Classificação

9.5
Interpretação
9
Argumento
8
Realização
7
Banda Sonora

[Contém spoilers!]

Temporada: 2

Número de Episódios: 10

Ramy é o perfeito balanço entre o absurdo e o real. Com um olho na tradição e outro no futuro, uma visão pelo prisma do protagonista e outra por todos os que o rodeiam.

A 1.ª temporada apanhou toda a gente de surpresa. Um jovem comediante decidiu mostrar-nos como é crescer muçulmano numa Nova Iorque cheia de oportunidades. A premissa é uma “autobiografia” em que Ramy se debate entre aproveitar tudo o que a vida lhe proporciona e manter-se fiel à sua religião islâmica e valores muçulmanos. O que a série acaba por mostrar é que o maior obstáculo para a felicidade não é a religião ou o pecado, mas sim as escolhas pessoais.

Nesta 2.ª temporada, a série abraça ainda mais o lado dramático e introspetivo. Talvez por isso a comédia pareça mais forçada, como que martelada para que os episódios não sejam tão sofríveis. Dito isto, a temporada ganhou mais com este “peso”. A série vai amadurecendo com Ramy e este segundo capítulo é, em muitos aspetos, uma sequela que ultrapassa o original, o que, por si só, é um feito herculano.

Continuamos a ter episódios focados em personagens secundárias sem que Ramy esteja presente. É mesmo neste aspeto que a série se destaca, com um argumento rico, personagens capazes e atores que carregam bem o fardo. Entre arcos principais e secundários, com ou sem Ramy, a temporada ofereceu-nos stress pós-traumático, iniciação ao Islão, a pressão de se ser mulher e o que a comunidade pode exercer sobre elas, as superstições, a força que tem o assumirmos os nossos erros, emigração, religião e as novas tecnologias, relação pai-filho, ser gay em segredo, consequências da honestidade… enfim, cada episódio é uma lição sobre humanidade. Obviamente que há lugar para o excêntrico bilionário, masturbação a amigos, leite mamário de Mia Khalifa e visitas virtuais a Meca. Afinal de contas, esta é uma comédia também.

Na linha da frente ou não, Ramy demonstra nestes episódios que ainda não cresceu. A introdução de peso nesta temporada, Mahershala Ali, tenta guiar o jovem, mas sem grande sucesso. Os pais e irmã, com os seus próprios demónios, fornecem-lhe uma base sólida e os amigos, por muito desencaminhadores que possam ser, estão do seu lado quando ele mais precisa… ainda assim, Ramy acaba a temporada novamente perdido.

Nunca a frase “o que interessa é a viagem e não o destino” se encaixou tão bem. Ramy é uma viagem fantástica, de visionamento “fácil”, que espelha uma sociedade partida, mas não quebrada. Mostra-nos os podres, mas nunca nos rouba a esperança ou a luz ao fundo do túnel. Ramy tem o coração no sítio certo, mas as ações têm consequências mesmo quando as intenções são boas.

Youssef assume-se como uma das melhores mentes a trabalhar em televisão, com uma temporada sólida, multifacetada e coesa que em muitos aspetos supera a anterior. O único senão é a redução de comédia, mas com a adição do sempre espectacular Mahershala Ali e de um elenco que não para de surpreender, é difícil de apontar defeitos. Uma das melhores séries em exibição!

Como nota final, deixo a recomendação para quem gosta de Ramy: Dave. Uma história diferente, mas com muitos traços semelhantes. As mentes jovens no mundo da comédia televisiva estão boas e recomendam-se.

 

Personagem de Destaque:

Sheik Malik (Mahershala Ali) – Seria muito difícil escolher outra. O carisma de Mahershala Ali faz com que todas as cenas em que marca presença sejam dele. Esta força gravítica funciona especialmente bem considerando a intimidação que o Sheikh exerce sobre Ramy. Mas que fique isto assente: toda a gente neste elenco é excelente!

Melhor Episódio:

Episódio 9 – Uncle Naseem – O episódio surpreende em muitos aspetos. Primeiro porque não é expectável que o penúltimo episódio seja dedicado a uma personagem tão secundária, mas surpreende ao revelar que o tio machão, insensível e sem papas na língua esconde uma homossexualidade que nem o próprio consegue aceitar. Naseem deixa de ser um simples estereótipo e assume mais camadas. É incrível a capacidade do episódio de nos quebrar o coração com uma personagem tão intragável até então. Laith Nakli é impecável.

Vítor Rodrigues