Já aqui muito se falou de personagens e também de lugares e de animais, mas nunca nos tínhamos debruçado sobre coisas propriamente ditas, sobre objetos que também fazem parte da história das séries, muitos deles uma parte verdadeiramente importante da narrativa. Os objetos são muito mais do que aquilo para o qual foram especificamente concebidos, significam algo para as pessoas a quem pertencem e são verdadeiros símbolos que estão para além daquilo que podem ser à primeira vista. Seria fácil associarem imediatamente a maioria destes objetos à respetiva série, enquanto outros não seriam tão óbvios. Fiquem então com as nossas dez escolhas:

As cassetes [13 Reasons Why]: Em 13 Reasons Why, as cassetes deixadas por Hannah quase têm um estatuto de importância tão elevado como os seus personagens principais, pelo menos na 1.ª temporada. A importância das cassetes é óbvia, estando cada uma delas associada a um motivo/pessoa que levou Hannah a suicidar-se, conduzindo-nos numa verdadeira viagem pela vida da protagonista e daqueles que com ela se cruzaram, sendo um testemunho da marca que os outros podem deixar em nós. É um toque engraçado que, numa série centrada em adolescentes do século XXI e com temas tão atuais, as cassetes tenham sido a escolha para gravar as últimas palavras de Hannah.

A Needle [Game of Thrones]: Numa série repleta de objetos icónicos, desde os brasões das famílias, às diversas espadas e armas preferidas de cada personagem, incluindo também o emblema do King’s Hand e até o famoso trono, a espada de Arya Stark, a Needle, é verdadeiramente especial. A Needle foi dada a Arya por Jon Snow, num momento ternurento, quando este vai para a Muralha e Arya para o sul, logo na 1.ª temporada. Apesar de ser o irmão bastardo (pelo menos no início da série), Arya sempre teve uma admiração enorme por Jon, de certa forma por a compreender tão bem. A Needle foi construída especificamente para ela, adaptada à sua estatura, privilegiando a agilidade e a velocidade, em vez da força bruta. Arya usa-a durante todo o seu percurso e aventuras até ao final da série, exceto o curto período em que lhe é roubada por Polliver. A Needle salva-lhe a vida umas quantas vezes, honrando sempre o conselho de Jon: “stick them with the pointy end”.

O post-it do casamento [Grey’s Anatomy]: Para um casamento ter validade legal, há que ir a uma conservatória do Registo Civil. Quando duas pessoas querem simplesmente assumir entre elas um compromisso para a vida, sem preocupações de o oficializarem, o modo para o fazerem é irrelevante. Meredith e Derek estavam preparados para o passo seguinte na relação, numa altura em que se encontravam em completa sintonia enquanto casal, ansiosos por garantir, através do presente, um futuro em comum. Foi então num post-it azul que o casal escreveu os seus votos, com direito a assinatura por baixo. Quiseram assim selar o seu amor e o pequeno quadrado de papel continuou a ter importância muito depois da união, com Meredith a invocar a determinada altura os votos ali escritos, numa altura em que a relação dos dois passavam por momentos mais complicados. O post-it teve ainda direito a lugar cativo por cima da cama que Meredith e Derek partilharam.

O guarda-chuva amarelo [How I Met Your Mother]: Muito antes de termos conhecido a Mãe, ela já era ‘representada’ pelo guarda-chuva amarelo. Melhor explicando, ela já tinha aparecido, mas nunca a tínhamos realmente visto, porque o guarda-chuva tapava-lhe o rosto. Antes de a relação entre Tracy e Ted ter começado propriamente, os caminhos dos dois já se tinham cruzado e é impossível esquecer que o guarda-chuva amarelo é um símbolo do amor que os une. O objeto amarelo passou por várias mãos, mas tudo o que aconteceu com ele antes de Ted e Tracy se abrigarem lá, juntos, parece irrelevante.

A máscara de Salvador Dalí [La Casa de Papel]: A máscara de Dalí é sem dúvida a imagem de marca da série conhecida internacionalmente. É a máscara que esconde as caras dos ladrões mais famosos da televisão no assalto à Casa da Moeda espanhola e posteriormente ao Banco de Espanha. Contudo, a máscara também acaba por se tornar num símbolo de revolução e de representação do espírito de resistência face às injustiças do sistema. Esta é a filosofia e ideais que El Professor transmite na série, que também é muito bem representada pela música anti-fascista italiana Bella Ciao. Contudo, este espírito já trespassou para o mundo real, visto que a máscara já foi usada por manifestantes em alguns países. Não é divulgado ao certo o porquê da cara deste artista e não a de outra personalidade espanhola. Salvador Dalí foi um mestre artístico na sua época, reconhecido pelas suas pinturas fabulosas surrealistas, tendo uma história controversa no que diz respeito à política, pois está descrito como tendo feito parte da extrema esquerda na sua juventude, enquanto mais tarde foi apoiante do regime autoritário de Franco. O uso da máscara de Dalí pode ser simplesmente por dar um efeito engraçado com aqueles bigodes enormes.

O livro de contos de fadas [Once Upon a Time]: Aqueles que gostam verdadeiramente de livros estão cientes da sua magia, da capacidade que as histórias têm de nos levar até outros mundos, de nos ensinar uma infinidade de coisas e de nos fazer mergulhar em vidas que não são as nossas. O pequeno Henry agarrou-se a tudo isso para conseguir viver num mundo que, ao contrário daquele que conhecia das histórias de contos de fadas, não estava repleto de finais felizes nem de aventuras em que os heróis salvam sempre o dia. Enquanto os adultos do seu mundo agiam como se o livro fosse apenas mais uma história de princesas e príncipes, o menino acreditava que aquele mundo encantado era uma realidade e que era apenas uma questão de lutar o suficiente para o mostrar a todos. A vida de Henry acabou por encher-se de cor e de aventuras repletas de vilões e de heróis. Houve coisas más, mas o menino ganhou uma família que não sabia que tinha e junto das pessoas que ama e que o amam conseguiu ultrapassar todas as adversidades que foram surgindo no caminho. Storybrooke nunca mais foi a mesma desde que Emma, trazida à pequena localidade por Henry, quebrou a maldição que durava há tantos anos.

O origami [Prison Break]: Nesta série, o origami foi sempre um sinal de amor, de amizade, de se olhar por alguém. Quando Michael era pequeno, depois de a mãe morrer, Lincoln costumava deixar-lhe um pequeno origami em forma de cisne sempre que tinha de se ir embora por algum tempo. Michael não sabia exatamente o que aquilo significava, embora percebesse que era uma forma de o irmão mais velho mostrar que estava a tomar conta dele. Michael decidiu investigar o significado e descobriu que representava as obrigações familiares, olhar pelos nossos. O menino devia estar longe de imaginar que um dia, quando ele e o irmão fossem adultos, seria o mais velho a precisar verdadeiramente que olhasse por ele. Michael foi para a prisão para arranjar uma maneira de libertar o irmão e lhe salvar a vida a partir do interior e tornou missão sua limpar o nome dele provando a sua inocência. O origami começou como uma história de amor dos dois irmãos, mas acabou por ser usado com vários outros personagens que também se tornaram importantes nas suas vidas e serviu ainda para trocar mensagens codificadas.

O Impala [Supernatural]: O carro icónico que acompanha a série toda é um Chevrolet Impala preto de 1967 herdado por Dean, do pai, carinhosamente apelidado de Baby. É bastante óbvio, durante o decorrer das temporadas, que o carro é a coisa mais preciosa que Dean possui e é importante não só para ele. O porta-bagagem do Impala guarda variadíssimas armas usadas pelos irmãos Winchester nas suas caças a seres sobrenaturais. Para além disso, o Impala serve de “casa” dos irmãos quando estão em viagem, sendo também, eventualmente, usado por ambos nas suas conquistas amorosas. O próprio Impala é possuído por fantasmas uma ou duas vezes, fazendo a vida negra aos protagonistas, e chega a sofrer diversos estragos ao longo das aventuras, mas termina sempre consertado. Por curiosidade, na última San Diego Comic Con, foi sorteada uma réplica (em tamanho real) do Impala a um fã sortudo presente no último painel da série.

A Bíblia de Eden [The Handmaid’s Tale]: A Bíblia, enquanto livro sagrado, é um elemento essencial de Gilead, uma república ditadura que vê nas escrituras uma verdade absoluta levada ao extremo, acreditando que o mundo deve reger-se por regras tão arcaicas que são dignas da Idade Média. No entanto, os ensinamentos da Bíblia não passam de uma desculpa usada pelos extremistas para justificarem as suas leis e ações bárbaras. Como acontece no nosso mundo, aliás. O mal não está na religião, mas sim na forma como as pessoas más se servem dela. No entanto, queremos aqui falar desta Bíblia em especial, que tem uma importância grande na série. Para começar, trata-se da Bíblia de Eden, que não era mais do que uma criança quando foi obrigada a casar-se com um homem feito. Eden era uma menina crente naquelas palavras, nas virtudes do regime em que vivia, disposta a ser a melhor das esposas. No entanto, Nick, o marido, nunca se interessou por ela e a menina que só queria ser amada acabou por se apaixonar por alguém que correspondia os sentimentos dela. Só que, em Gilead, a infidelidade é punível com a pena de morte (a não ser que se seja um homem poderoso, porque esses basicamente fazem o que querem) e esse foi o destino de Eden. Pior de tudo: foi o próprio pai quem a denunciou e fez com que fosse morta. Mais uma pessoa cega que não vê que é Gilead que comete os piores pecados contra a humanidade e não o contrário! O assassinato de Eden às mãos de um regime cruel não deixam June e Serena indiferentes e a handmaid confronta a outra acerca da forma como vai criar Nichole. Isto acaba por surtir efeito em Serena, que aparece perante o Conselho de Comandantes falando acerca de como as wives querem ensinar os filhos e as filhas a ler – quando é proibido que as mulheres e as meninas o façam – para que possam ler as sagradas escrituras. Numa atitude ousada e de uma rebeldia admirável, Serena quebra as regras e lê um trecho da Bíblia, a de Eden, o que lhe custa a ponta de um dedo. Num mundo em que as mulheres não têm qualquer voz, Serena usou a sua para tentar fazer uma pequena mudança num mundo que ela própria ajudou a construir, mas que começou a aperceber-se de estar longe, muito longe, de ser perfeito ou justo. Pode não parecer muito, mas é quando se começa a questionar as mais pequenas coisas que estão erradas que surge a esperança de uma grande mudança.

A Lucille [The Walking Dead]: Ninguém gostaria de ser apresentado à Lucille, o taco de basebol envolvido em arame farpado, de Negan. Para começar, vamos salientar o facto de ser estranho alguém dar um nome a uma coisa, principalmente a uma arma. Ok, sabemos que este nome é uma homenagem à falecida mulher de Negan, mas ainda assim… A Lucille é a arma de eleição de Negan e nenhum fã de The Walking Dead será alguma vez capaz de esquecer as violentas mortes de Abraham e Glenn. Os dois foram espancados até à morte, até as suas caras e cabeças se transformarem numa polpa sangrenta e desfigurada. É preciso ser-se muito macabro para matar alguém dessa forma e a Lucille é precisamente um símbolo de matança.

Ana Velosa e Diana Sampaio