Classificação

9
Interpretação
9
Argumento
9.5
Realização
9
Banda Sonora

[Não contém spoilers]

A Crónica dos Bons Malandros é a nova aposta da RTP para as quartas-feiras à noite. Inspirada na obra homónima de Mário Zambujal, com argumento de Mário Botequilha e realização de Jorge Paixão da Costa, a série junta um elenco de luxo numa transposição incrível do maior assalto fictício dos anos 80 para a televisão do ano 2020.

Por cá, estamos extremamente habituados a um conteúdo televisivo de abordagem lenta, longos takes de paisagem, minutos e minutos a fio na mesma cena para criar aquele drama mais estilo telenovela. No entanto, a Crónica dos Bons Malandros serve-nos uma refeição diferente com este Episódio 1. A passagem de cena para cena é bastante ritmada, leviana, fácil de consumir – tal e qual um “carril de frango” (vão perceber a referência depois de verem o piloto). A banda sonora em muito contribui para esta sensação fast paced, bastante diferente do que temos visto nas últimas séries lançadas pelo canal. Mesmo nas cenas mais paradas, há sempre uma composição musical por trás que não deixa o espectador relaxar no sofá.

Como alguns membros do elenco principal da série explicaram ao Séries da TV em entrevista, cada um dos oito episódios da série será dedicado individualmente a contextualizar a história dos sete assaltantes. O último episódio será então o grande desfecho, onde se descobrirá se os malandros conseguiram cumprir o objetivo ou não – roubar as joias Lalique do Museu Calouste Gulbenkian. Neste piloto da Crónica dos Bons Malandros, intitulado simplesmente Episódio 1, o espectador é apresentado ao bando e ao plano para levar avante o assalto do século. Com muita comédia pelo meio (e piadas bem colocadas), há ainda espaço para alguns momentos mais sérios (dentro do possível) e para respirações mais dramáticas.

Um pormenor que não conseguimos deixar escapar é a subtileza das piadas. Sabemos perfeitamente que esta história é antiga, escrita nos anos 80, mas não passa despercebida a saída de Arnaldo, o Figurante (interpretado por Manuel Marques) quando afirma com toda a certeza que o banco BES “só pode ser assaltado por dentro”. Este diálogo da personagem leva-nos a crer que este registo estará presente no resto da história, elevando a Crónica dos Bons Malandros ao patamar de adaptação moderna, dando-lhe todo um outro ângulo e uma outra abordagem não antes feita por Mário Zambujal.

Não conseguimos igualmente fugir à comparação com a tão badalada La Casa de Papel: um bando de deslocados faz o assalto do século. Até as personagens, a sua caracterização e postura, dão ares às adoradas personagens do bando de El Profesor. Ou vão dizer que Flávio, o Doutor (interpretado por Adriano Carvalho) não era capaz de engendrar um plano tão bom ou melhor para assaltar a Casa da Moeda? Podíamos pensar que nuestros hermanos nos roubaram a ideia, uma vez que o livro de Mário Zambujal já tem uns anos, e que agora estamos simplesmente a ir atrás da onda do sucesso da história da série espanhola. Contudo, não será de todo esse o caso. Ainda que as parecenças estejam lá, o teor e o caminho a ser percorrido pelas personagens portuguesas será totalmente o oposto do bando do Professor e tem direito ao seu próprio mérito, sem ser associado a outra produção.

Esse mérito deve-se, primeiramente, ao brilhantismo de Mário Zambujal por ter criado a obra literária, depois a Mário Botequilha pela adaptação do argumento para televisão, seguindo-se Jorge Paixão da Costa e o seu talento natural para realizar. Por fim, e não por isso menos merecedores, os atores que compõem o elenco, desde os principais – Maria João Bastos, Marco Delgado, Joana Pais de Brito, Rui Unas, José Raposo, Manuel Marques e Adriano Carvalho – como a todos os contribuíram para dar vida a esta história e que ficaremos a conhecer nos próximos episódios.

Acreditamos que a Crónica dos Bons Malandros poderá ser uma das grandes estreias de 2020, não só portuguesas, como quiçá, até em comparação com produções internacionais, por que se há algo que não podemos negar é o imenso potencial que as séries portuguesas têm. Atrevemo-nos a dizer que a Crónica dos Bons Malandros é, sim, a verdadeira joia de Lalique.

Beatriz Caetano e Joana Henriques Pereira