores fizeram um excelente trabalho. Personagens muito bem trabalhadas e desempenhadas com excelência por todos os membros do elenco!

Uma coisa comum a todas as minisséries é terem mulheres nas chefias, mulheres com personalidades fortes, um facto que poderia ter passado despercebido a muita gente, mas que é muito importante nos dias de hoje, nesta luta pela igualdade e pela presença de mais mulheres em cargos de topo e de grande importância.

Criminal: UK

Esta foi a primeira série que vi. O primeiro suspeito a ser interrogado, o Dr. Edgar Fallon, é interpretado por David Tennant, ator conhecido por ter sido protagonista na série Doctor Who. A história era previsível. Desde o início que suspeitei de qual era a verdadeira razão do crime e de quem o tinha cometido, por isso neste campo não houve surpresas. Contudo, a forma como conduziram o interrogatório até chegar à verdade foi bastante bem escrita.

O segundo suspeito a ser interrogado foi Stacey Doyle e, mais uma vez, previ desde o início o que tinha realmente acontecido. Excelente interpretação de Hayley Atwell, a atriz que interpretava Stacey, devo realçar!

No último episódio, o suspeito a ser interrogado foi Jay Malik Mouthassine e aqui temos um caso diferente, pois há sempre um conflito interno dentro da equipa, seja de que natureza for, e este é sempre resolvido (ou não) no último episódio, mas mesmo que não seja resolvido é sempre abordado de forma mais aberta. Neste episódio tivemos um caso em tempo real, ou seja, se os inspetores encontrassem um certo camião que supostamente continha migrantes, estes ainda poderiam sair de lá com vida. É durante este interrogatório que o advogado confronta Hugo Duffy, um dos inspetores, com o que tem na caneca, e é aqui que nos é revelado que Duffy tem um problema com o álcool. Este último episódio vai debruçar-se sobre este assunto na parte final, o que nos deixa também um final em aberto, pois não sabemos bem o que vai acontecer ao personagem e à equipa. Provavelmente teremos uma 2.ª temporada.

No geral, achei a minissérie com as histórias mais previsíveis, com os métodos de abordagem mais rígidos e com as relações entre os personagens mais frias e distantes.

Interpretação: 9,5

Argumento: 8,5

Realização: 9

Banda Sonora: 8

Classificação final: 8,8

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Criminal: Spain

Depois de ver Criminal: UK, vi o Spain. E há aqui uma grande diferença na forma como os personagens interagem entre si. São todos muito mais soltos e utilizam preferencialmente a forma de tratamento informal. Juntando isto à interpretação dos atores e à língua, ficamos com um ambiente mais leve do que Criminal: UK e que se espalha por todos os episódios. Isabel é a suspeita mais descontraída que vi até então. Sempre sorridente e com grande capacidade de esconder o nervosismo durante o interrogatório, só a vemos quebrar quando ameaçam abater a sua cadela para obtenção de provas. A história aqui já não foi tão previsível como as que referi anteriormente, apesar de ter conseguido adivinhar uma ou outra coisa. Uma abordagem muito mais leve e um bom episódio para descontrair um pouco do ambiente pesado da versão do Reino Unido. Mais uma vez, um excelente desempenho da atriz Carmin Machi, que interpretava a suspeita.

O segundo episódio é o único dos três que tem um carácter mais pesado. Trata-se do assassínio de uma menina com autismo e a acusada é a irmã. Desde já, excelente interpretação de Inma Cuesta, Carmen, a suspeita. Os momentos finais são bastante emocionantes e a atriz consegue fazer-nos sentir empatia com ela e raiva pelo que aconteceu. Um assunto bastante sério e o episódio tenta transmitir um pouco daquilo por que passam os cuidadores informais. Mais uma vez, consegui adivinhar, de certa forma, o que é que estava a acontecer à vítima mortal e à irmã e com o desenrolar da história foi-se adivinhando a razão do homicídio.

No terceiro episódio, o tal episódio que aborda sempre um tema ligado à equipa de investigadores, temos o caso de Carmelo, um criminoso que nunca foi preso, mas que já cometeu vários crimes. María, a inspetora-chefe, tem uma longa história com Carmelo, pois este matou um membro da família dela há vários anos e, por essa razão, ela não olha a meios para o meter na prisão durante o maior tempo possível. É neste episódio também que María acaba a relação que tinha com o estagiário vários anos mais novo do que ela e este, no fim, vinga-se dessa decisão, estragando os planos que María tinha para prender Carmelo durante mais tempo do que aquele que deveria cumprir por posse de drogas, o crime pelo qual tinha sido detido. Um interrogatório leve, ao estilo do primeiro, dando a Criminal: Spain uma carga emocional não muito pesada.

Interpretação: 8,5

Argumento: 7,5

Realização: 7

Banda Sonora: 8

Classificação final: 7,8

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Criminal: Germany

De Espanha saltei para a Alemanha, onde voltamos a ter um ambiente mais pesado, com um segredo escondido pelo inspetor-chefe Schulz, interpretado por Sylvester Groth (Dark), um homem que parece zangado com o mundo e que acha que tem de ter sempre razão.

A narrativa do primeiro episódio está escrita de forma inteligentíssima. Se alguém tiver adivinhado o desfecho do episódio que me diga, pois eu nunca teria lá chegado. Quando se tem um argumento destes e uma interpretação sem nada a apontar por parte dos atores, acho que não há mais nada a dizer. Até este momento, foi o episódio que me surpreendeu mais, pois toda a narrativa foi de génio.

O segundo episódio aborda o tema da violência doméstica sobre os homens, a vergonha que estes sentem, e o poder de um nome importante na sociedade. É muito comum vermos notícias sobre mulheres serem vítimas de violência doméstica por parte dos seus parceiros, mas também acontece o contrário, uma realidade ainda pouco falada, talvez pelo fator “vergonha”, que desempenha aqui um papel importante. Outro fator importante nestes casos, e aqui na violência doméstica em geral, é o facto de o agressor pedir sempre desculpa e dizer que aquilo não volta a acontecer e de o indivíduo agredido dizer que ama o agressor. Um tema pertinente nos dias de hoje e que ainda bem que foi abordado numa série como esta. Destaco o papel do advogado (Christian Berkel), mas penso que, até agora, o ator que teve o desempenho menos bom foi o que interpretou o suspeito neste episódio, Can Yussef (Deniz Arora).

Chegamos ao episódio final e uma condenada já há 20 anos volta à sala de interrogatórios. Schulz “reabre” um velho caso para cumprir o desejo de uma mãe moribunda. Este episódio teve uma dinâmica diferente de todos os outros. As relações entre os personagens são aqui intensificadas por interpretações sólidas por parte de todos os atores, sem qualquer exceção. Neste episódio, deparamo-nos com um argumento muito bem escrito e com interpretações de qualidade superior. Não tenho nada a apontar. Precisamos de mais disto no mundo das séries em que vivemos, episódios que primem pela excelência, e este é um bom exemplo disso.

Até agora, Criminal: Germany apresenta o conjunto de episódios mais consistentes no seu todo.

Interpretação: 9,6

Argumento: 9

Realização: 8,5

Banda Sonora: 8

Classificação final: 8,8

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Criminal: France

Já dei a minha opinião sobre o piloto anteriormente e, no geral, considero mesmo que a versão francesa foi a mais pobre de todas. Os restantes dois episódios da série melhoraram em relação ao primeiro, incluindo a interpretação da inspetora-chefe Audrey Larsen, que conseguiu igualar a qualidade dos restantes atores e presentear-nos com uma Larsen mais assertiva e segura de si. A realização também melhorou bastante, não repetindo aquela demora desnecessária num só plano sem nada a acontecer.

A história do segundo episódio foi meio previsível, pois assim que começaram a apresentar o caso, percebi logo qual a relação da vítima com a suspeita. Não achei muito interessante, mas conseguiram desenhar um fio condutor para nos levar ao desfecho do mesmo.

O último episódio foi o melhor dos três, uma história interessante, sobre um problema que continua a existir na sociedade de hoje em dia. Também consegui perceber logo que o suspeito não era exatamente quem dizia ser, mas mesmo assim a forma como toda a narrativa foi escrita conseguiu deixar-me interessada e atenta a todos os desenvolvimentos. É também neste episódio que temos a consolidação do mal-estar que existe entre os membros da equipa, o que nos deixa perceber porque é que Larsen agia da forma como agia e era posta de parte por quase toda a equipa. Além disso, temos aqui um caso de uma mulher que está numa posição de chefia e um homem visivelmente mais velho que quer muito ficar com o lugar dela. No fim do episódio, não fiquei completamente esclarecida em relação às intenções do inspetor, depois de saber que Larsen não tinha feito aquilo de que todos suspeitavam. Por momentos, quando a olha através do vidro, parece continuar a cobiçar a posição em que ela está, mas no fim do episódio mostra-se muito simpático com ela.

Criminal: France teve um final muito bom, mas acabou por se revelar a minissérie mais fraca das quatro.

Interpretação: 8

Argumento: 7

Realização: 7

Banda Sonora: 7,5

Classificação final: 7,4

.

Fazendo uma avaliação global, foi bastante interessante podermos ver quatro minisséries semelhantes, mas ao mesmo tempo diferentes, uma coisa tão simples como a forma de tratamento é capaz de dizer muito de uma cultura e isso ficou aqui provado. Cada um dos Criminal tinha as suas características e houve altos e baixos em todos, mas uma coisa todos têm em comum: conseguiram juntar um elenco de atores com a capacidade de nos impressionar pelas suas capacidades dramáticas sem precisarem de artifícios, pois é disto que esta série vive, do bom desempenho do elenco. Se assim não fosse, penso que não teríamos tido a qualidade que tivemos, independentemente do argumento e da realização. Não é preciso verem todas as minisséries, mas penso que é esta comparação entre as quatro que torna Criminal interessante.

Melhor Episódio:

Jochen – Este foi o primeiro episódio de Criminal: Germany e eu gosto muito de ser surpreendida no que toca a histórias, gosto daquela reviravolta final de que ninguém está à espera e foi o que este episódio fez. Nunca me passou pela cabeça aquele desfecho e é isso que um bom argumentista faz: quando pensamos que já desvendámos o caso, é aí que entra a cartada final e as nossas convicções vão todas por água abaixo.

Personagem de destaque:

Carmen – Ao contrário do “melhor episódio”, escolher a personagem de destaque foi mais difícil. Como já referi várias vezes, o trabalho que os atores fizeram foi inegável, pelo que foi muito difícil escolher uma personagem que se destacasse no meio de tantas tão fortes. Depois de analisar todas elas, decidi que escolheria um dos suspeitos, pois é à volta deles que o episódio se desenrola e são eles que têm de transmitir todos os sinais para que o espectador perceba o que se está a passar. Depois de reduzir a minha lista aos suspeitos, fiquei com o Dr. Edgar Fallon, com Stacey do Criminal: UK e Carmen, do Criminal: Spain. O que me fez escolher Carmen foi o facto de a atriz ter dado tanto de si à personagem que me conseguiu emocionar ao ponto de me virem as lágrimas aos olhos. Quando um ator consegue essa proeza, acho que deve ser reconhecido.

Cláudia Bilé

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