Classificação

9
Interpretação
9.5
Argumento
9.5
Realização
10
Banda Sonora

[Não contém spoilers]

A 16 de agosto pôs-se o sol na RTP1 e em 30 minutos foi como se estivéssemos a respirar fogo pela cabeça de um dragão. Falamos, claramente, da líder de audiências das novelas que ainda não estrearam Pôr do Sol.

Se o conceito de mininovela nos pareceu inicialmente estranho, sem precedentes e muito menos no canal público português – conhecido pelo seu formato de grelha vertical -, ao fim do primeiro episódio é difícil já conter as lágrimas de riso. Um estranha-se e depois entranha-se, no fim adora-se é talvez a melhor forma de descrever esta novela que estará conosco todos os dias (úteis, atenção) durante os seus 16 episódios, mas que de novela convencional tem pouco. Não há cenas filler, e todas as histórias que são normalmente em formato novela, feitas de uma lenta caminhada até ao ponto-alto, ao cliffhanger, à revelação do argumento, são-nos entregues de bandeja. Pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar, tudo em menos de uma hora.

A beleza do trabalho está na condensação de todo o drama, horror e tragédia em todos os frames possíveis de aproveitar, entregue de uma forma tão natural que não há como reagir senão rir. Soltar gargalhadas pelos clichés, pelos exageros, pelas tiradas quase retiradas da boca de John Cleese nos seus tempos de Monthy Python, ou à comédia que nos é entregue lá fora na miríade de sketches do programa Saturday Night Live, que primam pela sátira no exagero – e não estamos diante um assumido formato de comédia (ao vivo ou em programa formatado para tal), o que só torna tudo mais delicioso de ver.

Há um exagero generalizado em Pôr do Sol que não é demasiado. As falas que se seguem umas às outras não dão descanso ao espectador, que ainda não teve tempo de processar o “Centro Internacional de Estudos de Cestos de Vime” e já está a levar com o “colar de São Cajó”. Mas são as consequentes punchlines (e que bem orquestradas estão) que fazem desta novela uma não-novela, longe de tudo o que já se tenha feito em Portugal. É certo que há referências nacionais e internacionais na forma como o guião está escrito e na forma como é dito, mas o conjunto de todos os fatores fazem de Pôr de Sol um produto único até à data por terras lusitanas.

Para quem viu WandaVision, decerto terá sentido a delicadeza bruta que o momento PESCAGROSSA nos trouxe. Se o paralelismo foi propositado ou não, não sabemos, mas adoramos saber que as ideias que chegam aos criativos lá fora chegam aos nossos também, e que nos fazem rir de igual forma, que nos transportam aos formatos que nos acompanharam toda a vida – tal qual a Marvel Studios fez quando nos ofereceu o trabalho em WandaVision. E se estamos a falar de pequenos ícones/frases que sempre fizeram parte do nosso crescimento, porque não gritar “Oh Elsaaaa!” várias vezes durante um episódio e transportar-nos ao que terá sido um dos mottos festivaleiros portugueses mais reproduzido por todos nós, que nem eco?

Quem acompanhar este primeiro episódio vai, com toda a certeza, identificar os momentos que tentam ser uma típica novela de quarta à noite em canal generalista: a família rica, os empregados da herdade, o amor proibido, os populares da terra. Mas a cada novo diálogo é impossível não nos desmacharmos a rir com o ridículo do que é dito e o irrealismo das situações, ainda para mais quando tudo é feito para parecer o mais credível possível. E é aí que está a verdadeira essência desta novela/não-novela/mininovela: nas novelas tradicionais também são ditas coisas estapafúrdias, sempre com seriedade; simplesmente aqui satiriza-se essa seriedade e nessa simplicidade (que não a é) faz-se algo grandioso.

São os pormenores que dão a beleza crude a este episódio que nos chegou ontem: desde os familiares interlúdios aerofilmados ao uso da quebra da quarta parede, que destaca mais uma vez este humor nonsense e nos quer pôr não só a rir mas também nos motiva a ter este olhar crítico sobre ele. Entre shots aéreos da herdade e cavalos a correr livremente sobre poças de água, há ainda espaço para uma banda sonora de outro mundo. A participação de Toy, que dá voz ao genérico de Pôr de Sol, é, talvez, a cereja no topo do bolo, ou melhor, o ramo partido deste piloto. Mas é difícil apontar um momento alto quando tudo foi tanto em tão pouco tempo. O elenco, saído diretamente do formato que aqui é alvo de sátira, os cenários, as caracterizações e a história que se começou a contar, fazem desta aposta uma grande concorrente à líder de audiências das que ainda não estrearam e das que já estrearam. Ou pelo menos devia.

Beatriz Caetano e Joana Henriques Pereira