Classificação

8
Interpretação
7
Argumento
7
Realização
9
Banda Sonora

[Contém spoilers]

Temporada: 2

Número de episódios: 6

Coisa Mais Linda é uma série brasileira que decorre em 1959, centrando-se em Malu (Maria Casadevall), depois de descobrir que foi roubada e abandonada pelo marido, mudando-se de São Paulo para o Rio de Janeiro. Disposta a dar a volta por cima, ela mergulha no universo da origem da bossa nova quando conhece Chico (Leandro Lima), um cantor talentoso, mas inseguro, que a leva por uma jornada de autoconhecimento. Malu acaba por abrir um bar de música com a nova amiga Adélia (Pathy Dejesus) e juntas vão lutar contra a época dominada pelo sexo masculino.

Não vou fingir que esta série é uma obra prima, nem tão pouco que esta temporada esteve ao nível da 1.ª. No entanto, não posso negar que esta série não tem a notoriedade e o reconhecimento que deveria, pelo menos em Portugal. Pode não ser compatível com todos os gostos, mas talvez muitos se afastem por ter “medo” que isto se trate de uma novela. Bem, asseguro-vos que não. O toque latino do drama romântico está lá, mas diria que acrescenta mais à série do que a aproxima do género da novela.

Depois de a 1.ª temporada nos ter dado um final de deixar de boca aberta, esta temporada vem fechar todas as pontas soltas – abrindo outras, claro. Logo no primeiro episódio ficamos a saber quem saiu ileso do confronto final, e ao longo dos restantes episódios vemos justiça a ser feita, de diferentes maneiras. Poderia dizer que o fim me chocou, mas foi muito semelhante ao da 1.ª temporada, algo trágico. Para além disso, neste caso foi merecido – peço que não me persigam por ter esta opinião -, o que não tende a chocar tanto, na minha ótica. Ainda assim, fiquei satisfeita, mas não com tanta ânsia por uma nova temporada.

Em geral foi uma temporada dinâmica e não senti que fosse repetida. A série continua a abordar temas intemporais de forma sublime. Se na temporada passada adorei a abordagem à interseccionalidade do feminismo com o racismo, nesta não houve assim nenhuma temática que se destacasse tanto. No entanto, apreciei o terem continuado a explorar as diversas facetas do feminismo, do racismo e novas introduções como a possibilidade do poliamor. Ainda que considere que esta última poderia ter sido melhor desenvolvida, foi uma inclusão positiva. Tal como achei na 1.ª temporada, nesta manteve-se uma fraca abordagem no que toca a sexualidade. Não me interpretem mal, simplesmente acho que uma série com este poder de crítica social, poderia ir também mais longe neste aspeto. Ao introduzirem Thereza como bissexual, não se deveriam ter ficado por aí – pela introdução. Todos os romances maravilhosos que ela tem são com homens, e acaba por usar as mulheres para descomprimir e como casos isolados e momentâneos. Tudo bem, é uma escolha dela enquanto mulher e indivíduo que é. Não nego, mesmo assim, que gostava que os escritores fossem mais bold, tendo em conta até, a personagem que é.

Um ponto positivo que destacaria é toda a atenção que dedicaram a Adélia nesta temporada. Tal permitiu conhecer melhor a mesma, e que novas personagens conseguissem brilhar, como o seu pai e Ivone, a sua irmã. Falando especificamente em Ivone, não me apeguei a 100% à personagem, acho que ainda estou de luto em relação a Lígia, e senti que a tentaram substituir com a mesma – seja por cantar maravilhosamente bem na série, seja pelos posters de divulgação. Por falar em Lígia, embora a tenha sentido presente, não senti o suficiente. Alguém que foi tão importante durante toda a 1.ª temporada… Só nos últimos episódios é que sentimos, e bem, a sua presença.

Por fim, considero também que a evolução das personagens é bastante visível e positiva, assim como as relações que estabelecem umas com as outras. Confesso que é bom, ver Malu ficar sozinha e escolher-se a si própria.

Melhor episódio:

Episódio 4 – Só as Mulheres – Algo mais épico do que um escandaloso evento feito por mulheres para mulheres? Algo mais épico do que a aprovação desse mesmo evento depender de um homem, e que este acabe por ser manipulado de forma brilhante por Malu? Diria que não. Para além destes fantásticos acontecimentos, acaba por ser um episódio muito completo. Se de um lado temos Adélia a sofrer porque lhe foi diagnosticado um cancro, do outro temos Thereza a chorar pelo casamento falhado. Temos a lembrança de que casar não é ser anti-feminista e de que o triângulo Adélia/Nelson/Thereza é das partes mais tristes da série, pois diria que são todos boas pessoas. É também neste episódio que Thereza começa a encontrar a sua voz na rádio e que sabemos mais sobre o pai da Adélia e começamos a perceber a personagem.

Personagem de destaque:

Thereza Soares (Mel Lisboa) – Qualquer uma das personagens femininas é um ícone. Mas Thereza inspira qualquer mulher, seja pelo trabalho que desempenhou na rádio e a coragem que teve em contornar as regras, seja por dar voz a todas as feministas do mundo e ser das personagens que melhor compreende o termo. O facto de ela ser tão a favor da liberdade da mulher e ter encontrado o seu espaço no casamento, e deixar-se, também, sofrer pelo mesmo, é maravilhoso de ver. Ainda que nesta temporada tenhamos ficado com um novo romance mulher/homem, nada me tira da cabeça que a próxima temporada (caso exista) possa ser aquela em que ela, finalmente, dará o salto.

Ana Leandro