[Esta crónica não contém grandes spoilers sobre nenhuma das temporadas de Manhunt!]

Vi o primeiro episódio de Manhunt: Deadly Games e escrevo esta crónica para comparar um pouco as duas temporadas da antologia. A série mudou da Discovery/Netflix para a Spectrum Originals e isso fez com que o acesso ao conteúdo ficasse mais difícil, daí que só tenha conseguido ver o episódio agora, já tendo passado largas semanas. À semelhança de Narcos (com a exceção da segunda temporada que continua diretamente o mesmo caso que a primeira) ou de American Horror Story, trata-se de uma série de antologia, ou seja, cada temporada de Manhunt conta um caso de um assassino em série ou de um criminoso famoso, num estilo do qual me tenho tornado fã, o meio documentário, meio série. Vocês sabem que estilo estou a falar, por exemplo Mindhunter, onde nos contam uma história verídica mas de uma forma mais lúdica e mais em formato de “contador de histórias à volta de uma fogueira” do que um americano a falar para o Canal História enquanto passam imagens a preto e branco reais do caso.

Como fã de true crime (por muito estranho que isto pareça de se dizer) e conhecedor das histórias mais infames, como Charles Manson, Ted Bundy, H. H. Holmes, entre outros, fiquei logo interessado quando vi, em 2017, na Netflix, uma série chamada Manhunt: Unabomber (fun fact: inicialmente chamava-se Manifesto). A série contava-nos em oito episódios a história de Ted Kaczynski (interpretado por Paul Bettany), mais conhecido como Unabomber, um bombista muito famoso por ter criado, plantado e detonado 10 bombas que mataram três pessoas e fizeram 23 feridos. Dito assim em números não parece terrível, mas o que chamou mais à atenção foram os seus motivos: Ted fez o que fez para poder propagar as sua ideologia. Ted era um anarquista, com uma boa capacidade de escrita e uma inteligência muito superior à média (era um prodígio matemático), o que tornou as suas manipulações e brincadeiras com a polícia e imprensa giras de se assistir. Claro, no seguro de nossa casa com ele já fora de ação. Não preciso de entrar em grandes detalhes para dizer que adorei a primeira temporada. Manteve-me preso ao ecrã durante os oito episódios. Creio que vi tudo no mesmo dia ou pelo menos no mesmo fim de semana. Boa produção, bom elenco e uma boa história por base.

Depois começaram a existir notícias sobre a 2.ª temporada, que iria mudar, já não iria ser uma série da Discovery/Netflix e que iria ser sobre o bombista responsável pelo ataque aos jogos olímpicos de Atlanta em 1996. Ora, ao contrário de Unabomber, não conhecia muito, nem conheço ainda, sobre este caso, o que poderia ser um ponto positivo, aprendendo sobre mais um criminoso conhecido. Os problemas começaram com a dificuldade de acesso ao material, não sendo tão fácil de ver como pagar uma subscrição da Netflix e ter o episódio à mão. Ao fim do primeiro episódio uma coisa era clara, a produção e realização perderam alguma qualidade. Nada de exagerado que agora pareça amador, mas nota-se na qualidade dos planos e imagens. Quanto à interpretação ainda tenho muitas dúvidas, preciso de ver mais. Tratou-se de um episódio para nos dar o contexto e por isso não houve grande espaço de interpretação, apenas conhecer os nossos protagonistas. O segurança Richard parece meio apagado, mas creio que é para transmitir a ideia de não ser o sujeito mais inteligente à face do mundo. Aliás no primeiro episódio gostei da maneira pouco ágil e meio ignóbil como ele reage às entrevistas e à atenção da imprensa. Aliás, no final do primeiro episódio (e isto não é spoiler, porque está literalmente na sinopse da temporada) as atenções da polícia começam a cair sobre o segurança. Pessoalmente, não acredito que seja ele. É fácil de confirmar mas prefiro ir acompanhando na série.

No fundo, fazendo uma comparação, a primeira teve logo um melhor começo, era novidade e a própria personagem era muito interessante; a segunda parece estar a tentar navegar na onde de sucesso da primeira, não a nível de imagem ou marca mas por assumir quase o mesmo estilo, a perseguição das autoridades a um bombista que se mostra evasivo e mais inteligente que a oposição, até que finalmente é apanhado. Agora se uma fórmula resulta não é uma grande crítica implicar que a estão a replicar. Olhem para o exemplo de Narcos, que todas as temporadas o conceito é o mesmo mas vão nos contando a história de druglords diferentes. O que é certo é que no final do dia eu vou ver a 2.ª temporada e cada vez que fizerem outra (a não ser que de repente renovem para mais 20 temporadas) irei também ver. Gosto do conceito de pegar em histórias verídicas sobre pessoas com distúrbios e traumas que os levaram a isolar-se da sociedade (muitas das vezes um isolamento metafórico e conceptual, não um isolamento físico como no caso de Unabomber). Sou um grande adepto de fantasia, mas também existem muitas histórias reais que são muito interessantes para trazer e adaptar ao pequeno e grande ecrã. Podiam era ir variando e não ser sempre sobre bombistas. Por exemplo, adorava ver histórias como a de H. H. Holmes ou a de Jack the Ripper contadas neste registo em futuras temporadas.

Em suma, continua a ser uma série que vale a pena à semelhança da primeira, e mantém-nos presos ao ecrã. Um brinde a mais séries deste género.

Raul Araújo