Disclaimer: Este é um artigo de opinião escrito sob influência daquilo que se pode chamar de indignação induzida por terceiros. Mas, mantenham-se comigo.

Devia estar a escrever um relatório, mas depois de ler uma determinada notícia sobre o ainda incerto destino de Person of Interest, tive que parar a procrastinação que estava a fazer e debitar a minha transcendente indignação perante a completa falta de consideração que os manda-chuvas do canal americano CBS têm para com as equipas produtivas e criativas das séries que chamam suas e para com os fãs dessas mesmas séries. E sim, a hostilidade demonstrada pelo Reese e Finch na imagem de destaque deste artigo foi escolhida propositadamente.

Ao ler a notícia da EW intitulada CBS: Person of Interest will return in spring, fate uncertain again”, um misto de emoções – largamente negativas – se abateu sobre mim (se já viram o filme Inside Out, imaginem o bonequinho vermelho a comandar o meu centro de operações cerebral). Para quem não está contextualizado sobre o que se anda a passar em Person of Interest, eu vou tentar explicar resumidamente:

Apesar de ter tido das temporadas mais aclamadas pela crítica desde o seu início, Person of Interest viu a sua 4.ª temporada acumular ratings que aparentemente ficam abaixo dos standards pretendidos pela CBS. Assim, o futuro da série, embora sem iminência de cancelamento, começava a gerar murmurinhos. Quando chegou a altura, não antes de ter deixado um relativamente longo período de espera, a CBS lá se decidiu em emitir um comunicado com a sua decisão: renovar POI para uma 5.ª temporada, mas apenas com 13 episódios (ao contrário dos habituais 22 ou 23). Não eram claramente bons prognósticos para o que iria acontecer à série depois desses 13 episódios dessa 5.ª temporada, embora a CBS não tenha dito se estava a pensar ou não cancelar a série após essa curta 5.ª temporada.

Já experientes na indústria e habituados ao funcionamento das coisas, os produtores de POI decidiram jogar pelo seguro e planear uma 5.ª temporada que desse para fechar a série como deve de ser, para o caso da CBS se lembrar de a cancelar; embora o plano criativo da série estivesse inicialmente traçado para 6 temporadas.

Até aqui, nada de muito chocante e que já não estejamos habituados a que aconteça na indústria televisiva, embora custe para quem é fã.

O pior vem a partir daqui.

Person of Interest foi até aqui uma série que começava as suas novas temporadas na Fall Season (finais de setembro, inícios de outubro) mas, com a redução da 5.ª temporada para 13 episódios, já se previa que a série ficasse provavelmente para janeiro (presente). Saiu o calendário da Fall Season da CBS e Person of Interest… nem visto. Nem para setembro, nem para outubro, nem para janeiro, nenhuma indicação… A data ficou por anunciar, sem qualquer previsão de quando iríamos ter POI na televisão novamente.

A produção e filmagens dos 13 episódios da nova temporada começaram e terminaram, os episódios estão prontos a sair da caixa e a CBS sem dar uma data de estreia à série. Entretanto, os meus ânimos, tal como os de muitos mais fãs, já estavam para lá do impaciente.

Hoje, saiu então a tal notícia da CBS que informa os fãs que:

  1. A nova temporada vai chegar esta primavera, mas…
  2. Não queiram saber data exata porque temos certamente mais que fazer do que decidir em qual dos 3 meses da primavera queremos lançá-la;
  3. Também decidimos dificultar mais a vida a quem trabalha na série e ainda não dizer se queremos ou não cancelar, porque o que nos interessa é o dinheiro que a série possa vir a gerar ou não. As vidas profissionais de quem trabalha em POI não interessam, eles que fiquem no limbo à espera, e os fãs também que esperem que é o remédio deles.

Deixem-me tirar um momento para respirar fundo.

Já não é a primeira nem a última vez que a CBS mostra falta de consideração pelos fãs e pelos profissionais que trabalham para eles.

Há coisa de 2 anos, terminaram os contratos de Paget Brewster e A.J. Cook em Criminal Minds, por alegadas “razões criativas” (não deveriam estas pertencer à equipa de guionistas e produtores da série?). A ebulição da comunidade de fãs foi tanta que, por essa razão ou outra, passado um tempo, ambas as atrizes estavam de volta à série, embora Paget Brewster tenha decidido depois, por vontade própria, virar as costas à CBS. Eu também virava, se me tivessem em tão baixa consideração.

E nem falarei do caso de Jericho, ou de tantos outros que, também fora da CBS, sofrem pelas palas económicas que os canais abertos têm nos olhos.

De que está a CBS à espera para se decidir quanto à data da transmissão e ao destino de Person of Interest? De prejudicar (ainda mais) o destino criativo da série? De obrigar atores e produtores a lançarem-se noutros projetos e ganharem aí uma melhor desculpa para cancelar?

Se calhar até abrir mão da série de uma vez fosse melhor, afinal de contas, até a Netflix já mostrou um possível interesse em pegar na série como sua original, caso a CBS a largue. E assim de repente isto despoleta-me um déjà vu ao caso do filme de Veronica Mars, que andou quase 7 anos com os produtores e atores a querer trabalhar no seguimento à série, mas de mãos atadas porque a WB detinha os direitos sobre o produto e demorou a incorporar a ideia de que havia realmente mercado e gente que queria ver o filme – tanto queriam que quando finalmente Rob Thomas conseguiu lançar a campanha de crowdfunding para o filme, foi a campanha mais financiada de sempre do Kickstarter.

São números e provas de que há público o que a CBS quer? Person of Interest ganhou há dias um People’s Choice Award, deve querer dizer alguma coisa. Esteve já várias vezes nos tops de visualizações e vendas no Japão e China… A menos que só interesse ter audiências nacionais dormentes, daquelas que são mais televisões atravessadas pelo olhar do que indivíduos realmente envolvidos no conteúdo a ser transmitido.

O que levanta outra questão: Até quando vão os canais abertos dos E.U.A. continuar a ignorar as novas tendências de um mundo e um envolvimento mediático em rede, que não é unidirecional, que não passa – ou não devia passar – só pelos ratings de Nielsen e pelos retornos de publicidade?

Mélanie Costa