Classificação

7.4
Interpretação
6.8
Argumento
7.1
Realização
7.5
Banda Sonora

Temporada: 2

Número de episódios: 16

 

Atenção: esta review contém spoilers!

Praticamente um ano após a sua estreia na plataforma de streaming Hulu, reunimo-nos novamente para falar sobre Light As a Feather, cuja 2.ª temporada chegou a um fim no passado dia 4 de outubro, nos Estados Unidos da América. A segunda metade desta temporada estará disponível em Portugal a partir deste domingo, através da plataforma HBO Portugal.

Como já sabemos por reviews anteriores (para as quais partilharei a ligação mais tarde), Light As a Feather tem por base um grupo de amigas do secundário que, após um jogo aparentemente inocente de light as a feather, stiff as a board, se veem presas no meio de uma maldição da qual não fazem ideia como escapar.

Depois de várias perdas e certamente uma grande dose de trauma sofridos na primeira parte da série, esta 2.ª temporada reencontra McKenna, Alex e Violet num contexto um pouco diferente daquele a que estávamos habituados, com os papéis a inverterem-se entre Violet e McKenna, que vive agora com a bomba-relógio que é a crisálida nas suas costas.

Numa história movida, em grande parte, pelas suas personagens, a mudança de papel entre estas duas começa, desde logo, a ser um ponto aliciante para a série que, nesta temporada, parece mais segura de si, com uma base muito mais sólida do que aquela em que a temporada anterior assentou. O facto de McKenna ser agora forçada a cometer as mesmas atrocidades pelas quais Violet foi julgada para conseguir sobreviver à maldição levanta questões interessantes ao porquê de uma personagem ser tida como vilã enquanto que a outra não e acredito que esta temporada fez um bom trabalho na forma como abordou este assunto e, de forma semelhante, como desenvolveu as personagens ao longo da narrativa. Ainda que o compasso moral de McKenna não seja colocado em questão durante muito tempo, com o aparecimento de Jennie no grande esquema das coisas a justificar muitas das ações pouco características da sua irmã, o mesmo não se pode dizer sobre Violet, que muda por completo ao longo destes dezasseis episódios.

Tida como a minha personagem favorita na 1.ª temporada, Violet Simmons é facilmente quem mais se altera ao longo de toda a série, partindo de alguém aparentemente irreparável e sem qualquer pingo de humanidade para uma personagem afetuosa à sua própria maneira e, acima de tudo, capaz de se redimir. A sua jornada de aceitação no grupo enquanto “psicopata de estimação” tem tanto de engraçado como de querido e foi, sem qualquer dúvida, uma das linhas narrativas que mais se destacou nesta temporada.

Apesar da curta duração dos seus episódios, Light As a Feather consegue distribuir o seu tempo de antena de igual modo pelas suas personagens principais com relativa facilidade, sendo que todas elas têm a sua própria história, interligada, de uma ou outra forma, com a narrativa principal. Entre as três, Alex acaba por ter a história mais desinteressante, na minha opinião, apesar de ainda assim não sentir que seja, de todo, aborrecida. Já a história de McKenna aparece como linha condutora da temporada.

No que diz respeito a aspetos positivos, esta temporada teve vários, vendo até uma melhoria significativa em alguns deles comparativamente à sua antecessora. O elenco desta série é algo que tenho vindo a lisonjear desde o seu início, uma vez que, apesar de ter os seus elos mais fracos, é constituído por rostos que ainda não saturaram a indústria, ainda que alguns deles carreguem já uma bagagem profissional considerável. Nesta temporada, vemos esse elenco aumentar com personagens novas que, por mais ou menos tempo, acompanham o grupo nesta nova etapa. Uma destas personagens é Sammi, interpretada por Katelyn Nacon (The Walking Dead, [email protected]). Tendo participado já em séries de cariz semelhante dentro desta mesma produtora, Katelyn encaixa de forma natural na personagem e contexto da série e, durante o período de tempo em que nela permanece, prova ser uma boa adição à mesma. No entanto, por alguma razão, houve um recasting entre as duas temporadas da mãe de McKenna e Jennie e não acho que a escolha tenha sido apropriada, pelo que a série perde aqui alguns pontos.

Como já mencionei, o facto de a série ser movida mais pelas personagens do que pela maldição em si funciona a seu favor, não deixando muito espaço para perguntas sobre a lógica por detrás da criação da crisálida ou da transmissão da mesma de pessoa para pessoa. A audiência sabe apenas o necessário para que, no momento, a história tenha uma base de credibilidade e, honestamente, isso não me incomoda. Numa série que em tudo se assemelha a uma mistura de Pretty Little Liars com Final Destination, criada claramente para ser consumida em maratonas, acho mais importante desenvolver algo interessante do que necessariamente lógico, ainda que esta temporada nos traga muito mais respostas do que a anterior.

Desde que escrevi a review da 1.ª temporada desta série, já a vi, pelo menos, mais duas vezes, e muitos dos comentários que tinha não se mantêm. Pessoalmente, entendo agora que o formato de temporadas e episódios curtos funciona bastante bem em Light As a Feather, sendo esta uma série criada para web. Não só ajuda a manter um determinado ritmo, mas previne também que a série se distraia muito do seu objetivo e assuma mais do que aquilo que tem capacidade de desenvolver.

Contrariamente ao que senti na temporada anterior, esta consegue transmitir melhor a sensação de suspense, em grande parte devido à introdução de várias personagens, como Peri e Jennie, com motivos ocultos, aparecendo de forma oposta à Violet da 1.ª temporada, cujas motivações sempre foram do conhecimento público. Isto, aliado ao facto de a maldição estar agora colocada em primeiro plano, no sentido de ser precisa uma solução urgente, e ainda ao desaparecimento de Henry (sendo que todas estas histórias estão interligadas), confere à temporada um tom diferente da anterior, sem nunca se afastar muito das suas raízes. Ainda assim, continuo a achar que a série podia ser um pouco mais negra do que é agora e transitar mais para o género de terror, mas assumo isso como opinião pessoal e percebo que essa mudança poderia alienar parte da sua audiência.

 

Melhor Episódio:

Episódio 16 – …Brave As a Lion Ao contrário daquilo que senti na anterior temporada, onde foi relativamente fácil escolher um episódio como favorito, desta vez a escolha não foi tão óbvia. Nesta 2.ª temporada, a série manteve um nível constante com os seus episódios que, de modo geral, foram bons. Assim, em vez de existirem vários episódios que se destacam na minha mente, tenho, principalmente, cenas favoritas. O final de temporada, no entanto, surge como episódio de destaque devido ao modo como a história termina, com as nossas personagens sob uma falsa sensação de segurança, completamente alheias ao que ainda está para vir — algo que é vinculado pelos plot twists finais. A história chega aqui a um ponto em que pode continuar ou ser deixada em aberto, mas, pessoalmente, acredito que uma 3.ª temporada pode estar no horizonte de Light As a Feather.

 

Personagem de destaque:

McKenna Brady – Ainda que Violet continue a ser a minha personagem favorita desta série, McKenna — e, por associação, Jennie — realmente rouba a atenção durante toda a 2.ª temporada. A personagem passa por todo um conjunto de altos e baixos à mercê da sua situação e, em particular, da vontade da sua irmã gémea. Jennie emerge primeiramente como sua protetora e, mais tarde, como antagonista, e a dualidade entre as duas irmãs eleva McKenna enquanto personagem. O seu carácter enquanto pessoa altruísta, oposta à sua sombra, sobressai nos sacrifícios pessoais que esta faz e na maneira como prefere morrer a fazer outra pessoa sofrer aquilo por que está a passar e, por isso, merece o seu reconhecimento.

 

Se tiverem interesse, podem ainda recordar aqui as reviews do episódio piloto e da 1.ª temporada.

Inês Salvado