Com alguns altos e baixos, especialmente após as duas primeiras temporadas, Black Mirror foi desde a sua conceção uma série disruptiva, que veio em muito revolucionar aquilo a que estávamos habituados a ver no pequeno ecrã e criar desconforto nos espectadores. Com temporadas curtas, de episódios isolados, o que une as histórias de Black Mirror pode-se resumir a uma combinação obscura entre tecnologia e sociedade. É ao explorar estas duas componentes da realidade humana que Black Mirror nos faz refletir não só sobre consequências do mundo tecnológico, em constante evolução, que construímos e nos rodeia, mas também sobre a parte mais sombria da natureza humana, com os seus impulsos e desejos. Os sentimentos de paranoia, medo, introspeção, o simples “ficar a pensar no assunto” ou o mais aprofundado “o que faria eu nesta realidade/situação”, são comuns após vermos um episódio de Black Mirror. Fazer uma seleção dos melhores episódios da série não é uma coisa fácil, pois vários episódios são excelentes, por diversas razões, seja pelos conceitos tecnológicos que introduzem, pela relação do ser humano com essa tecnologia, pelas consequências, pelas questões morais, pelos nossos mais obscuros medos e desejos, e muitos mais episódios poderiam ser somados a esta lista…  Mas há três que considero serem aqueles que realmente brilham ao conseguir tirar-nos da zona de conforto e transportar para uma realidade que nos faz refletir sobre o nosso lado mais obscuro enquanto humanos.

1. Fifteen Million Merits (01×02)

O episódio em que um rapaz, tal como muitos outros, acorda de manhã com o objetivo de pedalar o mais possível num bicicleta elíptica, geradora de corrente elétrica, para ganhar “méritos”, pontos, para com eles poder comprar comida, saltar os constantes anúncios que invadem todas as paredes à sua volta. O episódio em que esse mesmo rapaz tenta conseguir uma vida melhor para a rapariga por quem se apaixona e que acaba por o fazer perceber e lutar contra um sistema abusivo. O episódio em que esse rapaz, no fim de contas, se deixa seduzir pela ganância e poder. Fifteen Milion Merits é desconfortante porque o protagonista decepciona-nos, porque a realidade nos parece ultrajante, no entanto ela é já tão próxima da realidade em que vivemos, com tantos paralelos a poder ser traçados. Desde o “pedalarmos” em vão para conseguir “pontos” para viver, ao bombardeamento com ecrãs e anúncios publicitários que nos condicionam, à luta tantas vezes fútil por justiça, à perda de humanidade em prol do poder.

2. White Bear (02×02)

Na minha opinião, o melhor episódio de Black Mirror! A série está recheada de surpreendentes plot twists que elevam o nível dos episódios a uma fasquia de reflexão que chega a dar dores de cabeça a quem se debruça na profundidade moral de cada um. White Bear é, na minha opinião, um dos, senão O episódio, com o melhor plot twist de toda a série e, sem dúvida, um dos que dá mais para pensar sobre a “impiedade” tão intrínseca da natureza humana. Embora nos possa parecer ridículo ou até desumano criar quase que um parque de atrações com a punição e sofrimento de criminosos, a verdade é que não precisamos de recuar assim tão atrás na História para testemunharmos essa mesma realidade. Multidões juntavam-se para assistir a decapitações, enforcamentos e mortes na fogueira. Era, ainda que mórbido, uma forma de entretenimento para as massas. White Bear explora este sentimento, aliado à superioridade moral de quem acha que está acima de alguém que comete um crime moralmente condenável. “Ela ajudou um assassino a matar uma criança, logo merece o mesmo sofrimento, logo é correto fazê-la sofrer exatamente do mesmo modo.”

Quantas vezes não desejamos que um criminoso sofra a mesma dor que as suas vítimas. White Bear faz-nos refletir sobre isto, mostrando-nos um cenário em que isto seria possível, fazendo-nos questionar sobre o que está realmente na origem desta nossa natureza e explorando a ambiguidade da moral humana.

3. Shut Up and Dance (03×03)

Na mesma nota que White Bear, Shut Up and Dance toca na ferida do paradigma do nosso sentido de moralidade. O ênfase principal deste episódio é fazer com que nós, os espectadores, nos apercebamos da alteração no valor que damos a outra pessoa mediante aquilo que consideramos ser desculpável ou condenável. Durante a maioria do episódio, acompanhamos as ações que Kenny tem que fazer devido à chantagem do hacker, e fazêmo-lo com pena e achando um exagero aquilo que o rapaz tem que passar para evitar a divulgação de um vídeo dele a masturbar-se. No entanto, no final do episódio é-nos revelado o conteúdo que Kenny estava a ver enquanto o fazia, e é aqui que Black Mirror nos testa. A maioria de nós irá concordar que um jovem masturbar-se a ver material pornográfico não é algo condenável. No entanto, o paradigma muda se essa pornografia for infantil, e automaticamente temos tendência a achar, que para algo condenável, um castigo e sofrimento são merecidos.

O que acontece no fim, quando Kenny segue todas as instruções e mesmo assim vê o seu segredo exposto à sua família e às autoridades não é, a meu ver, o ponto crucial do episódio. Aquele pequeno conflito interno que a revelação das ações de Kenny tem na nossa perceção e no juízo de valores que fazemos ao que lhe está a acontecer, isso sim é para mim o ponto mais forte do episódio e aquilo que me faz colocá-lo nesta lista.

Está aberto o debate! O que achaste destes três episódios? Qual é para ti o melhor episódio de Black Mirror?

Mélanie Costa