Classificação

7.3
Interpretação
6.1
Argumento
6.4
Realização
7.5
Banda Sonora

Temporada: 1

Número de episódios: 10

 

Atenção: esta review pode conter spoilers!

No passado mês de outubro, a plataforma de streaming Hulu fez-nos chegar Light As a Feather, a sua nova aposta original. A série, categorizada como um suspense sobrenatural, tem por base o livro homónimo de Zoe Aarsen e segue a vida de cinco jovens adolescentes enquanto estas lidam com as consequências sobrenaturais do inocente jogo de “light as a feather, stiff as a board” (“leve como uma pena, dura como uma tábua”). Quando as raparigas começam a morrer exatamente da forma como foi previsto no jogo, os sobreviventes têm de descobrir a razão pela qual isto está a acontecer e se a força maléfica que os está a caçar está entre eles.

Já alguma vez viram uma série que, não sendo extraordinária, não vos sai da cabeça? Uma daquelas séries que vos faz sentir algo de estranho e vos deixa a matutar sobre o assunto até terem o cérebro feito em papa? Estranhamente, foi isto que senti ao ver Light As a Feather, no mês passado. Vi a série de empreitada, numa daquelas raras tardes em que nada tinha para fazer e, quando cheguei ao fim, senti-me incomodada – não necessariamente pela história, mas por algo. Desde então que tenho pensado sobre a série e resolvi que estava na altura de escrever alguma coisa.

A grande razão pela qual resolvi ver esta série (e aquilo que considero o seu maior trunfo) é o seu elenco. Como foi mencionado pelo meu colega na review do episódio piloto de Light As a Feather, muitas das atrizes e atores que integram o elenco principal desta série têm já bastante bagagem. Desde filmes como If I Stay a séries como 13 Reasons Why e Teen Wolf, encontramos de tudo um pouco. Pessoalmente, quem me puxou para esta série foi Haley Ramm, a quem tenho vindo a seguir de perto desde a sua prestação em Chasing Life.

Posto isto, sinto-me na obrigação de defender este elenco dos comentários que tenho visto pela internet. Apesar do longo repertório de séries e filmes que cada um destes atores carrega às costas, há quem ache que este é um elenco de “maus atores”. Acho a crítica demasiado dura – não acredito, de todo, que estamos perante maus atores, mas sim perante um argumento que não permite grandes performances. Falarei disto de modo um pouco mais aprofundado daqui a pouco, mas queria apenas lançar esta ideia.

Ainda que Light As a Feather me tenha dado voltas à cabeça, houve algo que se tornou bastante claro logo de início: esta não é uma série que se possa dar ao luxo de ter temporadas extensas e ainda bem que os produtores perceberam isso. A série tem uma história engraçada, sim, mas não me parece que consiga produzir material suficiente para, digamos, vinte episódios – e isto não é algo mau! Assim, tenho que tirar o chapéu aos produtores por não esticarem demasiado a temporada (acredito que isto também tem a ver com questões orçamentais, mas ainda assim a decisão em si é um aspeto positivo).

Outra boa decisão, desta vez por parte dos argumentistas, foi deixar o final da temporada em aberto. Apesar de um início um bocado soft, a carga dramática da série começa-se a intensificar à medida que nos aproximamos do final da temporada, culminando num final aberto que, apesar de previsível, pareceu-me ser o mais acertado (até porque lança as bases para uma nova temporada). Estou emocionalmente investida nesta série? Eh. Não muito. Fiquei com vontade de ver mais uma temporada por causa deste final? Sim.

Por fim, acredito que algo que ajudou bastante a série foi o facto de todos os episódios terem saído ao mesmo tempo. Esta é, sem dúvida alguma, uma boa série para maratonas – não requer grande ginástica mental e, por ter uma temporada tão curta, torna-se na companhia ideal para uma tarde ou noite em que precisamos de algo que não implique grandes compromissos. Muito honestamente, acho que a série se teria saído muito pior se forçasse a sua audiência a ter que esperar uma semana entre episódios.

Mas, como não há bela sem senão, tenho também uma carrada de aspetos negativos a apontar à série (e sim, foram estes que me tiraram horas de sono). Se já tiveram a oportunidade de ver Light As a Feather, algumas destas críticas podem parecer óbvias – baixo orçamento, argumento que deixa algo a desejar, etc. – mas prometo que outras justificam o tempo de reflexão.

Apesar de se autointitular como série de suspense, Light As a Feather deixa muito a desejar neste departamento. Na minha opinião, a série não foi capaz de concretizar os (poucos) momentos de suspense que tentou criar no decorrer desta temporada. Isto deve-se não só ao facto de os episódios serem curtos, mas também à série não pertencer ao género de suspense. “Mas se a série é classificada como suspense, como é que podes dizer que não é uma série de suspense?” Esta foi uma dessas questões mesquinhas que me deu dores de cabeça. Isso e a quantidade de vezes que já utilizei a palavra “suspense” no decorrer deste parágrafo.

A verdade é que, apesar da sua classificação, Light As a Feather parece-me funcionar melhor como série de terror (que, como o meu colega indicou no seu artigo, de terror não tem nada). Após uma longa conversa com uma pessoa que entende mais do assunto do que eu, cheguei à conclusão que Light As a Feather “dança” com a ideia de se tornar numa série de terror sem nunca se comprometer a isso. Por um lado, percebo o porquê (o género de terror tem um mercado de nicho e é muito mais fácil e seguro lançar a série como sendo um thriller) mas, por outro, acho que a série só teria a ganhar em abraçar este seu lado. Foram várias as cenas em que desejei que Light As a Feather puxasse mais para o lado obscuro e, nesse sentido, fiquei desiludida.

Outro dos aspetos que não ajudou em nada à criação de um ambiente de suspense foi o facto de Light As a Feather nunca nos esconder as intenções de Violet. Existia algum potencial para criar um ambiente misterioso em torno da personagem, mas a série optou por colocar todas as cartas em cima da mesa ao dar-nos a entender que sim, Violet sabia exatamente o que estava a fazer e não sentia quaisquer remorsos em fazê-lo. O pior é que nem sequer o fez de forma subtil; foi sempre tudo muito in your face. Não é que tenha problemas com personagens assumidamente más, mas podiam ter adiado um pouco a revelação. Bah.

Se é verdade que a série fez bem em manter a temporada curta, o mesmo princípio não se aplica aos episódios. O tempo médio de cada episódio ronda os vinte e três minutos, incluindo a sequência de abertura e os créditos finais. Ora, como seria de esperar neste tipo de séries, a curta duração dos episódios não me pareceu ser suficiente para concretizar todas as ideias que Light As a Feather pretendeu explorar. Não permitiu a criação de momentos de suspense e dificultou a formação de qualquer laço afetivo para com as personagens. Por vezes, chegou mesmo a parecer-me que ficava a faltar algo à história que poderia ser explorado caso tivéssemos mais tempo.

Percebo que muitos destes problemas estão interligados (na verdade, foi esta a reflexão que me tomou mais tempo). Apesar de nem sempre se tornar perceptível, a série parece-me ter um orçamento relativamente baixo que, associado ao facto de se tratar de uma série para consumo web, levou à criação de episódios de curta duração que, por sua vez, facilitaram o surgimento dos restantes problemas.

Sou da opinião que Light As a Feather funcionaria melhor se mantivesse as temporadas de dez episódios, mas aumentasse o tempo dos episódios para os quarenta e cinco minutos. Gostava que se assumisse como série de terror e explorasse esse seu potencial, apesar de isto implicar uma mudança na sua audiência-alvo. São estes os meus grandes desejos para uma 2.ª temporada.

 

Melhor episódio:

Episódio 9 – …Innocent as a Lamb Este foi, sem sombra de dúvida, o meu episódio preferido desta temporada. Sem entrar em grandes detalhes, este foi o episódio que explicou não só as motivações de Violet, mas também toda a maldição em torno do jogo e respondeu a várias questões que foram surgindo durante a temporada. O episódio é contado, em grande parte, através de flashbacks que nos dão a conhecer um lado de Violet até então desconhecido e faz um bom trabalho a criar empatia para com esta personagem sem nunca desculpar as suas ações. Começa, ainda, a lançar as verdadeiras bases para a próxima temporada, que são solidificadas no episódio seguinte.

 

Personagem de destaque:

Violet Simmons – Vou ser honesta convosco: Violet não foi a personagem a quem mais me afeiçoei. Esse título pertence a McKenna (interpretada por Liana Liberato). No entanto, a verdade é que Violet se apoderou de todos os momentos em que esteve em cena e tornou-se na personagem de destaque desta temporada. Não que tivesse grandes dúvidas, mas Haley Ramm fez um excelente trabalho ao interpretar esta personagem deliciosamente malévola. Pergunto-me qual será o papel que Violet irá ter na próxima temporada, se esta chegar a existir.

Inês Salvado